28.2.06

Carnaval

O meu irmão mais novo tinha quatro anos, portanto, isto aconteceu em 1968, Naquela altura, o carnaval de Figueiró era diferente, pois não se falava de política e ninguém sambava. O meu primo Arnaldo estava na guerra, em África, mas esse era também um assunto inexistente. Vejo agora estas coisas, mas a certa distância. Nesse tempo, eu era uma menina de oito anos.
Gostava muito da prima Ana, um ano mais nova, porque passávamos as férias grandes em casa da minha avó. Também nos encontrávamos nas pequenas férias escolares do carnaval, que nesse tempo duravam quase duas semanas: a avó era viúva e tinha quatro filhas, as minhas tias, e um quinto filho, o mais novo, que era o meu pai. Juntavam-se todos no carnaval e no Natal. Assim foi em 1968.
Não me recordo de como decidimos (eu e a Ana) criar uma fantasia para o desfile de carnaval. Só me lembro mesmo do trabalho que tivemos para levar velhos vestidos da avó para a garagem (a casa era enorme e tinha pátios interiores e adegas que ninguém usava e quartos que nunca mais acabavam). Também não posso precisar em que momento o meu irmão mais novo foi arrastado para o plano. Em vez de contar pormenores que a minha memória possa ter inventado, mais vale explicar que fizemos três vestidos minúsculos de espanholas (deviam estar toscos e mal acabados), cortados a partir dos vestidos antigos. Depois, usámos as pinturas (o baton, o rouge, as sobrancelhas, o pó de arroz) que a avó tinha numa gaveta. E lá fomos para o desfile, que atravessava a vila: eu, a Ana e o meu irmão mais novo com fantasias de espanholas, incluindo cabeleiras postiças (cortámos um casaco de peles da avó), inventámos umas castanholas e pintámos muita cor nas caras.
O desfile de carnaval era na parte alta da vila e tinha carros alegóricos, grupos folclóricos e banda de música, que era o que eu preferia. Nós as duas misturámo-nos no cortejo, e cada uma segurava uma mão do meu irmão mais novo. Assim andámos alguns cem metros no meio do desfile. Apetecia-me muito dançar e foi o que fiz; com o entusiasmo, larguei a mão do miúdo e penso que a minha prima terá feito o mesmo.
Só me lembro de, no meio da música e da alegria, aparecerem duas das minhas tias e, depois, a cara muito aflita da minha mãe. Parece que andaram bastante tempo à nossa procura e mais alarmadas ficaram quando perceberam que tínhamos perdido o rapaz. Quase pararam o desfile, com a gritaria. O miúdo fugira na direcção inversa, à tonta, com aquele seu andar perplexo e a mancha de cor do vestido de espanhola, num cor-de-rosa choque que se confundia com o caleidoscópio de confetes, balões, foguetes, fantasias e bailados (incrível, a rapidez com que ele explorara toda a parte oriental da vila!).
Reunida a família, lá fomos vila abaixo. A tia segurava pela orelha a prima Ana, que chorava abundantemente; a minha outra tia também me segurava pela orelha, mas eu ainda não chorava (que mania tinham elas, naquele tempo, de puxar pelas orelhas das crianças!). A mãe levava o meu irmão mais novo ao colo e estava tão nervosa que ele se pôs a chorar, sem saber porquê.
Foi penoso, aquele pedaço de caminho, até casa. A mãe não parou de ralhar comigo, não por ter destruído os vestidos e a pintura, não por perder o meu irmão de vista, mas por o ter fantasiado de espanhola, a ele, um rapazinho de quatro anos.

27.2.06

Livros

Sentou-se no sofá depois de ter vestido o pijama. Estava finalmente confortável, depois de um dia inteiro em correrias entre corredores e escritórios, almoço com o representante comercial de uma empresa parceira, telefonemas do país inteiro, leituras enviesadas de entrevistas nos jornais. Sentou-se no sofá, com as pernas cruzadas, e olhou, deliciado, para a mesa cheia de livros. Era a sua secreta e doce mania, comprar livros. Todas as semanas passava por uma livraria e comprava. Guardava-os em cima da mesa da sala, espécie de troféu de caça ou cartas de amor enviadas pela janela. Sentou-se no sofá, com as pernas cruzadas, e começou a mexer-lhes, sentir-lhes o peso, admirar-lhes as capas. Ali estava ele, com tanto para ler, sem saber bem por onde começar. Não que isso fosse um problema- o gozo estava no facto de ter livros, de os possuir, de os poder amar com todo o tempo que a noite lhe prometia. Sentou-se no sofá e começou a folhear, a entregar os dedos a esse prazer, esse prazer minúsculo e imenso, de ler com o corpo inteiro.

26.2.06

As palavras

Uma pálida serenidade trespassava ao de leve a vidraça, iluminando a biblioteca de Juan Córdoba. Em frente aos volumes, sentado de costas para a luz, o advogado folheava um livro, alheio ao tempo e a um vago desconforto que, em crescendo mudo foi tomando conta dele, até o distrair das palavras. Por um instante, perdido nos meandros da memória, recordou Violeta e lembrou-a ainda viva, como se estivesse ali sentada a seu lado. Depois, sem transição de inquietude, pressentiu o camião militar, que chegava lá fora. A rua esvaziara-se, mas nem foi à janela, pois continuava a sonhar com ninharias: o rumor da ventoinha eléctrica, num ramerrão inútil contra o calor, o voo silencioso e preciso de uma mosca, o abafado e distante ruído da madeira que se vergava aos pesos, o odor muito diluído de especiarias. Então, concentrou-se de novo no livro e leu: “No que diz respeito ao que está certo ou errado, eles pensam que não há diferença entre os dois, porque os que preservam a sua independência fazem isso por serem fortes e, se nós não os atacamos, é por termos medo”...
Então, de súbito, o fio da leitura foi brutalmente quebrado pelas ordens de um homem, lá fora, e por uma amálgama de correrias e gritarias. Aproximavam-se da sua porta. O resto foi rápido. Os soldados entraram na casa, num turbilhão. Córdoba foi agarrado com força por três dos soldados e um sargento deu-lhe ordem de prisão. O advogado deixou cair o livro, que ficou no chão, de pernas para o ar, aberto a meio.
O advogado Juan Córdoba nunca regressou do cárcere. Quando a sua criada fechou a casa, o livro aberto ainda estava no mesmo local, exactamente na mesma posição grotesca, com a lombada para cima, duas páginas viradas para o chão.
O mundo mudou, em redor da casa. Daquela biblioteca, não se ouviram os tiros, quando a ditadura foi derrubada, nem a alegria da gente, quando houve eleições.
Passaram dois anos. A casa pertencia agora a um sobrinho de Córdoba, chamado Leonardo, que veio do exílio e um dia abriu a porta e entrou na sala onde estava a biblioteca. Foi ele quem achou estranho e fora da simetria aquele livro tombado no chão e aberto a meio. Agarrou-o, virou-o para si, e leu um pedaço das páginas que tinham ficado abertas: “O povo ateniense estava muito feliz por ter, pelo menos era o que imaginava, descoberto a verdade...”
Depois de ler a frase, Leonardo colocou o livro na prateleira certa.

