31.3.06

Hoje levei-te no bolso
a tomar chá e bolinhos de maresia.
Tocava ao longe uma música
cheia de Graça,
mesmo não sendo domingo.
E nós, como quem escuta num búzio o vento que chama.

Só consegui falar-te com voz de criança
mas as mãos, ah!, essas tocaram-te numa outra dança.

O dinossauro excelentíssimo

A criança de sete anos não sabia se conseguia encadear as letras em sílabas, as sílabas em palavras, as palavras em frases, as frases em sentido - e compreender o que estava escrito. Ora essa, afinal conseguia-o. E o que estava escrito era o seguinte.
«Não posso negar que estou a ficar velho, facto particularmente evidente quando se olha para mim. Dez anos atrás eu rachava ao meio um bloco de gelo com o jacto do xixi. Hoje não empurro nem bolinha de esferovite. Uma pessoa sabe que está a ficar velha quando as velas custam mais caro que o bolo de aniversário. Ou quando começa a achar que todo o mundo anda a morrer muito novo. Mas a velhice não é estática - na Idade Média, um fulano com 40 Primaveras era praticamente um ancião. Hoje a sociedade idealiza a velhice, para o bem ou para o mal. O velho ou é uma gracinha como o Pai Natal ou então é o Mário Soares. Bom, os velhos não são melhores nem piores que os outros - apenas sofrem mais e têm menos oportunidades. Os jovens, naturalmente, acham que são imortais. Comportam-se como se os velhos já nascessem velhinhos em folha. Ó meu caro jovem, supondo que sejas um adolescente abençoado pela natureza, não deixes de documentar essa condição tirando uma foto. É a única maneira de fazer com que, no futuro, os teus filhos acreditem em ti.
A partir dos 30, gajos e gajas desatam a aldrabar a idade. A Lili Caneças, por exemplo, detesta revelar a sua idade, pois receia que esta seja confundida com o seu número de telefone. Por outro lado, se tu fores convidado para uma daquelas festas tipo revista «Caras» na casa da Lili Caneças, há uma técnica segura para agradar a anfitriã: basta adicionar ao vinho servido os anos que subtrais da idade dela. Estranho: uma mulher de 35 anos parece mais velha do que um homem de 35. E sabem porquê? Porque, na verdade, ela o é. Lili Caneças , por exemplo, recusa-se a confessar que tem mais de 50 anos, embora isso torne ilegítimos os filhos dela.
Não, a meia-idade não é solução. A meia-idade é quando uma pessoa é demasiado jovem para se reformar, e demasiado velha para arranjar outro emprego. (Já a terceira idade é aquela em que a gente põe os óculos para ouvir a rádio.) Pessoalmente, considero que os anos entre os 50 e os 60 são os mais difíceis. Uma pessoa vive a ser convidada a fazer coisas e ainda não se sente decrépita o bastante para as recusar. Com efeito, a velhice é período da vida durante o qual já não nos ralamos onde a mulher vai, desde que não nos obrigue a ir com ela.
Na verdade, envelhecer é como morrer afogado - uma sensação realmente deliciosa, depois que a gente pára de se debater. Não, envelhecer não é nada mau, sobretudo quando se pensa na alternativa (a principal objecção à velhice é que não há futuro nisso). A infância é fugaz. A juventude é efémera. Mas, quando uma pessoa fica velha, é para o resto da vida. Quanto a mim, juro que a única coisa que de facto lamento é: por que tive de nascer com tais contemporâneos?
Nos últimos tempos, houve uma tal entronização do adolescente que a humanidade deu para envelhecer ao contrário. Quanto mais maduro, mais pueril. Ora, se nem todos os velhos são sábios e experientes (muitos são umas bestas ignorantes), alguns o são. Miguel Ângelo pintou o Juizo Final aos 61. Verdi compôs a Missa Solene aos 72. Aos 67, Cervantes escreveu o «Dom Quixote». Goethe só concluiu o Fausto aos 82. E uma actriz brasileira revelou: «A minha avó morreu aos 93 anos. De parto.»
Velhos somos todos nós, no Inverno. Velho é o recém-nascido, amanhã. »
A criança dobrou o papel que acabara de ler e com ele fez um aviãozinho. O aviãozinho voou cerca de um metro e caiu a pique.

declamador

ele abria muito a boca e a sua voz transformava-se, forte, num verso ou
ele abria muito a boca e um verso transformava-se, novo, na sua voz. qualquer coisa ali deixava de ser um rapaz, um livro, uma voz - leitura incandescente aos olhos de quem vê - para ser muito mais uma torrente de sons consentidos, com sentidos, que disparavam faíscas pelas componentes cerebrais, não das pessoas, mas da própria sala.

ele abria muito a boca e, ao mesmo tempo, pelas mesas da sala as bocas abriam-se em refrão, sem som, de uma admiração atingida pelas palavras. a saliva deixava-se escorregar pelas paredes da boca até aflorar aos lábios que, suspensos na imitação do poema, se fechavam antes da alvorada da mesma. não era sequer preciso perceber muito bem o que ele dizia, no fundo, talvez ele não dissesse nada. era só aquela sensação de prazer a crescer do coração para a boca e da boca, de novo, ao coração.

30.3.06

Talvez seja assim:
Olhamos para dentro e lá estão as feridas,
para fora e visíveis as cicatrizes. Mas indelével

é a marca no coração, gravado à faca
no banco da memória, raspada a tinta
de muitos nomes.

Tu mais ele ou ela, e outros eles e outra elas.
Foi aqui, pensas por vezes. Ainda é aqui,
sentes de quando em quando.

Talvez seja assim:
Olhamos para dentro e aí está a luz,
para fora e invisível o guia solar do caminho.

Nós somos tantos e tantas que se acumulam.
No beijo que dás ao acordar,
na forma como pousas a tua mão, no seu calor.

29.3.06

Erase and Rewind

É um sofá castanho. Está uma televisão ligada.
A casa pertence a uma família monoparental de uma classe média desafogada.
Está uma menina a dormir o corpo no sofá. Faz a sesta pela obrigatoriedade da idade.
A falta de dentes da frente dá-lhe um ar rabino que a faz ganhar pessoas sempre que lhe escapa um gargalhar: tem cinco anos e ri sem preocupações.
As crianças felizes têm gargalhadas destas: as crianças tristes riem aos soluços.

