6.2.07

O samurai (epílogo)

(Numa leitaria portuguesa entra um velhinho japonês, que grita "I'm samurai". O narrador começa a inventar-lhe um passado).
Aquela minha explicação interessou a toda a gente. Trocava umas palavras com o samurai e ia construindo a história dele, feita de pagodes imaginários, jardins suspensos no tempo, levitação zen. Excitara a imaginação e fui por ali fora: falei de mundos inventados, um pouco em busca daquilo que autenticamente me interessa nas pessoas, ou seja, a sua vida interior fantasiada. E o velho turista transformara-se numa espécie de instrumento da minha divagação, mistura de territórios e paisagens utópicas, idealismo impreciso.
Sentara-me na mesa do velho e Alice sentara-se ao nosso lado. Os outros (o brasileiro, Carriço, os empregados, a clientela habitual) rodeavam-nos, de pé, boquiabertos perante o mundo que eu lhes abria através daquela personagem, que todos já viam de quimono florido e espada trespassante.
Ia por ali fora, quando Alice fez um gesto imperial, cortando-me a palavra:
“Desde quando é que falas japonês?”, perguntou-me ela.
Fizera aquele seu movimento de torcer o nariz, que eu tão bem conhecia. Era quase mesmo o nariz a torcer-se, embora não fosse assim exactamente. Os olhos verdes cintilavam de cepticismo, desconfiados. Era o mesmo exacto olhar que me deitara naquela tarde de Verão em que finalmente percebera as minhas manobras defensivas, que as palavras de amor não passavam de pequenas armadilhas, tão imaginárias como os pagodes e os jardins e o samurai, ainda jovem, em busca da sua massacrada família, a passear pela cidade incinerada que uma bomba atómica devastara tão completamente.
“Pois, efectivamente, não falo japonês”, confessei.
Na sensual boca de Alice tremia um sorriso. Ela olhou-me, a lamentar a minha loucura, mas com sinais de brando carinho e suave amizade, apesar da censura na expressão.
“Então, é apenas um velho perdido da sua excursão”, sentenciou.
O samurai envelhecera subitamente aos nossos olhos. As rugas de pergaminho eram mais fundas, como mapas de meandros labirínticos. E os olhos baços pulsavam de espanto, surpresa, solidão.
Então, Alice tirou o telemóvel de um bolso no avental. Depois, removeu o avental, colocando-se em roupa civil. E surgiu a nossos olhos em blusa com decote e uma minúscula corrente de ouro ao pescoço, a santinha de alguns centímetros dançando entre as clavículas salientes. E o busto dela, que respirava, e onde fixámos os olhos, eu e também Carriço, e o velho samurai e igualmente um afortunado de um cliente, que estava de pé atrás dela e espreitava ainda mais um pouco do que nós. Alice chamou a esquadra, atenderam, ela explicou tudo, desligou o aparelho e ordenou rapidamente que preparassem um prato para o japonês. “Coitadinho”, disse, “deve estar cheio de fome”. Finalmente, sorrindo, segurou a mão do velho, segurou-a entre as suas próprias mãos e como que o embalou assim, num maternal veludo. “O pobre do samurai, perdido dos seus”!
A polícia chegou pouco depois, dois agentes, um deles uma rapariga nova (também nova no bairro, devo acrescentar, eu que adoro mulheres de farda estava a vê-la pela primeira vez); e era bonita, com o cabelo enrolado debaixo do boné de pala, o uniforme que lhe disfarçava as curvas desgraçantes.
Depressa as duas mulheres combinaram uma acção, tiniam pequenos telemóveis, interrogavam-se hotéis e grupos excursionistas, enquanto nós, os homens, entretínhamos o felizardo polícia, pois devia ser duro andar na ronda com aquela magnífica colega, arranjar temas de conversação que não parecessem forçados, manter sempre a postura de herói sem parecer demasiado protector, porque as mulheres tendem a rebelar-se quando somos demasiado protectores, embora gostem disso, o que parece paradoxal, como quase tudo nas mulheres. O agente compreendeu a nossa solidariedade e emborcou uma pinga que o Carriço desencantou de propósito. Demos também um copo ao velho samurai, que tinha já comido parte da comida no prato e, ao beber a pinga, se mostrou contente, dizendo algo num japonês que nos pareceu adequado elogio.
Vieram buscá-lo daí a meia hora, outro japonês que partilhou connosco os motivos de tanta aventura: o velho perdera-se da sua excursão, tal como adivinhara Alice. Era idoso e ficara confuso, não falando a língua local. E ficámos a matutar como deve ser difícil viajar assim. E, ao sair do estabelecimento, o velho olhou para toda a gente, com um largo sorriso, os olhos embaciados. Fez uma vénia e disse, num agradecimento:
“I’m samurai”.
E também inclinámos a cabeça, por respeito à única frase que ele sabia dizer fora da sua língua.