25.2.06

Relação do encontro do autor com uma inglesa no promontório de Sagres, a propósito dos cartoons de Maomé

Os livros sagrados.
Primeiro contar-te como se divide um Deus ao meio,
língua que se estranha outra.
Sabes?,
às vezes esquecemos;
Só apertámos o mar em busca de terra.

Por nomes gritados,
começámos a morrer muito perto.

23.2.06

Um animal de televisão

Fulano apareceu pela primeira vez na TV no final de um Benfica-Sporting. O cenário eram os acessos ao Estádio da Luz, com uma multidão a sair com uma cara patibular e uma multidinha a sair contente da vida, a clamar que o mundo era belo como as noites da Lapónia.
O repórter agarrou o primeiro que estava à mão de semear e perguntou-lhe uma coisa, naquela dicção entaramelada e críptica sine-qua-non para uma pessoa se tornar repórter televisivo. O repórter detestava fazer «directos» porque parecia que ele era parvo - e ele não gostava de passar por parvo, pois no fundo receava que não passasse de outra coisa, como diziam as pessoas que melhor o conheciam. Murmurou uma pergunta parva e esperou a resposta parva. Como sempre acontecia, um grupo de adeptos começou a apinhar-se em redor dele, uns para desembucharem imprecações contra o clube derrotado, outros para aclamarem os vencedores, outros somente para não regressarem a casa onde não eram felizes.
Foi então que o operador de câmara principiou a apontar com o queixo, indicando alguém indevido que estava ao lado do repórter. Concentrado na resposta parva, o repórter não lhe ligou. O operador desatou a contorcer as feições, como alguém que precisa de defecar mas não consegue. Finalmente o repórter percebeu e olhou de soslaio para o vulto - Fulano em carne e osso- uma epifania do nada. Era uma criatura insignificante, um homem com idade entre 20 e 40 (podendo também ser muito mais ou muito menos), o cabelo gorduroso escorrido pela testa exígua e uns olhinhos negros como feijão frade. Fulano esgueirava-se de entrevistado para entrevistado, escoltando o repórter como um sombra, pousando o queixo abelhudo no ombro da pessoa que falava baboseiras para a TV. Visivelmente, não era uma imagem digna de ser vista. Uma combinação de toxicodependente com deficiente mental com leproso seropositivo.
A partir daquela noite, Fulano tornou-se ubíquo. Uma espécie de Lili Caneças da sordidez. Havia evento? Lá estava ele, a serpentear perante mirones e VIPs até desbravar o seu canto com vista para as lentes das câmaras. Não perdia nada, de festas a hecatombes. Abrilhantou o Lisboa Fashion Week, a trasladação de Lúcia, as campanhas alegres e cavaquistas, a manifestação gay e a marcha homofóbica. Não adiantava empurrá-lo, fintá-lo, ameaçá-lo, afastá-lo. Se o repórter desatava a correr para distanciar-se de Fulano, quando menos se esperava lá estava Fulano de novo, asqueroso e revoltante, de volta como um bumerangue.
Nada distingue especialmente fulano, a não ser aquela marca - uma miscelânia de verruga com sinal negro cabeludo que traz engastada numa face como um crachá já muito sujo. Bem, assinalam alguns, Gorbachov também tinha aquela cagadela de pombo na calva, e nem por isso... Um repórter teve uma ideia de Colombo que final era de jerico: fazer render o peixe. Pôr Fulano a falar - quem sabe se assim não se livravam dele? Talvez até saísse algo de jeito - «um retalho que a própria vida escreveu». Não resultou. Fulano manobrou o protagonismo do mesmo modo que habitava a mera contiguidade: em silêncio atónito e deslumbrado. Não disse um monossílabo. Apenas enrolou um bocadinho a língua, como quem recolhe um pingo de maionese da comissura dos lábios.
Hoje, Fulano prepara uma carreira internacional. Uns dizem que aparecerá como sombra de Bin Laden. Outros, que ele é o próprio Bin Laden disfarçado de Fulano. Pensadores alegaram que Fulano é uma imagem especular do próprio telespectador - por assim dizer, o sucedâneo final do Zé Maria.

Açúcar

Escolhemos uma mesa junto à janela onde pousaram velas pequenas, o que nos iluminava as lentes dos óculos em contraste com a sombria amálgama de cabeças que estava pelo bar. Também as nossas vozes, a minha e a tua, destoavam - e por isso tivemos que, várias vezes, repetir as frases que, ora um ora outro, não percebíamos. Pedimos chá, eu preto, sempre o primeiro que me vem à cabeça, tu de laranja, depois do rapaz que nos atendia ter declamado uma longa lista que parecia interminável. Laranja, o último deles todos. A conversa desenrolou-se como os ponteiros de um relógio assimétrico, com as ideias a levantarem-se qual poeira, com os olhares a trocarem-se mutuamente. Os nossos dedos, pela noite desocupadamente esticados, brincavam com os restos de pacotes de açúcar - eu fazia uma pequena almofada com o meu, embrulhado em ambas as pontas, com um ligeiro declive para pousar uma cabeça de boneco, tu inventaste um perú das cores do pacotinho, com uma cabeça curta mas que juravas estar de lado, as asas fechadas sobre o corpo tenro. Sorrimos, sim, sorrimos muito.

22.2.06

As ovelhas são jamais verdadeiramente brancas,
há demasiada impureza sobrevoando as janelas
lá fora ou aqui dentro são o mesmo escuro.
Imutável, indizível, invivível é este dia
que já nem as angústias atravessam.

Se pudesse a casa descansar por um instante
ou uma luz me sentisse, e eu a ela.

Encontro

Uma cara conhecida, afável, simpática, e em nós aquele sorriso enorme que nos toma todo o espaço que nos restava entre as orelhas - o encontro. Haverá poucos prazeres como este, para mais quando, de surpresa, o encontro se revela determinante para uma hora, uma tarde, um dia bem passado (uma vida inteira, oh, sonhadores...). Aconteceu-me isso, se bem me lembro, no café que fica bem ao lado da minha livraria. Estava sentado, com os restos de um queque de fim de tarde sobre a mesa e o que pareciam ser restos de um jornal, quando vi chegar, do outro lado da rua, G., melhor, G. e os seus amigos, que me vinham visitar ao meu habitat. Caiu o jornal e o queixo, relembrou-se a boca de sorrir - segredo ao meu amigo invisível que gosto de que venham visitar, assim, de supresa. Haverá poucos prazeres como este, é verdade, mas todos eles passíveis de algumas palavras, como aconteceu a este, talvez diferente, por ser o primeiro.