Ela dorme ali. Não me atrevo a despertá-la e posso adivinhar e partilhar o conteúdo do sonho:
sonha com a casa da avó.Uma casa de madeira antiga escondida das pessoas entre árvores.
Uma oliveira gigante rasgou a sala e fez-se mobília : nunca ninguém entendeu a opção arquitectónica tomada
-não foi opção arquitectónica alguma: a árvore quis ser da casa, a casa deixou-se ser da árvore
a casa da avó com cheiro a lume acabado de nascer, onde ela pode andar livre e em cuecas no jardim
- sem vestido, sem tranças a apertar

onde pode passar horas no baloiço tido e criado para si
-se a tua mãe visse
a casa da avó dos olhos cinzentos- a única avó tida, única avó conhecida; a morrer num dia de Natal sem chuva.
Viu-a ser levada na ambulância de sirenes silenciosas, enrolada no seu cobertor amarelo. Espreitou-a com os seus dois olhos da janela, escondida
- a avó?

da protecção do clã que lhe queria preservar a alma da certeza da morte.
Foi a matriarca em exercício que decidiu, meses depois, levá-la de forma continuada
- como medicamento a tomar

de tranças e vestido de Domingo, ao cemitério de Benfica dizer olá à avó morta
- Olá avó

A mãe, deixava-se guiar por aquele corpinho de cinco anos roliço que num cemitério cheio de mortos a levava pontual à campa exacta: e tantas eram as campas possíveis
- ali mãe, é aquela


sem nunca a matriarca entender a forma sábia e serena
- sem confusão, sem dúvidas ou passos atrás

como ela guiava de forma certa. Talvez o cheiro do sangue morto, talvez o rasto desse sangue morto igual ao líquido vivo que lhe corria debaixo da pele: ninguém saberá dizer.
Havia nesse cemitério, depois das 15 horas, uma conversa sagrada entre três fêmeas do mesmo clã: uma fêmea morta enterrada, uma fêmea viva, uma fêmea a fazer-se.

A fêmea a fazer-se sentava-se no mármore branco-frio da campa da fêmea morta a dormir
- dói-me as pernas mãe

arranjando o vestido com roda para
Não o sujar
Não amachucar
Não estragar
(os três Nãos da roupa de Domingo)

enquanto ouvia descontraidamente a conversa das duas. A conversa das duas sempre a fascinou.

A mãe a dizer à mãe morta a dormir debaixo do chão
- Sinto a sua falta, mãe

enquanto a fêmea pequenina atentava os dedos gordinhos nas pedrinhas beges que tapavam o ar à avó morta debaixo da terra
- Olhe para mim, mãe, sou uma mulher de meia idade com três filhos e ainda preciso de si, mãe, ainda preciso de aqui vir vê-la

para depois perguntar à mãe orante:
- Tu não vais morrer, pois não?
e ela continuava olhando a campa sem saber que lhe respondia
- um dia, pequena, um dia longe.

dizendo para si
- Não, não a vou deixar como a mãe me deixou a mim

caiando os olhos de uma angústia de água:
- porque é que os medicamentos para o coração foram encontrados escondidos no estrume do quintal, mãe?...explique-me?

As conversas de domingo no cemitério de Benfica, duraram até um levantar de ossos doloroso que se fez com as três presentes: a morta , a viva, a que se estava a fazer

-custaram a sua vida, mãe, a sua vida por uma caixa de medicamentos escondida no estrume.

e o grau daquela intimidade nunca seria esquecido por aquela mais pequena que se fazia ali, nos restos que lhe sobravam daquilo.

Um dia, um dia por favor explique-me porque deixou de os tomar.
Hoje, apenas hoje, apetecia-me muito que se levantasse daí de baixo, que se erguesse hoje para me dar um abraço.

Mudar de vida

O fumo do cigarro diluía-se em espirais, na penumbra, enquanto ele procurava decifrar os pensamentos escondidos naquela meia dúzia de rostos impassíveis.
E zás, um risco certinho na folha, a matar as palavras ao meio.
- Que analogia mais gasta. Mesmo para um livro policial, literatura sem exigências para ser consumida nos transportes públicos, é pouco. Muito pouco.
O fumo do cigarro fantasiava coreografias com a luz crua, enquanto ele se tentava preparar para o imprevisto.
E zás, um risco irritado, ondulando entre a frase, para lhe quebrar o sentido.
- Não serve. Filigrana artística de gosto duvidoso. Que falta de imaginação.
O fumo do cigarro alastrava pela sala, enquanto ele sorria, um sorriso sem sentido, só para aliviar a tensão.
E zás, um risco forte, decidido, sem remissão.
- Só faltava escrever que perscrutava de forma fria e decidida os presentes, para ganhar o primeiro prémio no concurso dos lugares comuns.
O fumo do cigarro trepava pelos dedos, tornando a espera menos dolorosa, apesar do medo dominar a sala fracamente iluminada.
E zás, um risco furioso, que se não o fosse, podia ser lido como um estou farto disto.
Apagou o quinto cigarro consecutivo no cinzeiro de cobre e concluiu profundamente: o melhor mesmo é mudar de vida e começar a fumar charuto.

28.3.06

As formas de Horácio

«Fujamos daqui», disse ele. O ele chamava-se Horácio e isso talvez chegue para dizer alguma coisa sobre a sua personalidade. Não era mau rapaz, mas tinha algumas manias como, por exemplo, à noite colocar umas formas com molinhas dentro dos sapatos, ou pendurar cuidadosamente a roupa vincada que vestiria no dia seguinte. Coisas que os homens não têm por costume fazer. Como sabem, somos por natureza uns bandalhos desarrumados. Mas não me interpretem mal. Se Horácio o fazia era só porque a mãe assim o tinha educado e ele nunca pensara que pudesse fazer-se de outra maneira.

«Fujamos daqui» foi o que ele disse quando deu por si numa situação inusitada. Tinha entrado na rua errada, no momento errado, com a pessoa certa. Chamava-se ela Helena e tinha umas pernas da altura da Torre Vasco da Gama, sendo o resto da vista igualmente panorâmica. No entanto, ainda não conhecia as formas de Horácio porque não tinham passado da fase do jantar. Que aliás acabara nessa precisa noite, com a saída do restaurante e a entrada na rua errada no momento errado.

«Fujamos daqui» foi o que ele disse e não devia ter dito. Fugiram, de facto. Mas Helena nunca conheceu as formas para sapatos de Horácio. Homem que é homem, pensou ela, não pode virar as costas ao perigo, então?! Por isso, fugiu também e enviou-lhe um delicado e-mail a agradecer o jantar, mas que esta não era se calhar altura para comprometimentos etc e tal.
Tanto quanto conheço o Horácio, não me parece que se tenha importado muito. Fosse hoje e fugiria na mesma. Afinal, quem se preocupa com a esperança de vida de um par de sapatos, mais ainda se preocupa com a sua.

Quem sai aos seus...

A Maria tem doze anos e é minha filha. Aqui fica um poema que escreveu e que prova, para mim que nestes assuntos não tenho discernimento, como a genética tem coisas inexplicáveis :)

OS AROMAS

Os aromas do mar
Os aromas do Verão
Os aromas que nos levam
A mais que uma recordação

O aroma a praia
O aroma a areia
O aroma do jantar
O aroma da ceia

E os melhores aromas
Os do amor e da amizade
Que cheiram a algo fresco e levam
como o aroma a felicidade.

27.3.06

cidades desconhecidas - I

podias dizer, sentido de orientação. eu chamaria assim - memória, memória refractária. cheguei à cidade e encontrei o fórum pelas orientações sinaléticas - já há tanto tempo que não pisava aquela calçada irregular. desci por onde descia a minha memória (só mais parte vim a perceber que ali, todas as ruas vão direitas umas às outras, como se fosse impossível perdermo-nos na cidade), passando por uma série de ruas apertadas e quentes, onde se adivinhavam vidas por dentro das portas pequenas com música de rádios bem altos. passei a praça principal, com os seus arcos que acolhem todo o tipo de lojas e continuei pelas ruas tentando adivinhar na memória um jardim que existiria algures. caminhar assim por uma cidade que se vai reconstruíndo dentro da cabeça depois de muito tempo sem por ela passar. e refazer, num mapa pessoal e para consumo próprio, alguns caminhos que podem passar a ser habituais. são as cidades desconhecidas, onde às portas dos cafés descansam velhotes que me olham de lado, a pedir uma bica e uma àgua fresca.

23.3.06

Era uma vez...

...uma mulher que não sabia gerir o deve e o haver. Vivia, por isso, em constante desequilíbrio no balancete dos seus dias e das suas noites.
As amigas diziam-lhe que dava demais e, assim, nunca haveria de receber. Ela, incapaz de entender a perversidade intrínseca do raciocínio, argumentava.
Umas vezes, que quem muito dá - «é inevitável!» - muito receberá. «Só preciso de saber esperar», dizia.
Outras vezes, respondia quase gritando que o amor não era uma troca de mercadorias. Que (e aqui os décibeis subiam alguns tons) bastava a palavra relação para ter vontade de vomitar.
Nas outras alturas, essas em que a fragilidade a transformava numa miniatura de Limoges, dizia sussurrando que talvez não soubesse receber. Que não sabia dar da melhor maneira, que dava sempre na altura errada. Que a culpa talvez da mãe, ou talvez do pai...
As amigas choravam com ela. Recordavam coisas boas do passado para fazê-la sorrir, contavam as suas próprias histórias tristes, para que visse que ninguém é feliz (mesmo que não o acreditassem).
Esta mulher de quem falo ainda hoje bebe o seu café pingado de manhã no mesmo café onde a inventei. Outro dia, não os culpo se não acreditarem, perguntei por ela a uma dessas suas amigas. Que estava óptima, respondeu. Mas recusou-se a explicar-me porquê. Suspeito que saiba qual é a minha ocupação, que sou há muitos anos revisor oficial de contas. A tempo inteiro.

22.3.06

O filme da ruína

A casa onde vivíamos ruiu tranquilamente num domingo. Eu esperava que isso acontecesse. Ela também. Era dia de cinema e pipocas. Embalagem tipo familiar. Mais um. Igual ao domingo anterior e a muitos outros que a memória havia apagado, pela sua irrevelância.
E mesmo assim, apesar do silêncio e da passividade partilhada, a casa não resistiu. Foi-se assim, num repente, sem pedir licença. Levou as telhas, as louças de casa de banho e as outras, da cozinha. Até o tempo levou, como se antes nada tivesse existido. As estantes foram e deixou de haver lugar para guardar as memórias. O chão, em plano inclinado, ajudou a desequilibrar os sentimentos. As paredes, sem quadros, ajudaram ao contraste. O filme a passar, mesmo sem haver televisão. Os sofás à procura de uma companhia mais confortável e ela a perguntar: - queres mais pipocas?
Eu sorri, mas também já não estava ali.

Lugar aos leitores

Caras leitoras e caros leitores, visitantes, amigas e amigos, povo em geral: Esta semana...é a vossa vez! Atravessando os autores do Prazeres um período particularmente preguiçoso das suas existências, decidiram os mesmos lançar o projecto de construção de um texto literário colectivo e participado por todas/os nós/vós.

Assim, as regras são as seguintes:

1. Eu começarei escrevendo um parágrafo inicial.

2. O primeiro visitante a aceitar o desafio deixará a sua continuação da história na caixa de comentários, com um máximo de 100 palavras.

3. O visitante seguinte continuará o texto do visitante anterior.

4. E assim por diante até ao final desta sexta-feira, dia 24.

Os comentários serão depois adicionados num post a publicar, com destaque para todos os autores que tenham contribuído na sua elaboração.

Entenderam? Então bora lá!