Luís Filipe Cristóvão começa hoje a colaborar com o Prazeres Minúsculos. Deve-se o acontecimento a um agradável encontro de ideias e ansiedades ocorrido na Póvoa de Varzim, durante o Correntes d'Escritas, entre o próprio e o Luís Naves. Cumprimentos à navegação, we set sail, e lá vamos.

21.2.06

Uma sombra nómada soa
os acordes da primeira noite.
Líquida adocicada lembrança,
história vinda de longe em testemunho.

A desses olhos que guardo hoje,
como botões de punho.
O mundo não melhora em cada dia que passa.
Em ruídos pequenos
ou chávenas usadas.
Uma borboleta esvoaça nesta noite negra e branca
as asas tremem-lhe, na busca de nenhuma luz.

A fadiga esconde-se, só ela sabe e estamos nus.

Handicap

O silêncio só era cortado pelo vruummmm do cortador de relva, algures no Buraco 8. Ricardo sentava-se à beira da piscina deserta, o conjunto de tacos a seu lado como única companhia.
Os gestos que fazia repetiam-se, sempre iguais: De quando em quando, estendia a mão para o copo old fashioned onde o gelo derretia devagar, sorvia lentamente o Bourbon e pousava com cuidado o copo no rebordo da mesa, olhando em seguida o mar muito ao fundo, o branco violento das ondas em pleno Inverno.
A maior parte do tempo tentava não pensar. Como não conseguia, fazia por concentrar-se no que o circundava. Tudo aquilo que o seu dinheiro podia comprar, a simples possibilidade de estar ali, rodeado por uma serenidade e um conforto que poucos tinham ao seu alcance.
De nada adiantava. O medo permanecia e o tremor das mãos denunciava o seu verdadeiro estado de espírito. Volta e meia, imagens de uma violência vermelha relampejavam-lhe na memória. Então, fechava os olhos na tentativa de apagá-las só conseguindo que surgissem com ainda mais detalhes e nitidez.
O cortador de relva aproximava-se agora e o ruído de fundo transformava-se num ominoso e insuportável prenúncio. O Bourbon terminara e o gelo permanecia no copo, tão frio como o ar que agora o vento vindo do mar tornava cortante e lhe enregelava as mãos. Com um gesto, chamou o empregado invísivel que se materializou com prontidão e pagou-lhe sem uma palavra.
Queria levantar-se, regressar ao inevitável. Mas as pernas entorpecidas não lhe obedeciam e a vontade impelia-o em outra direcção. Ergueu-se finalmente, contornou a piscina e entrou no green. Caminhava cada vez mais rapidamente em direcção ao Buraco 3, Par 4, e à falésia que o limitava. Desta vez, não levava consigo os tacos.

20.2.06

Na praia

Os calhaus na praia pareciam pérolas, pois brilhavam ao sol, ainda molhados pelo estender da maré. Helena olhou para o horizonte e viu uma fracção do bote, a lutar no meio das ondas, entre cristas mais altas do que a minúscula quilha, as frágeis figuras dos três homens mais parecidas com bonecos, daqueles que decoram a montra das lojas e que não têm movimento, apenas aparência de vida.
Foi ao pensar que o barco se virara, porque desaparecera na cova da ondulação cinzenta, que Helena pensou, numa voz interior que lhe gritava, e com o coração parado, que António era um estorvo na sua vida.
Chegavam as mulheres à praia e ouviam-se gritos, no meio da maresia dura. O barco flutuava ainda, mas em perigo imenso; reaparecera erguido pela água, a não mais de cem metros da rebentação, numa dança com o ar; era como se os pescadores fossem artistas do circo, em equilíbrio incerto, suspenso num fio alto; de braços abertos, como que crucificados no nada.
Agora, o sol escondera-se. O rugido do mar juntava-se em coro ao ruído da tempestade e o vento arrastava o barco para fora. Os três homens pareciam perdidos. Tinham ficado mais pequenos e a gritaria na praia aumentara. Helena pensou em António, que deveria lutar ainda. A fúria dele devia ser quase igual ao terror daquele mar e os braços grossos que tantas vezes usara para lhe bater tinham a força das ondas. O pensamento regressou, como se fosse arrastado pelo refluxo do tremendo oceano: António era um bruto, ela nunca o amara, que se afundasse então.
No bote, em desespero, alguém se lançou à água. Os outros náufragos imitaram o gesto. E Helena viu que o primeiro que se lançara era o seu António, que decidira enfrentar de caras a morte e tentar tudo, até ao fim. Os braços dele pareciam remos a romper a água, persistentes e regulares.
Um dia, embriagado, ele batera-lhe de tal maneira que as velhas da aldeia a tinham tirado de casa. Ficara sob a protecção dos tios durante uma semana, até que António, pressionado por toda a gente, reaparecera, submisso, a pedir desculpa, a implorar-lhe que voltasse. O que ela fizera, por não ter alternativa. E as velhas, iludidas, diziam que a partir daí estaria segura, que o marido aprendera a lição.
A água enfurecera-se, sob o impulso de grossas nuvens e rajadas de vento. Então, os gritos na praia cresceram, quando um dos homens desapareceu na água, uma boca ainda a pedir socorro. Depois, foi o segundo homem a perder o duelo.
Restara António, que cobrira um terço da distância, que poderia ser salvo se avançasse ainda quarenta metros. Os seus braços martelavam as ondas como se fossem nada, a cabeça emergia num compasso, com a regularidade das marchas que a banda da vila tocava. E, no meio da gritaria, Helena rezou, que se afogue, senhor, que se afogue, pois que só a sua morte me liberta.
Foi então que o ritmo das braçadas diminuiu, até se tornar um desconchavo caótico de um braço após o outro. A corrente arrastara o pescador vinte metros para o largo e o cansaço tomou conta do resto. Houve ainda uma mão que tentou respirar, fechando-se sobre o ar, como se o agarrasse. E o corpo afundou-se.
Foi no meio de terríveis gritos que Helena percebeu a prece que fizera. E uma horrível culpa, mais opressiva que o medo, mais forte que o mar e mais destruidora que o ódio, tomou conta dela, numa prisão perpétua.

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Subitamente entendo o aquém de mim.
Ou pouco a pouco se desvenda
até ao relâmpago que tudo diz.

Já não possuo certezas,
fraquejo ante a força da visão.
Sou uma parte de mim e outra não.
Que brusca miragem vem ao teu encontro?

A pergunta é outra, quem te trouxe
para que vejas o que todos viram já,
sujas páginas escravas.

Para que digas o mesmo sem poder fugir
à prensa negra das palavras.

17.2.06

E para ti? O que é o Amor?