O primeiro parágrafo e pontapé de partida da história é o seguinte:

Quando Jovem Ricardo fechou a porta da casa a que chamava sua e decidiu por fim enfrentar a missão que lhe estava destinada, foi confrontado com uma esplendorosa manhã de Sol e o cheiro a terra e relva, molhadas pela chuva inesperada da noite anterior. Para qualquer outra pessoa, este poderia ser o auspício de um resto de dia feliz mas, para ele, não passava de mais uma manifestação do sentido de humor negro e deformado de quem quer que fosse o responsável pelo estado de caos a que chegara a sua vida.

19.3.06

Assim como as heras deixam, depois de arrancadas,
na parede a sua sombra. Assim na minha pele.

Um desenho.
Muito, muito parecido com o teu rosto pela manhã.

Assim como o navio contorna um promontório,
com a gravidade dos naufrágios. Assim na minha pele.

Assim com amorosa cautela as tuas mãos.
...E o Sol dentro da luz. E a luz, dentro dos teus olhos.

18.3.06

Os esquilos de Lincoln Park

The squirrels of Lincoln Park

Falo com os esquilos de Lin­coln Park. Tenho que lhes falar em inglês. Não entendem outra língua. Se viveram nos Cabrini greens saberiam italiano e se viveram entre Dear­born e West Bourbon se calhar falariam polaco. São coisas que acontecem nas grandes cidades cosmopolitas e multiét­nicas, maravilhosas no seu caos. Com os esquilos falo em inglês e começamos a inter­cam­biar ideias e mensagens cifradas. Na mão tenho um livro de haikus, de Richard Wright, que me regal­ei ontem. Leu um par de poemas e achegam-se para escutar mais. Os poemas falam da neve e dos carvalhos, da primavera e das flores, das lembranças e as percepções dum homem exilado. Os esquilos sentam-se ó meu carón e dizem-me de não ler, que faça um esforço e que invente os meus próprios haikus, que não tenha medo do que digam ou pensem os demais. E é assim como em um caderninho que levo no peto escrevo o prim­eiro haiku da minha vida. Em inglês, para que o entendam os esquilos de Lin­coln Park. O poema diz: Just enough cold/to have snow in my eyes/ and think­ing of you (Em galego: Frío dabon­do/para ter neve nos olhos/e pensar en ti). Os esquilos dizem-me que tenho muito, muito que melhorar, que o amor não é um tema canónico dos haikus, que não chega com respeitar a medida para que três versos curtos sejam um haiku. Dizem-me, também, que o amor e a violência são coisas semelhan­tes. Esta é a pequena his­toria de porquê com­ecei a escrever estes pequenos poemas e de porque os escrevi em inglês. Também é a historia do muito que aprendi falando com os esquilos e do pouco que ainda sei.

I
Just enough cold
To have snow in my eyes
And thinking on you

Frío dabondo
Para ter neve nos meus ollos
E pensar en ti

II
Just enough of snow
To freeze Lake Michigan
And all illusions

Neve dabondo
Para xea-lo lago
E as ilusións

III
Snow in my eyes
When I got you so tender
Embracing me soft

Neve nos meus ollos
Cando te tiven tan tenro
Cinguindome lene

IV
Your tenderness
Nothing is so flattering
In winter time

Teu agarimo
Nada é tan agradable
No inverno

V
Seeing Chicago
In a heavy fall of snow
I feel a stranger

Vendo Chicago
Baixo unha forte nevarada
Síntome estranxeiro

P.S. Dissimulem a mestura de linguas, pero eu escrevo assim

17.3.06

dia

lembras-te daquele dia em que

a caneta composta sobre o tampo da mesa
uma casa portuguesa e pão e vinho
os bifes a descongelar sobre o balcão
os dias quietos sem se dizer palavra

lembras-te daquele dia em que

a tostadeira a incendiar pelos teus olhos
o sol que entrava em ângulo complicado pela janela mal fechada
o verso mal cortado, respirando ainda
os comprimidos e os lenços de papel

pois foi aquele dia em que tu

vieste finalmente fechar uma porta cá em casa
com os teus dedos fortes e os teus cabelos despenteados
disses-te duas ou três verdades copiadas de um manual de sobrevivência
e saíste porta fora até à tua ausência

15.3.06

Estátuas no crepúsculo

O sol descaía sobre o largo rio. Em frente à fortaleza, havia uma praia onde os pescadores poisavam as pirogas longas e negras. Alguém esticara pequenas redes entre paus e os miúdos brincavam por ali, na areia. A outra margem já era apenas uma distante sombra cinzenta, coberta pela cor alaranjada e vermelha do céu. Nesse momento (ela tinha o olhar preso na rede do infinito), segurei a mão de Eva. Percebi com surpresa (repugnância?) a pele suada; estupidez minha, como podia ser de outra maneira, naquele calor de brasa?
A fortaleza estava à nossa esquerda. Caminhámos na sua direcção. Era um fortim baixo (talvez cinco metros de altura), caiado de branco, o torreão em cada canto e o rendilhado das ameias a lembrar papel recortado numa brincadeira. A porta era para trás, para a povoação, e o olhar dos soldados deveria contemplar a solidão do rio. Coberta pelo intenso branco, a pedra perdera o ar antigo. Ao passarmos o portão (havia uma abertura no muro, sem sinal de madeira) vimos as estátuas, espalhadas no pátio.
Eva riu-se (a beleza pura do movimento que fez, o cabelo loiro a soltar-se, o riso no olhar azul). No primeiro momento, ofendera-me o tom agudo da gargalhada, mas depois reconheci que havia qualquer coisa de ridículo na grotesca disposição das estátuas.
Um general de largos bigodes comandava as tropas numa posição de rampa inclinada, um braço a apontar para nós, ou antes, o dedo em riste. O navegador quinhentista, atrás dele, parecia que acabara de descobrir aquela terra, mergulhando o nariz nela; e o governador antigo, esse estava quase de pé, seguro a outra estátua enviesada, que me pareceu o que restava de uma deusa branca, ou sereia, ou algo de indefinido.
Aceitara finalmente o riso de Eva. Por gestos, fiz-lhe ver que a trouxera ali para apreciar o efeito de um passado agora depositado no mesmo fortim onde tudo começara.
Eva compreendeu o meu embaraço:
“Os impérios morrem”, disse ela.
“Acho isto triste!”
“É como as pessoas, suponho! Nascem e crescem, conhecem o esplendor e, então, a chama apaga-se lentamente, num declínio!”
Foi assim que Eva falou, embora sorrindo e num tom de voz que não tinha rasto de censura ou de melancolia.
Depois, deu-me de novo a mão. Ficámos um bom bocado em frente ao rio a ver o crepúsculo. Então, regressámos à vereda estreita que se internava pelo mato, até ao local onde tínhamos deixado o jipe. Eu ia à frente e senti, em todo o caminho, o sufoco das sombras densas que se apertavam em torno da vegetação, como se fosse o abraço de uma poderosa serpente.

14.3.06

conversa

Ele era assim -
sentado no carro já bastante tarde, os olhos a fecharem-se com os minutos, ouvir os passos das pessoas lá fora, sentir o sono que se apodera, deixar, vagamente, a mão a passar pelas pernas e, sobretudo, sobre todas as coisas, não a deixar ir embora, não.

Ela era assim -
remexer-se no banco o mais que pudesse até encontrar uma posição que a fizesse ficar até muito muito tarde, contar-lhe todas as coisas que nascessem na fusão dos seus pensamentos, cativar algumas palavras que lhe pareciam, habitualmente, difíceis, sentir-se, muito muito, à vontade.

E depois -
o tic tac do relógio o tempo todo sem parar, o guarda-nocturno a olhar para dentro do vidro embaciado, um gato, perdido, a atravessar a estrada, dois miúdos com os copos, duas mulheres vindas do trabalho, os carros dos padeiros a distribuir pão para várias direcções, dedos entrelaçados, o prazer de uma conversa sem fim. até ao adormecer.

13.3.06

Primavera

Imagina uma latada frondosa. Caminhas inebriada entre o maduro aroma dos frutos e ser ainda manhã.
Tens as mãos livres, o passo solto, nada para fazer excepto ser precisamente aqui. Exactamente agora.
Um socalco acima e estarias no pico da montanha. Um outro abaixo e os pés descalços nas margens do rio. Mas tu, tu estás entre. Não há urgência em subir ou descer.
Espantas-te apenas por ser possível um caminho ou outro, sem que alguém exista para indicá-lo.
Então descobres: Sentes-te feliz. E ergues com vagar o braço, colhendo a Primavera que se oferece.

12.3.06

Hoje não há silêncio, sombra ou medo
nem sussurros de amantes em segredo.
Hoje regressas e recordo só a estrada,
vestida de vermelho a tua pele dourada.

Podem cair em tom de aviso flores lilazes.
Mas o jardim, as raparigas, os rapazes,
acordam, na dobra desse dia,
a esperança indestrutível da alegria.

Não sei, em verdade, como despes
a memória respirando quando as noites...
Mas sei de nós, os dois surpreendidos
por haver tanto ainda para dar.

Apenas nós, entre a Alma e os sentidos.
E o Amor antes da hora de acabar.

10.3.06

A notícia

O parque central mergulhara numa tranquila sonolência. Apenas o rumor da grande cidade diluía os pensamentos de Tim Forrester, que estava sentado, a desfrutar a luz tépida do sol de Inverno. Ao sair progressivamente do agradável estado de flutuação no vazio, viu a idosa que se aproximava pela direita. E teve por ela uma espécie de simpatia que jamais sentia pelos seus concidadãos. Só então o seu olhar de repórter notou a figura espantosa que se aproximava pela esquerda: era um homem que esbracejava no ar, doido varrido, a falar sozinho. Idade indefinida, marcado por alguma desgraça. Foi à distância de dez metros que o reconheceu, num misto de susto e surpresa. Era Chandler, mas diferente. Um Chandler desmazelado e sem nexo, a sombra do homem influente que Forrester conhecera.
Em passo bêbado, Chandler passou à sua frente, casaco descaído, a camisa de fora, a barba mal feita, a boca a abrir-se num vozear murmurado, como se repetisse uma reza. A velha parara para observar aquele destroço humano. Forrester percebeu a observação, cruzaram os olhares. Chandler afastava-se na direcção oposta, numa passada tonta, a lengalenga que dizia continuava a zumbir como o voo de uma vespa.
No sol que brilhava, a velha aproximou-se do jornalista, abanando a cabeça, como se lamentasse alguma coisa:
“Coitado! Era tão boa pessoa!” (Falara do desgraçado).
Com profunda emoção, Tim Forrester tentou travá-la com um braço:
“Conhece-o?”
A velha estranhou a agitação, mas respondeu:
“Era meu vizinho! Morava aqui, num apartamento de luxo”
“O que lhe aconteceu?”
“Destruíram-lhe a vida...”. Mas já se afastava, alarmada com a insistência.
Ao ouvir a notícia, Tim Forrester ficou paralisado. Como era possível? E recordou como conhecera Chandler, cinco anos antes.
O scoop valera-lhe promoções e fama. Soubera não largar a história, questão de persistência. A partir de informações desencontradas, percebera que a chave do escândalo era Chandler, na altura alto quadro de uma companhia que trabalhava para o Governo. Depois de o pressionar, convencera-o a dar-lhe as informações de que necessitava. Habilmente, obtivera documentos. As pistas da história seguiam para Washington, deixara de necessitar das informações de Chandler e esquecera aquela sua fonte.
De súbito, Forrester percebeu que alguma coisa correra mal. A velha afastara-se, mas seguiu-a, quase a correr. Devia estar quase fora de si quando a apanhou:
“O que aconteceu àquele homem?”
Assustada, a velha teve o primeiro instinto de responder:
“Destruíram-lhe a vida, não sei mais!”
“Diga-me”, ordenou Forrester, quase aos gritos.
“Uma notícia de jornal, não sei! Ele falou com um jornalista! Ele e a mulher foram despedidos! A família destruída! Mas não sei mais! Largue-me, ou chamo a polícia!”.
A velha sacudiu Forrester, como se este fosse um trapo, e afastou-se na alameda vazia, num passinho acelerado.