Excerto de «O Que é o Amor Para Ti?», com organização de Sofia Costa Quintas e editado na Pergaminho:

Sofia Costa Quintas: Estamos a chegar ao fim desta animada
conversa. Ao longo de duas horas, focámos algumas
das múltiplas faces do amor e da paixão. Certamente haveria
muito mais a dizer. Antes de terminarmos, peço a cada
um que faça uma breve síntese em jeito de comentário a este
debate.
Margarida Rebelo Pinto: Em relação à paixão, acho que
foi tudo muito consensual. Todos concordamos com esta
ideia de a paixão ser uma projecção e ter uma base de instinto.
Quanto ao amor, podíamos estar aqui dez anos que não
chegávamos a nenhuma conclusão.
Alçada Baptista: Esquecemos um pouco o amor. O que
significa que esta é uma zona turva nas nossas vidas. E é uma
zona turva porque vivemos num tempo em que o amor anda
tão misturado com a carne que poucas pessoas conseguem
descobrir a chave do mecanismo dos afectos.
Casimiro de Brito: A paixão é um sopro. Um vento que nos doma
e que nos reconstrói. Ou destrói. O amor será antes
uma casa que nós construímos. As pessoas tendem a viver
uma vida sedentária, e a paixão é nómada. Quando somos
tomados pela paixão, lá vem o momento em que desejamos
acalmar, aquilo é glorioso mas arrasa. O ser humano vive
numa espécie de oscilação permanente entre o sedentarismo
e o nomadismo. Mas também dependemos de circunstâncias.
É entre o pouco e o imenso que se vive a grande arte, a
do amor.
Jorge Marques: Fiquei com a ideia de que a paixão é facilmente
explicável e até tratada pela ciência, porque resulta
fundamentalmente de uma necessidade. Relativamente ao
amor, verifiquei que cada um de nós tem um conceito diferente
daquilo que ele representa. Para mim continua a ser um
mistério. É fundamentalmente uma aprendizagem, que é diferente
para cada um.
João Villalobos: Acho que corremos seriamente o risco de
tornarmos o amor cada vez mais impossível, porque cada vez
somos mais individualistas. Mesmo durante esta conversa,
falou-se muito no eu e pouco no outro. Para mim, o amor,
contrariamente ao que diz o Casimiro, é amar o feio. Em relação
à paixão, o amor fica sempre a ganhar. O amor é uma
aceitação e, por isso, tem outro ritmo.
Isabel Empis: O amor está ligado à harmonia. É tranquilo.
E é também o encontro da nossa essência. Está num lugar
onde tudo tem uma beleza própria. A paixão é um mecanismo
psicológico e de projecção, cujo objecto vai mudando segundo
as nossas necessidades de comportamento. São tentativas que
fazemos para chegar à essência. Através da aprendizagem que
cada paixão representa, vamos engrossando o caudal do nosso
amor. O amor é como o universo, está sempre a crescer. É
um sentimento infinito.

15.2.06

Cão como ele

Jorge tinha um cão do qual não gostava. O cão, no entanto, seguia-o para todo o lado porque é isso que os cães fazem. Além disso, o cão dedicava-lhe um amor não correspondido.
Um dia decidiu livrar-se do cão de um forma definitiva, mas sem o prejudicar ou ferir. Enfiou-o no carro e guiou cento e cinquenta quilómetros, até uma aldeia que antes visitara e cujas gentes lhe pareceram acolhedoras e hospitaleiras. Parou ao crepúsculo numa bomba de gasolina, atou o cão a um poste de iluminação e reeentrou no carro, arrancando a toda a velocidade.
Duas semanas passaram. Era noite quando ouviu raspar com violência na porta da entrada. Abriu-a cautelosamente e viu o cão. O animal entrou sem abanar a cauda, deu uma volta à sala, subiu as escadas, voltou a descê-las, olhou para aquele que fora o seu dono fixamente e saiu. Nunca mais se reencontraram.

A reunião com as minhas amantes

Certo dia, que ainda não sei se errado dia era, quis quantificar o amor das minhas mulheres por mim, para daí escolher uma delas para toda a vida. Sentei-as todas à minha volta, por cima das chávenas de chá e dos tabuleiros pintados como se fossem mármore. Procurei ouvi-las bem nas suas apreciações da minha pessoa. Perscrutar como um deus os seus corações, funestos ou doces. Andrea falava suave e quase despudorada. Talvez visse mesmo em mim alguém mandado pelos céus mas, pelas vias das dúvidas, quis ouvir antes a Florence, poeta francesa e professora para ganhar dinheiro, pois que nem só de poesia vive a mulher. Florence era a que melhor falava. Dissertou considerações interessantíssimas acerca de mim, até me fazer sorrir, meio-envergonhado. Dizia por exemplo que apreciava deveras o meu modo de andar e gostava das minhas mãos que tocavam guitarra. Nunca se queixou do meu sorriso, como Xana o fizera, e quase não disse mal de mim… Maria dançava e nos seus acenos rocambolescos parecia dizer que eu era o tal. Mas eu sabia que mentia com quantos dentes sorria. Kika estava encantada comigo mas esquivou-se a fazer comentários. Valéria não pudera vir, por culpa do seu namorado que era grande como um armário de telefones. Anya pensou sussurrar-me ao ouvido que me amava, mas desistiu a meio. Depois vieram ainda muitas e cada uma dissertou sobre os meus atributos. Até que chegou a Tanya. Ah! Sim! A Tanya veio para o pé de mim, sentou-se ao meu colo e foi ela a escolhida…
Nuno Alves Martins

14.2.06

14 de Fevereiro

Vontade pura, dourada planta,
subindo à medida em que se espanta
por haver Sol ainda, por haver chão.

Ascendo entre a loucura e a razão.

Danço, na fronteira da alegria,
uma música antiga que sumia
sempre que outrora a procurava.

Dá-me agora o ritmo que sonhava.

Então eras tu e eu não sabia.
Respirava, e pensava que vivia.