9.3.06

Amor sem fronteiras

Estava petrificado de tédio na fila do caixa do supermercado. Bem, petrificado também não, pois as suas pestanas ainda batiam. Talvez coagulado. Aquilo andava tão vagarosamente que era como o movimento da própria Terra - nem se dava por isso. Quase nunca frequentava tal estabelecimento, quer pela escassez albanesa das mercadorias, quer pela aparência geral comprimida e lúgubre, pouco convidativa. Mas hoje cedera a um impulso e entrara - afinal, tudo o que precisava era de um saco de biscoitos para cães. Não se tratava propriamente do Santo Graal. Não podia ser assim tão complicado.
E, embora não houvesse nem a marca, nem o peso nem o formato que pretendia, despachara-se depressa. Pelo menos até chegar a fila do caixa. Agora o tempo afrouxara e detivera-se e o espaço palpitara e mirrara. Tinha a sensação de que caíra numa engrenagem que rodopiava sobre si mesma, só para regressar sorrateira e simetricamente ao início. Um circulo vicioso. Podia, claro, desistir da compra e fugir dali a correr (enquanto ainda tinha pernas em vez de raízes), sem olhar para cima dos ombros. No entanto, algo lhe dizia que, se o fizesse, no instante seguinte a fila avançaria com uma espécie de celeridade sardónica, e o cliente que estava atrás dele transporia a porta da rua à sua frente.
Era um dilema inquietante.
Por falar na sua frente, diante dele estava um casal de meia-idade. Não percebia patavina do que diziam, pois tagarelavam numa língua eslava, talvez russo ou ucraniano. Com toda a certeza, tratava-se de marido e mulher, num casamento já duradouro - de cabelos hirsutos e da cor das estepes batidas pelo vento, pareciam-se um com o outro, naquela osmose que muitas vezes engolfa os pares de um matrimónio longevo.
Enquanto aguardava, mudando o peso do corpo de um pé para o outro, a mulher afastou-se momentaneamente e regressou com uma vistosa garrafa de Martini. De tão radiante, lembrava uma atleta prestes a acender a Pira Olímpica. Travaram um diálogo áspero e cacofónico. O homem censurou-a com rispidez cansada, abanando amargamente a cabeça. Ela grunhiu qualquer coisa gutural, apologética e ressentida, mas acabou por transigir, devolvendo a garrafa à prateleira. Quando, com uma resignação mórbida, a mulher reocupou o seu lugar ao lado do homem, mais uma fibra - talvez a última - daquilo que um dia, há muitos e muitos anos, fora um amor feérico e avassalador, se havia esgarçado. O casal quedou-se em silêncio, num mutismo eriçado e belicoso, cada um tentando com toda a força fingir que o outro não existia - que nunca tinha existido, e que jamais existiria, nem sequer como pesadelo.
Atrás dele um rapaz falava ao telemóvel. Este sim, ele percebia-o, pois o jovem exprimia-se num português lusófono, num timbre elegíaco. Com uma intensidade ao mesmo tempo sigilosa e veemente, o mulato interpelava o aparelho: «Amo-te muito. Por favor, não chores. Não, não chores. Amo-te muito. Levo aqui umas coisas para o nosso jantarinho. Eu sei, eu sei. Mas por favor não chores».
Ele interrogou-se sobre porque estaria a rapariga a chorar.
Apeteceu-lhe comprar uma caixa de Martini e oferecê-la ao casal da frente. Aquilo resolveria o problema, como o champanhe que se despedaça contra o casco e põe o transatlântico a navegar. Mas eles decerto não aceitariam, e, se aceitassem, ele não tinha dinheiro que chegasse.
Quanto ao casal de trás, não haveria mensagens numa garrafa. A não ser que se aguentassem por uns vinte anos, remando com as mãos naquela jangada que se desfazia. Então seriam o casal da frente - mais pigmento, menos pigmentos, mais consoante, menos consoante - e o Martini resolveria o problema - se ele já tivesse dinheiro que chegasse.
A fila andou mais um pouco, de modo claramente provocador.

(poema)

Onde eu te toco
É onde o silêncio existe
Antes da explosão

Onde a pele se desoculta
Mesmo se para lá
De todas as fibras

Onde os dedos
Ainda caminham
Na geometria do teu pescoço

8.3.06

Pequenas lagartas deixam um rasto de seda nos teus dedos.
Cegas caminham, ignorando as linhas da tua mão, esse destino,
essa falésia, escalada como uma pauta de música onde o silêncio
pausa feito pássaro pequeno.

Vitral onde as cores ultrapassam os nomes que lhes damos,
fé em que as palavras cheguem, a fé cega de olhar uma vela
e isso bastasse para acendê-la.

Nascida de pai e mãe que mais podes ser senão mulher?
Dentro, dentro de ti, que mais fazer para além de repetir-te?

Hoje sabes que ao despir-te não deixas de ser quem és.
E chamas-lhe viver.
Queimas os lábios na chuva do novo Inverno.
E isso basta.

6.3.06

Contar uma história

Tu sabes que as pessoas esperam que faças coisas bonitas. Ao fim de uns tempos, começaram a pensar que tu és capaz de tudo isso. Há quem pense que és brilhante. Há quem te veja a brilhar. Há quem desespere por um sinal teu. Não um piscar de olho, não. Uma palavra. Uma história.

Gostas de ficar a pensar nas possibilidades do mundo. Procuras sítios silenciosos. Locais onde possas ficar a observar todo o tempo que te apetecer. Pontos onde possas viver-te. Porque no fundo é isso que te interessa. Um suave egoísmo percorre-te por dentro. Agrada-te que o consigas transformar em palavras. Agrada-te conseguir oferecê-las aos outros.

No entanto, há quem não perceba. Não é fácil perceber que a história nasce do pormenor. Nasce de qualquer coisa que mais ninguém viu, senão tu. Nasce do momento em que, sem qualquer explicação plausível, percebeste que era possível fazer nascer palavras de um olhar, de um suspiro, de um movimento, de uma situação.