13.2.06

Uma questão de honra

Era uma ruiva espigada, que se chamava Martine. Mas tínhamos para ela uma alcunha, urubu, por causa do pescoço longo, o penteado esquisito e as finas pernas de pássaro. Por vezes, ficávamos a vê-la, nas tardes passadas no café junto da estação de comboios. Vinha com amigas, o que era raro, ou andava com um namorado novo Acho que existe uma designação para este tipo de mulheres: era licenciosa, mas as razões para tal ligeireza nunca as conheci. Divertia-se assim, suponho.
Soissons é uma cidade (como posso dizer?) chata. Nunca há nada de jeito para fazer. Os velhos ficam em casa a ver televisão e a juventude anda pelos cafés; mas os franceses não gostam, assim ficam só os árabes num canto, sem raparigas, sempre a papaguearem aquela algaraviada deles, e nunca metem conversa; e nós, os portôsse, também num grupo fechado, mas suponho que ninguém repara, porque somos bem comportados.
Conheci a Martine quase por acaso, estava ela entre namorados. Fui de comboio a Paris e quis a sorte que também viajasse. A viagem foi rápida, mas deu para nos conhecermos. Não tinha conversa, ria-se muito das parvoíces que inventei, mostrava os dentes desalinhados e os olhos azuis tinham o aspecto de vidro fosco, como se a inteligência não brilhasse por ali. Ou foi o que eu quis ver naquela mulher de pele muito branca, lábios carnudos e cabelo estouvado. Um dia, apareci em público com ela. Chegámos ao café de braço dado, porque para mim já era um namoro sério. Ainda pensei em sentar-me na mesa dos portôsse, mas os meus amigos olharam-me com gozo, um deles ria-se de mim e disse em português: “olha p’ra aquele maluco do Jorge, anda a comer a Urubu”. Ouviu-se bem e riram todos, às gargalhadas. Até Martine, que pensei ser bastante estúpida, percebeu que os meus amigos se riam de nós, de mim através dela, mas sobretudo dela por meu intermédio; e que por isso eu não iria apresentá-la aos outros do meu grupo. Foi assim, suponho, uma pequena cobardia, não fazer alguma coisa. Os árabes também me trataram com desprezo, esses não se divertiam, mas pareciam censurar-me pelo rebaixamento. Era a primeira vez que faziam isso, olhar para mim, e por extensão para os meus amigos, de cima para baixo.
Foi por este primeiro choque, inteiramente por ele, que deixei de andar com a Martine. Durante umas semanas não apareci no café. Ainda tentei manter encontros furtivos com ela e quase namorávamos às escondidas. Cheguei a levá-la a um daqueles hotéis manhosos usados pelas prostitutas. Foi a única vez que fizemos sexo. Mas nunca mais a segurei pelo braço na rua e evitava aparecer em lugares na sua companhia.
Uma vez, ela foi ao café junto da estação e lá estava eu a conversar com os meus amigos. Urubu aproximou-se e eles começaram a gozá-la. Os árabes, ao fundo, vigiavam a minha reacção, divertidos. Desdenhavam de nós. Mas eu não me mexi. Fingi que não a conhecia e ela foi como se ignorasse a minha indiferença. Deu meia volta e regressou ao balcão, ficou lá a conversar um bocado com o empregado. Bebeu qualquer coisa, depois saiu, sempre a sorrir, sem olhar mais para nós.
Quando nos encontrámos nessa noite, na escuridão segura do jardim, Martine não mencionou o caso. Eu esperava que ela fizesse uma cena e cheguei a pensar que não me teria visto, enfiado no grupo de rapazes que a gozavam. Mas, enfim, isso era absurdo. Ainda bem que não levantou a questão, porque eu não tenho a certeza se seria capaz de lhe explicar que tudo aquilo, a minha impassibilidade, tinha sido uma simples questão de honra.
Foi aquela a última vez que nos vimos. Lembro-me ainda da despedida. Na escuridão, ela disse: “Tens de sair daqui”. E eu ri-me, por não levar aquilo a sério. Depois, Martine saiu da minha vida. Foi para Paris, suponho. Nunca mais soube dela. Para mim, ficará sempre a lembrança de uma rapariga maluca e magra, o cabelo espetado em hastes e o pescoço branco e elegante, ligeiramente esticado, como o de um pássaro que se prepara para levantar voo.

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Estavas aqui, mesmo ao lado. Não perguntavas, nem dizias coisa alguma... Já foi há muito tempo. Estares calada era o teu encanto, talvez nascido de desencantos mil.
Demos as mãos e ficámos em silêncio,enquanto coisas terríveis sucediam pelo mundo.
Não se sabe se algo aconteceu, apenas que dali nasceu um desenho, um filho de papel e sangue negro.
Era um desenho triste, escuro e alucinado como todos os desenhos que ninguém vê... Ninguém sabe explicar um desenho sem explicação e aquele era um deles. Ficou esquecido em algum canto, como esquecido ficara esse amor que não conseguiu sobreviver às vicissitudes da vida. Um amor esvaído em sangue e esquecimento.
«Qual é a coisa mais triste do mundo?» perguntara-lhe ela num raro momento, em sussurro. «Por que é que tudo acaba, em especial o que nunca devia terminar?». «Por que é que gastamos tanto tempo e energia com pessoas que não nos merecem?». «Por que é que o mal só acontece aos melhores, pois que aos piores isso é justica?»...
Passaram-se anos e a única coisa que resta desse momento é o silêncio. Igual, penetrante e medonho como o desse dia. Feito de nada, sem peso mas com poesia. Um silêncio que parecia a ausência de toda a cor, um silêmcio inocente como um menino.
Sempre que te recordo, és tu esse nada feito de nenhum som, nenhum peso, algo que flutua.
Já não te recordas de mim, nem desse dia, já não me vês no ecrã da tua memória, ou em algum disco de platina. Já não existes.
Nuno Alves Martins

11.2.06

E depois o silêncio

Não conseguia lembrar-se mas tinha a certeza de que a conhecia. Não havia, claro, forma mais arcaica de começar uma conversa: «Tenho a certeza de que a conheço de algum lado», diria. E, no mínimo, obteria uma gargalhada como única resposta à mais vetusta linha de engate da História.

Tentou situá-la nos múltiplos territórios da sua vida: Diferentes cidades e cenários, diferentes empregos e amigos que apresentavam por seu turno outros amigos. Mas a cara - e o corpo - não pareciam pertencer a qualquer um deles e suscitar o clique do reconhecimento,a sinapse instantântea entre a imagem e memória.

Decidiu então aproximar-se, para melhor conseguir ouvir-lhe a voz. Ela dizia: «Queria embrulhado para oferta por favor». E então recordou-se. Foi transportado para outro continente e um tempo que se forçara a esquecer. Compreendia agora que o corpo não fosse aquele, porque ela tinha apenas oito anos e ele sete. Os dois, no relvado à beira da piscina do Hotel Polana, deitados lado a lado e as mãos explorando os calções de banho coloridos sem sequer saberem porquê. Chamava-se Patrícia e a cara continuava igual a quando a deixara antes de embarcar no avião, os pais os melhores amigos antes da partida forçada: Loura e sardenta.

A memória dela arrastou em cadeia milhares de outras, um turbilhão de pequenos filmes em Super 8, um álbum de polaroids desvanecidas pela tempo. E ele, paralisado, permaneceu na loja vendo-a pegar no seu saco, uma pequena campainha tinindo quando a porta do antigo estabelecimento se abriu para ela sair. Um único som. E depois o silêncio.