Pedem-te verdade naquilo que escreves. Mas que verdade podes tu oferecer senão a verdade da ficção? A verdade da pequena mentira que criaste? E esperam que tu faças coisas bonitas. Quando tu só esperas conseguir contar mais uma história.

Efeitos secundários

Tod Clifton olhou para mim, com uma expressão preocupada. Depois, desviou o olhar para o relatório sobre a minha mesa, como se implorasse apoio. Mantive-me impassível. Ele nunca teria o meu apoio, claro, mas não lhe podia dizer isso.
Naquela tarde em que Clifton me tentou convencer a abandonar o projecto, os aparelhos mais antigos já tinham dois anos de utilização e estávamos a preparar a próxima geração. Tod era um simples engenheiro e não percebia que já estava tudo nas mãos dos políticos.
Enquanto ouvia os seus argumentos, que decidiu repetir (como se eu fosse surdo), recordei o entusiasmo que sentíramos nos primeiros tempos. Queríamos de facto ajudar e pensei que seria uma excelente ideia inserir no crânio de indivíduos um minúsculo microchip que reagia a momentos de raiva. Era engraçado, como aquilo funcionava! Sempre que um tipo se enfurecia, o aparelho estimulava zonas do cérebro que produziam na pessoa uma sensação de medo, ou de desconforto físico, ou apenas sono. Dependia do modelo. Podíamos usar a tecnologia para impedir o crime ou para educar crianças difíceis, ou controlar doenças mentais.
Distraí-me com o globo de brinquedo que tinha sobre a secretária. Já nem ouvia o que Tod Clifton insistia em dizer. Acendi a lâmpada do globo e fascinei-me com a luz interior que iluminara subitamente os países, como se o núcleo do planeta estivesse em fogo:
“Você já não me está a ouvir!”, disse Tod Clinfon, num lamento desistente.
Apontei para a China:
“Lembra-se de quando vendemos os chips aos chineses? A ideia foi sua!”
Clifton fez descair a cabeça, olhava agora para o chão.
“Quem adivinhava que os iam usar daquela maneira!”
Pela nossa memória correram imagens das inserções forçadas em prisioneiros políticos. Sem fúria não há dissidentes e sem coragem não há protestos. Fora difícil de esconder dos media.
“Nós somos mais civilizados”, prossegui. “Os prisioneiros que aceitem voluntariamente têm reduções de pena. Isso revela a superioridade das democracias. E o facto é que reduzimos o crime em 30 por cento”.
“Mas, os efeitos secundários...”
Travei Clifton com um gesto imperial:
“Li o seu relatório. Os efeitos são irreversíveis. Bastam seis meses de uso. Mesmo que o engenho seja retirado, as consequências são para o resto da vida do paciente. O Presidente também leu e, mesmo assim, decidiu avançar com uma proposta de lei que torna obrigatória a inserção de um chip para todas as crianças com distúrbios de comportamento. Sabe que temos um plano? Em dez anos, cobrir 90 por cento da população, inserindo no chip funções que estimulam o prazer. E a minha empresa terá o monopólio do fabrico. É por isso que este relatório se manterá secreto”.
Após um momento de estupefacção, Tod Clifton saiu irritado do meu gabinete. Destruí o relatório na máquina de cortar papel e telefonei para o número que me tinham dado, a avisar que Clifton saíra do edifício. Foi a última vez que vi o engenheiro.

Boa noite

Surpresa e alegria. Como ao entrar numa mercearia de bairro encontras um odor que acreditavas esquecido na infância ou, ao reabrir um livro, um pedaço de papel regressado de outra vida que agora te espanta teres vivido, assim redescobres a luz nos olhos de quem amas.

Ela, a luz, dança em pleno ar. Eleva-se, curva-se e preenche o espaço livre entre as tuas mãos côncavas. Nos olhos de quem amas o vazio não tem lugar, neles só há espaço para ti e apenas tu respiras. Nos olhos de quem amas nunca adormeces.
Porque dormir é ir embora...ainda que só por um momento.

4.3.06

Bloges e astronomia

Cada bloge uma estrela. As estrelas segundo as reacções termonucleares que aconteçam em o seu seio, e os bloges segundo a quantidade de informação que contenham, podem-se dividir em anões brancas (bloges recentes, cheios de energia), gigantes vermelhas (bloges já antigos, com grande quantidade de informação, mais algo rotineiros, coma sem força), estrelas marrões (bloges que se apagam progressivamente, que perdem interesse e visitas). Já logo teríamos os buracos negros (bloges que geram ao seu arredor um campo gravitacional, que atraem comentários de toda parte, que toda a gente consulta e comenta), os bloges sol, arredor dos quais outros bloges subsidiários se alimentam e vivem, sendo estes os bloges planeta, sem luz própria e fazendo a função de repetidores de ondas, ecoando o que acontece em os bloges sol. Hainos de curta duração, bem por desinteresse do que os iniciou ou bem porque foram programados a tempo fixo, como os que se fãs para promover um livro, por exemplo, estaríamos, então, diante dos bloges estrelas fugazes. Também haveria bloges cometa, que passam e deixam um ronsel de informação ou influências, que podem mesmo deixar traças e originar modificações do seu contorno. Há, por suposto, os bloges lua, que ciclicamente movem as marés e as modas, que geram eclipses e aparecem e desaparecem de continuo. E há também, como não, (para isso estão as ligações), galáxias e constelações de bloges que se associam por temas ou afinidades. E não podiam faltar as supernovas, resultado de intercâmbios de energia/informação entre bloges binários, com origem no mesmo nauta ou não. As supernovas, segundo me explicaram nos anos já afastados da escola, som aquelas estrelas que captam matéria e energia de outras estrelas próximas, que actuam como parasitas e acabam por roubar lhe o material tudo ate elas próprias acumular a energia binária. Os links (ligações) actuariam como “buracos de verme”. Em física, os buracos de verme são hipotéticas características topológicas do espaço-tempo, descritas nas equações da teoria da relatividade geral (uma espécie de atalho a través do espaço e do tempo), que é o próprio que acontece com a informação que se move (aparece) entre bloges (que se replicam, que se repetem, que se citam, que se comentam os uns aos outros).