10.2.06

A memória

“A memória das pessoas é curta e, acima de tudo, selectiva”.
Emmett dissera aquilo com ar pensativo, como se estivesse a filosofar ou a ditar um sermão de pregador. Submisso, Cooper mergulhou os olhos na sua caneca de cerveja, quase toda ela bebida, as paredes de vidro sujas por uma espuma branca que parecia longínqua cortina de neve. Só depois da longa pausa o escritor ergueu a cabeça, num gesto quase dramático. Hesitou algum tempo e depois recuperou a energia:
“Mas...E o passado...Não conta?”, perguntou, com visível angústia.
Emmett tornara-se agora mais profissional, cara fechada, de quem não fazia prisioneiros:
“Conta pouco, Cooper, ou mesmo nada! Os tempos mudaram e tu já pertences ao passado! Os teus livros não vendem.”
Agora, sim, ditara a sentença, pensou Cooper. Emmett fora juiz e júri do seu crime de delírio e vanglória. Não lhe publicaria o manuscrito. E tentara explicar-lhe isso de forma detalhada: que ninguém mais se lembrava dos seus livros antigos, que todas as suas palavras estavam mais mortas do que ele próprio.
A expressão afável regressara à cara do editor, que a partir daí falou de temas inócuos, sem ligar ao silêncio do companheiro de mesa. Ficaram assim mais meia hora. Depois, despediram-se, Emmett quase disse que lamentava tudo aquilo, mas limitou-se a poisar a mão sobre o ombro do escritor. Depois, pagou a conta e deixou Cooper sentado e sozinho, a meditar nos fantasmas que inventara e que, para sempre, se iriam dissipar no vácuo. O tempo largara numa corrida de fundo. Luzes, risos, fumo. Percebeu, com estranha satisfação, que as suas personagens se passeavam no bar e, quando saiu para a rua fria, eram ainda as suas figuras imaginadas que circulavam a seu lado e por entre as pessoas reais, como se tivessem ganho espessura que não lhes planeara jamais, vida autónoma e livre, que ele já não controlava. O alheamento deslizava na noite, no espaço intermédio entre os grande arranha-céus, as ruas singulares, os passeios, o trânsito indiferente, a escura linha das árvores do parque, ao fundo.
Quatro da manhã. Cooper passeava ao acaso e uma poderosa serenidade invadira-o. Tinha o crânio repleto de palavras vivas. Se a memória é curta, pensou, então nós não passamos de ilusão efémera de um passado. Cada indivíduo devia ser aquilo que viveu. E ele, Cooper, tinha excesso de vida.
O seu pensamento foi atravessado por múltiplas recordações, das planícies e dos amores, da alegria e da solidão, do cheiro da terra tocada pela chuva fina.
Chegara ao rio. Em frente, na outra margem, havia uma fileira de prédios altos. A água cintilava ao brilho da lua e notava-se o contraste da sombra da ponte que unia as duas partes de um imenso colar de luzes artificiais.
Cooper estava perante a água. Pegou no manuscrito e lançou-o ao rio, com o sorriso de quem guarda só para si uma derradeira e preciosa lembrança.

9.2.06

Homens no Fio

Como o Luís Naves não o dirá, digo eu: Foi agora publicada pela Campo das Letras a sua novela «Homens no Fio», baseada numa história real, como dizem os filmes americanos. Aqui fica um fragmento:

...«Adelino deitou-se no barco, lançou o braço para o mar, num gesto longo; e, com a palma da mão transformada em rude cálice, trouxe para cima, cuidadosamente, uma pequena quantidade de água. Com o outro braço colocado sobre o ombro de Pedro, pressionando com suavidade, obrigou o rapaz a ajoelhar à sua frente. Depois, devagar, derramou a mão-cheia de água sobre o cabelo do companheiro:
- Eu te baptizo em nome da Igreja, do Deus único e de nosso Senhor Jesus Cristo, ámen.
Foi apenas isso que disse, sem se importar se aquelas eram as palavras certas. E sentiu então que, pela primeira vez em dias, Deus o ouvira.
Enão, o velho ajoelhou também, uniu as duas mãos, e começou a rezar em voz alta, como se falasse para uma vasta congregação. Adelino era um pastor com uma única ovelha. Dizia uma frase e Pedro repetia. A ladainha prosseguiu, monótona, até o pôr do Sol. Assim, andaram à deriva durante horas, alheados do resto, peregrinos sem destino, agora serenados dos respectivos martírios, finalmente em paz com a ideia da sua morte. Lentamente, as nuvens ficaram cor de sangue, depois raiadas de estrelas. Sob o efeito dos ventos elevados, começaram a formar largos capitéis e colunas gigantescas, como se o céu se tivesse transformado numa catedral do tamanho do mundo».
Luís Naves, «Homens no Fio», Ed. Campo das Letras, 79 pp.

Francine

Mulher de planetas onde a poesia é o ganha pão.
Mulher grande como as muralhas de um castelo, um navio em combustão.

Nuno Alves Martins
Antes os grilos cantavam o regresso e os cães
acompanhavam-me à porta de casa.
Era sempre noite, é verdade, mas mesmo assim.

Não queria esquecer-te, aconteceu.
Foi só um grilo que te trouxe
ao pé de mim.

8.2.06

A música das esferas

O Nuno não tem internet, e-mail ou sequer telemóvel. Conheço-o há muitos anos. Os textos que ele escreve não se parecem com nada, pelo menos que eu conheça. De vez em quando vamos publicá-los aqui. Uns mais pequenos e outros mais compridos. Como este:

«Ban coleccionava universos como quem colecciona cartas de jogar, óculos antigos ou bichos da seda. Arrumava todos os universos que havia em caixas de cartão e punha uma etiqueta por fora com a data em que os guardara.
Dava-lhes nomes de pessoas, mas só de pessoas que tinham ido para longe da sua vida, pessoas que tinham desaparecido, pessoas que já não existiam...
Depois, mostrava os universos aos amigos como se fossem deuses, partículas cósmicas que já tinham alcançado a glória. A glória da vida, é claro.
Sempre gostei de uma música que falava desses universos em luta. Era uma música extremamente triste, porque falava do fim dos homens que se metamorfoseavam em deuses que tinham ultrapassado o final de tudo, chegados ao lugar definitivo algures entre a primeira e a última galáxias.
Ban tinha um amigo que era criticado por todos, mas longe de criticá-lo eu entendia que Ban lhe tinha deixado essa ferida como uma porta aberta numa muralha, para poder acolher assim os seus detractores. É que, para escapar ao fim dos traidores e se alcançar a glória dos valentes, tinha de cumprir-se a lei mais excelsa: Pagar o mal com o bem, aprender a dar a outra face, pôr o outro - qualquer que ele fosse - à frente do egoísmo ou qualquer tipo de vanglória.
Chamava-se Luar o pobre do homem, e tinha nas suas mãos a sorte dos universos da parte Sul da Grande Casa. Um lugar ínfimo que espelhava todos os universos que Ban lhe confiara. Na sua pequenês, fazia parte de uma grande rede aonde vinham cair grandes e pequenos sóis, constelações ou galáxias assentes em geografias supra-terrestres.
Ban gostava dos seus universos construídos com rigor matemático, mas tinha uma secreta admiração pelos universos mais improvisados e que tinham em si um lugar para o imprevisto, para o factor risco.
Alguns, baseados em cálculos e regras fixas, denotavam uma força que lhe era desagradável. E então Ban debruçava-se com mil cuidados sobre os universos mais frágeis e periféricos.
O centro de tudo expandia-se numa velocidade vertiginosa, parecia até escapar ao controlo de Ban, que então construia novas estantes para poder aumentar o número de exemplares da sua colecção.
Um dia, no tempo em que os dias já não existiam, Luar perguntou a Ban o que é que este estava a fazer para além de coleccionar universos por essa realidade fora.
Ban respondeu-lhe que, em determinados dias do calendário vigente quando ainda havia dias, tinha formulado uma série de perguntas a cada universo que guardava e tudo o que esperava, de cada um deles, era uma resposta trazida em sons. Dizem que assim foi criada a música das esferas.
Nuno Alves Martins

7.2.06

Impasse

O carro avançara até meio da avenida e tinha parado em frente a um café, mas o homem estava a pensar (guiava com gestos automáticos) e só reparou no trânsito passado algum tempo. Certamente um acidente, concluiu, ao notar que havia pelo menos três autocarros à sua frente, e de um deles saiam todos os passageiros, que avançavam a pé pelo passeio. Um veículo, que não se avistava dali, começou a buzinar com fervor, como se disso dependesse a salvação da humanidade.
Bloqueado, pensou o homem. Tentou avaliar se poderia virar no cruzamento seguinte, mas tudo parecia parado, incluindo as ruas transversais. Recuar já era impossível. Havia quatro veículos atrás. Avançara demasiado. À retaguarda, à distância de trinta metros, havia um sítio para inversão de marcha, mas não poderia alcançá-la, pois o impasse instalara-se também atrás de si. Crescera um coro de buzinas, furiosas ou impacientes, enlouquecidas, insistentes. Até que tudo se suavizou, com o silêncio que representava a constatação de uma frustração impotente.
Um cliente do café saíra para ver o engarrafamento. Olhava, com ar pastoso, numa direcção que o homem não conseguia ver. Abriu a janela do lado do passageiro, chamou o indivíduo:
“Até onde está bloqueado?”, perguntou o homem.
“Isto está complicado, amigo. Tudo entupido até ali a cima!”, respondeu o cliente do café, que acenou um rápido cumprimento e seguiu caminho, a pé, ao longo do passeio.
O homem desligou o motor e decidiu esperar. Se fosse acidente, em breve estaria resolvido. Pensou avistar, ao longe, a farda de um polícia. Ressurgia a esperança de uma quebra do impasse, mas o tempo passou, nada aconteceu, e o homem regressou à mesma espera inútil. Estou atrasado, afligiu-se. E, por um instante frágil, reflectiu que aquela era uma metáfora da sua vida, o casamento bloqueado, o emprego sem futuro, a existência sem saída. Preso numa confusão do tráfego, sem alternativa senão uma espera interminável.
Caiu numa dócil sonolência. O tempo escoava-se. Então, algo se moveu à sua frente. E durante um instante, como se regressasse à sua vida um fio de esperança. O trânsito movia-se. O homem guiou de forma automática (enquanto meditava em outras coisas) e foi à sua vida.

6.2.06

A uma palavra segue-se outra.
Passos na manhã,
nenúfares no teu lago preferido.

Finge que estás aqui onde ninguém entra
e o Sol espera o fim
do sonho interrompido.

5.2.06

Diálogo ouvido na sala de espera

- Estive a pensar. O que achas de cada mulher passar a trazer consigo uma bula, como a dos produtos farmacêuticos?
- O quê?!
- Imagina. Já viste o que facilitava? Encontravas alguém, pedias-lhe a «literatura» e lá vinha.
- Lá vinha? Mas lá vinha o quê?
- Então...Que males curava, quantas vezes tomar, as contra-indicações. Davam um jeitaço, as contra-indicações...
- Estou a ver. E tu quem é que andas a tomar agora?
- A Claudia. Mas vou diminuir a dose. Afecta-me o sistema neurológico.
- É para aprenderes. São os riscos da automedicação.

4.2.06

É ainda manhã. Somos ainda os dois.
Gostaria de pensar que para sempre,
mas quem se atreve?
Para sempre nem estas palavras sobrevivem
ou quem as lê. Poderia negá-lo, aqui.
Mas de que serve?

3.2.06

As margens do Paraíso

Pouco depois de uma curva pronunciada do rio Paraiso, para quem desce na direcção do grande Amazonas, surgem duas cidades, Mostóles e El Diamante, uma em cada margem do já imponente curso das águas. As cidades são pequenas e pobres, não mais do que casarios caóticos espalhados por colinas de barro.
Este foi sempre um local tranquilo, até ao dia que da capital foram enviados dois novos governadores, Francisco Briceño de Rozas (a quem calhara Mostóles) e Julián Sánchez (que recebeu El Diamante). Eram ambos homens dos seus quarenta e tal, políticos de fama: de Rozas nos Blancos e Sánchez nos Colorados. Estavam precocemente envelhecidos pelo conflito que mantinham um com o outro, e tinham caído em desgraça, afastados pelo Presidente, que temia as suas ambições.
“Que se devorem longe da minha vista”, dissera o Presidente, para justificar o despacho de nomeação dos dois governadores para aqueles buracos nos confins da província de Madre de Dios.
De Rozas odiava Sánchez por o considerar uma pessoa sem distinção e porque, cem anos antes, o trisavô do novo governador de El Diamante mandara prender o seu antepassado, um visconde que chegara de Espanha para tentar a fortuna. O jacobino trisavô de Sánchez maltratara o aristocrata, por simples ódio de classe.
Era passado, mas não para os dois governadores. Ainda hoje se discute na província quem quis começar a guerra. Conta-se que Briceño Rozas convenceu o seu chefe da polícia, Lorenzo Maldonado, a formar uma milícia; por seu turno, Sánchez anulou o poder do grande proprietário de El Diamante, um tal Agustin Hinostroza, forçando os mercadores a um boicote contra a cidade da outra margem.
As coisas sucederam-se sem que alguém o pudesse evitar, tal era a obstinação dos rivais, cada vez mais alheados dos próprios interesses. As comunicações entre as duas cidades foram cortadas e irrompeu uma escaramuça numa festa. Houve discursos inflamados dos líderes nas praças centrais da cidade. Depois, num acto de loucura nunca explicado, ocorreu uma emboscada da milícia de Mostóles a uma caravana de comerciantes do outro lado. Neste acontecimento morreram três jovens, muito chorados pela comunidade, um deles primo de Hinostroza, que jurou vingança.
Este é o ponto em que os relatos começam a divergir. Segundo os homens de Sánchez, ocorreram incursões sanguinárias em território de El Diamante, com destruição de fazendas e o afastamento de populações da margem do rio. A versão de Mostóles é inversa: dizem que para se vingarem dos seus mortos, as forças de Sánchez, a quem se juntara Hinostroza, fizeram razias do outro lado do rio, com inúmeras vítimas inocentes.
Os dois governadores encontraram-se num duelo final, onde ambos foram mortalmente feridos. Mas a guerra prosseguiu por mais 28 anos, a ponto de ninguém se lembrar exactamente qual era a sua razão. Dizia-se, filosoficamente, nas tascas de Mostóles e de El Diamante, que era assim a natureza humana.
É simples dar o nome de loucura
quando desencarnadas vozes assolam
as mais violetas manhãs.
Às vorazes palavras flutuantes.