3.3.06

Se os olhos são o espelho da alma, será que mostram a alma ao contrário?

Alguns nunca saberão manejar uma metralhadora. Outros nasceram para isso.
Kabir tem 8 anos no momento da fotografia. É um pouco, ligeiramente, mais alto do que a sua AK-47. A arma está limpa e ele não. A coronha de madeira retráctil faria dela uma peça de colecção na parede de qualquer coronel reformado. Ele, Kabir, é soldado. Mais um raso entre os rasos. E orgulhoso de o ser, creio eu.

Digo que creio mas nunca o saberei. Nada na sua expressão revela o que quer que seja. A AK-47 é mais poderosa do que a minha Leica, sobrevivente a tantas guerras ou - como agora se usa - a tantos conflitos. No entanto, não é a arma que temo mas aqueles olhos. A expressão abísmica da morte nos olhos de um vivo, tornado golem ou zombie voodoo. Suponho, não posso fazer senão supor, que esses olhos ganhem uma luz negra no momento em que as vítimas tombam, mesmo que apenas por alguns segundos.

Kabir não gosta de mim, tem 8 anos e uma kalash na mão, ainda por cima destravada. Disponho de dois minutos para as últimas imagens do rolo e transmito-lhe isso mesmo com os dedos abertos num V de vitória. Depois disparo, viro-me e inicio o regresso pelo caminho de pó. A seguir, dispara ele.

Quando me viro, com a lentidão suspensa de um relâmpago, vejo que sorri num esgar que o olhar insiste em não acompanhar. A seu lado, um outro rapaz morto e uma outra AK-47. Salvou-me a vida mas nem por isso lhe agradeço. Limito-me a fixá-lo. E ele, com um dedo apenas, levanta-o num gesto de significado universal. Então - e só então - lhe digo obrigado.

2.3.06

Jantar de amigos

Parecia uma barata tonta, mas o seu olhar tinha destinatários bem definidos - foi assim que ele entrou pelo restaurante, cabeça no ar, um caixadóculos perdido - os seus amigos. Tinham combinado tudo pelo telefone, oito e meia, no lugar de sempre, três anos depois. M. trabalhava agora numa galeria de arte da capital e dava-se bem, no meio dos artistas. F. e J. tinham ido viver para Barcelona, agregados aos escritórios centrais da sua empresa comprada por uma multinacional espanhola - três anos depois voltavam ao lugar do crime, à mesa de restaurante onde todos tinham nascido de vez. Ele, o caixadóculos, era o único que mantinha a tradição de filhote da terra, gerente das catorze empresas que o avô deixara e o pai aumentara, uma constante correria entre telefones de várias cores para definir os destinatários, obcecado pelo trabalho, solteiro para lá das raízes dos cabelos. Aquele jantar, três anos depois, era o seu regresso à vida, bem se vê- todos os outros tinham ido em busca de sonhos mais ou menos pincelados por fauvistas, só ele se tinha deixado ficar a viver o paraíso com os pés na terra - e assim, pela primeira vez desde o último jantar onde todos tinham estado juntos, desligou os telemóveis. Parecia uma barata tonta, quando entrou, mas ao fim de seis passos perdidos pelo hall do restaurante, deu de caras com a mesa onde F. e J. já os esperavam, no preciso momento em que sentiu uma mão nas suas costas que, pelo modo de pousar, só poderia ser a de M. . Três anos depois, a nascer outra vez.

Foi numa tarde destas

Rogério fazia doze horas por vezes catorze por dia ao volante do táxi. O alvará, comprara-o pelo preço equivalente a uma vivenda no Algueirão a uma mulher que trabalhava na passagem de nível de Carcavelos mas que - aqui entre nós que sabemos como estas coisas são - nem carta de condução tinha.
A tarde em que aconteceu o incidente era uma das últimas, antes do dia em que todo esse investimento seria finalmente amortizado, o lucro a partir daí investido apenas na educação dos três filhos e, em especial, na do seu varão Marco, estudante do segundo ano de medicina na douta Universidade de Coimbra.
Rogério tinha stress pós-traumático, o que significava que a adrenalina não lhe podia subir acima, digamos, do factor 30, ou isso desencadeava nele reacções semelhantes às daquela tarde em Benguela quando a guerra já tinha supostamente terminado mas, mesmo assim, por alguma razão alguém disparou em pleno mercado e depois outro e outro e quando terminaram havia centenas de corpos no chão, mulheres e crianças também, tantos que tiveram depois de queimar os pedaços com gasolina dentro de bidons.
Nessa tarde Rogério foi chamado para uma corrida ao Restelo e, quando chegou ao local, achou que ia ter problemas. Eles eram três, eram pretos - o que fazia de imediato subir-lhe a adrenalina até digamos o factor 29 e meio – e entraram rapidamente no táxi falando entre si uma língua que não reconhecia. Foi o que bastou.
Um deles, entretanto sentado a seu lado, estendeu-lhe um papel onde estava escrito Hotel Tivoli. Rogério, no entanto, leu uma outra coisa totalmente diferente na folha estendida. Tão diferente que, com a mão esquerda, retirou de debaixo do assento uma Walter de serviço que nunca registara e apontou-a ao surpreendido senegalês. Gritava até as cordas vocais lhe rebentarem como uma harpa tocada por um paquiderme ensandecido. Mas não se ouvia a si mesmo gritar nem deu por fazer o que fez a seguir.
De acordo com o psiquiatra que depôs mais tarde em tribunal, o almoço revivalista desse dia com os ex-camaradas da Companhia fizera-o recuar perigosamente até outro tempo. Um tempo terrível em que se faziam coisas terríveis que, senhor Juiz, penso que posso abster-me de descrever aqui, disse o psiquiatra. O juiz concordou mas nem por isso deixou de dar a sentença. O filho do senhor Rogério, esse, esteve ausente de todo o processo. Quem o conhece, diz que é hoje um médico óptimo com as crianças.

1.3.06

Quadra Nocturna

Insónia é ter o medo por cobertor
e nem as mentiras servirem de almofada.
São todas as estrelas no teu colo,
sem que alguma esteja iluminada.