Atravessamos o mundo na certeza,
alheios à eternidade dos instantes.

2.2.06

A crise dos cinquenta

A moda feminina recuperou os calções. Outra vez. Assim vestida, a Joana parecia a Lady Godiva antes de tirar a roupa, mas isso não poderia eu dizer-lhe porque Godiva, para ela, só os chocolates. Acho que a escolhi, entre outras qualidades mais acidentais, por essa substancial ausência de memória própria da juventude. Afinal, quem não tem memória também não compara. E eu não gosto de ser comparado.
Ao olhar para os calções e as botas da Joana tornada amazona interroguei-me sobre por que razão, eu que nunca vivi longe das mulheres, jamais me sentira ameaçado por elas. Até agora.
- Joana, tem alguma amiga lésbica? Perguntei-lhe então em tom sussurrado em plena esplanada.
- Ó Eduardo! Francamente! Já falámos no assunto e eu recordo-lhe que não tem idade para essas fantasias. Você mal dá conta do recado comigo e ainda se põe com delírios.
- Não é isso Joana! - declarei indignado - Fale mais baixo! O que é que a menina acha destas duas que agora se querem casar?
- O que acho? Olhe, acho um desgosto! Deviam ter ido ao cabeleireiro primeiro e só depois à televisão.
Foi aí que percebi que, no que toca às mulheres, não se pode generalizar. Tardou mas foi. Aos 50 anos ainda recebo lições de vida.

2 Poemas 2

Tenho um amigo, quando chove
leva-me a respirar o mar.
Tinha outro amigo esse morreu,
a chuva gosta de lamber-lhe os pés.

Quando o Tempo troca as casas de lugar,
os amigos lembram-te quem és.

.......................................................................

Cada morte é igual, cada morte é única
na sua monotonia.

Ontem vi-te, hoje não.

Hei-de habituar-me ao café sem açúcar
e a beber licor.
Imitar-te a vida arrepiada de amor.

1.2.06

Coteries

“Agente Guilherme Raposo?”
Reconheci a voz do director. Ele estava impaciente e nervoso:
“Preciso de si para uma investigação urgente. Li num blogue que está em curso uma conspiração de críticos literários”.
“Pode contar comigo, senhor director”.
“Desta vez, o perigo parece enorme. A República exige o melhor de cada um de nós. Quero um relatório às 14 e 54”.
O director desligou o telefone e eu engoli em seco. Poucas vezes enfrentara um problema maior. Uma conspiração a sério!
Nessa manhã, falei com todas as minhas fontes: Manuel Recados, o conhecido assessor de Imprensa; Coca-Bichinhos, o traficante de caramelos espanhóis; a Dona Rosa, a sensual agente que temos no Mercado da Ribeira. Recorri a todos e não consegui a menor informação.
Já em desespero, falei com o Manuel Encómio, um crítico musical caído em desgraça após lhe ser diagnosticada uma surdez congénita.
“O quê? Uma conspiração de críticos?”, gritou ele, quando lhe contei o caso.
Estávamos na estação do Cais do Sodré e os passageiros olhavam para o velho Encómio, que berrava como um pica a descobrir alguém sem bilhete.
Foi tirado a ferros, mas ele contou-me tudo (embora também tenha contado a todos os transeuntes, com aquele vozeirão). Redigi o relatório à pressa e, exactamente às 14 e 53 entrei no gabinete do director. O chefe estava à beira de um ataque de nervos.
“Descobriu os culpados, Raposo?”
“É um caso grave, senhor director. Parece que há grupos, chamados Coteries, cujos elementos se elogiam mutuamente”.
“Coquetes?”
“Não! Coteries”.
“Elogiam-se mutuamente?”
“Parece que sim”.
“É só isso? Elogios mútuos também os políticos e os jornalistas da República fazem! E nós próprios, aqui na agência! Ainda na semana passada o elogiei, Raposo, embora agora ache que fui demasiado generoso consigo. Você é um verdadeiro incompetente, por encontrar apenas o óbvio naquilo que é uma perigosa conspiração e um perigo para o regime”. Engoli em seco, ouvi as recriminações do meu chefe durante uma hora. Depois, ele disse:
“Quero uma investigação pormenorizada sobre esses tais croquetes”.
Dessa vez não fracassei. Fui à loja de um amigo meu e consegui a receita dos croquetes que a mulher dele faz e que têm fama nacional. As minhas amizades ainda servem para alguma coisa.

Peço-te, não fales na minha boca,


ó anjo malogrado e triste!


Estende sobre mim uma sombra de flanela.



Vou a caminho no dorso de um cão,


afastando o medo na ponta dos dedos.


E carrego por ti clandestinos segredos.

Uma excepção, mesmo muito excepcional

Recebi o seguinte repto, no Misantropo Enjaulado:


"En Defensa de Occidente teve a bondade de me convidar para um jogo blogosférico do género corrente. Cada bloguista participante tem de elencar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem igualmente no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue.

Ora bem, quanto às minhas manias:


- Às Sextas-Feiras 13 nunca saio de casa, com medo do que possa acontecer.


- Quando elaboro a postagem da noite, aqui no misantropo, não dispenso ter sobre os joelhos duas gatas.


- Odeio autocarros. Prefiro demorar o triplo do tempo num percurso, a entrar num.


- Tenho que, ao deitar-me, colocar os sapatos rigorosamente alinhados, um ao lado do outro. Se, de manhã, os encontro tortos, começo o dia mal disposto.


- Cada vez que começo um livro abro-o ao acaso numa página. Tento sempre meditar sobre a primeira frase completa que leio. Muitas vezes é difícil...


Bom. Agora os Bloguistas que escolhi para a jogatana:


FG Santos

Nelson Buíça

João Villalobos

Kamikaze

Zazie"


(Fim de citação)


Devo dizer que decidi responder (pela amizade que me prende a quem convida) mas ressalvando que se trata de uma excepção verdadeiramente excepcional, dadas as características que eu e o Luis Naves definimos para este espaço exclusivamente dedicado a produção literária dos seus próprios autores.

E assim dito, cumprindo as regras do desafio, aqui vai:

- Quebro todos os mails e mensagens de corrente que me enviam, e estou-me borrifando se vou ser infeliz até à 7ª encarnação.

- Quando um/a amigo/a me diz salta, eu salto. E depois logo se vê.

- Quando jogo, acredito que vou ganhar e -se não ganho - nunca culpo o/a parceiro/a.

- É por isso que não visto camisolas. Prefiro ténis (não a pares), esgrima e canoagem: Não há parceiros nem equipas.

- Quando há um jogo de futebol televisionado, bebo um chá de menta antes de sair de casa e corro a esconder-me no cinema mais próximo, vazio por razões que ainda hoje transcendem o meu entendimento.


E agora os meus blogues convidados, que participam ou não conforme o seu livre arbítrio:

Abencerragem

There's Only One Alice

Thornless Rose

Os Cavaleiros...

Designorado