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3.2.07

O Samurai (segunda parte)

No texto anterior, conhecemos algumas das personagens. Entretanto, surgiu este turista japonês, um velhinho com ar inofensivo
...Dizia eu, estava sentado no meu cantinho, quando apareceu aquele homem minúsculo. Era velho. Um turista japonês, via-se. Olhou para o interior da leitaria e entrou. Só reparei porque o meu próprio olhar passeava por coisa nenhuma, à bolina.
O japonês era antigo, mas contraditoriamente moderno, observei. Como se ele não conseguisse determinar em que época estava. Pele encarquilhada, ténis Nike e máquina fotográfica minúscula. Sem falar no boné de basebol. De resto, de banalidade arrasadora, semelhante a qualquer turista japonês. Era também polido, ou seja, fazia gestos poupados, como se pedisse licença à mão direita para mexer a esquerda. Sentou-se na mesa bem no meio do estabelecimento, talvez fascinado com a iluminação e a limpeza. Ainda não o referi, mas o pronto-a-comer da Alice é de uma limpeza exemplar e atrai clientela de funcionários do comércio das redondezas, sobretudo às horas de refeição; a partir do meio-dia, começa o corrupio; é a essa hora que me vou embora, pois raramente tenho fome e vou comendo ao longo do dia, a fintar a hora das refeições.
O velho sentou-se e cumprimentou os presentes com uma curta vénia, como se estivesse em casa. Mas, vendo melhor, parecia confuso.
Aproximou-se o brasileiro, que é o empregado do estabelecimento, muito útil quando se organiza o bufete. Digressão desnecessária: o bufete é o grande truque da Alice, o cerne do negócio. Teoricamente, as pessoas podem tirar a quantidade de comida que desejam, mas na realidade é muito menos em conta comer assim, já que os humanos têm mais olhos que barriga. Julgam estar a pagar pelas enormes quantidades que pretendem devorar, mas acabam por pagar um valor que à partida cobre mais do que aquilo efectivamente devorado.
E foi num certo momento, num ponto do universo em que não acontecia nada, que se deu o extraordinário caso. O japonês ergueu-se, com dignidade, num gesto solene. E, transformando o braço direito numa espada imaginária, rompeu a atmosfera com a lâmina do pensamento, gritando: “I’m Samurai”. Não o fez com irritação, ou algo assim, era antes uma afirmação feliz. Um anúncio, como se tivesse gritado, “vou casar”. A palavra samurai foi dita num tom de chicote, mas igualmente com volúpia, pois prolongava-se o “a” e também o “i”. E todos ficaram a olhar para aquela espantosa figura que irrompera assim, sem aviso, pelas nossas vidas banais.
O brasileiro encolheu-se. Apesar de não haver senão uma espada imaginária e um velho digno, embora pequeno; apesar de tudo, inofensivo, de pé ao lado da mesa vazia. No resto da sala pairava o espanto, como se fosse perfume de comida. Com a excepção de Carriço, que tratava do fumegante bufete, ao fundo, e nem se apercebera da comoção.
Alice foi a primeira a reagir:
“Está a sentir-se mal?”, perguntou ela ao japonês, de trás do balcão, na esperança vaga do velho compreender a pergunta.
O turista olhou para Alice e, de súbito, fez uma vénia, acrescentando algo incompreensível, dito na própria língua, mas que podia muito bem ser “Oh! Encantadora musa que encontro aqui neste antro de ciclopes!”.
Senti-me na obrigação de fazer algo. O brasileiro afastara-se, com medo, e eu aproximei-me. Dirigi-me em inglês ao idoso:
“Good Morning, sir”, disse, de modo algo incoerente, pois já passava do meio-dia.
O japonês ficou impressionado com a minha intervenção. Observou-me. Percebi, por um instante que se prolongava, que ele perdera a confiança. Claudicava.
“I’m samurai”, balbuciou, desta vez num tom de voz que se sumia.
Apagava-se, rendia-se.
E, depois, num lamento:
“I’m samurai”.
Só então se sentou, mas com elegância, num gesto comovente.
Iniciei conversação, fiz perguntas, sempre num inglês que tentava pronunciar com cuidado, para que ele percebesse. Perguntei-lhe se queria comer, se precisava de ajuda, se estava doente. Ele respondia em japonês, baixava a cabeça no final de cada frase. Sorria imenso. Era evidente que não falava inglês.
Fui traduzindo, embora não percebesse nada do que ele dizia.
“É um nobre japonês, íntimo do próprio imperador”, expliquei...
Esta história terá um epílogo

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2.2.07

O samurai (primeira parte)

Ainda hoje, no meu bairro, é lembrada a progenitora da Alice, a Dona Felismina, que deu em herança à filha o pequeno estabelecimento, uma leitaria entretanto modernizada em pronto-a-comer. A mãe da Alice era uma mulher daquelas chamadas de armas, ou seja, mais dominadora do que mandaria o seu corpo franzino. Parecia a Edith Piaf e sei que, em jovem, incendiou numerosos corações galantes; mas, enfim, só a conheci já gasta. Parte da história também será bordada a lenda, pois sabemos como tudo nesta cidade acaba sendo um pouco romanceado.
Quem verdadeiramente interessa é Alice, que terá essas origens curiosas, embora pertençam a um passado que já nem imaginamos. E quem sabe o que se esconde em gerações ainda mais remotas? O facto é que ela tem lábios grossos, nariz achatado, o traseiro algo proeminente, caracóis enrolados no cabelo cor de azeitona escura...
Na aparência, é uma mulher não muito diferente das outras: talvez um pouco mais redonda de carnes, o que faz sonhar alguns homens, entre eles Carriço, discreto apaixonado e lugar-tenente do estabelecimento; o seu homem, digamos assim, macambúzio e soturno, mas também ciumento, sobretudo quando vê possíveis rivais a cobiçarem Alice com olhares famintos, nem que seja macho de passagem, um zé-ninguém que jamais voltará.
Alice não é alta nem baixa, não é velha nem nova. Anda sempre desmazelada, sem pinturas ou jóias; veste avental com nódoas. Mas não precisa de ornamentos, tendo aqueles olhos verdes, esmeraldas reais, embora a cor já esteja esbatida, enfim, porque o tempo passa. Será ela bonita, verdadeiramente bonita? Penso que não, pelo menos do ponto de vista do gosto dominante nestas matérias, a preferência que podemos ver em qualquer revista de moda, corpos a tira-linhas, sem a redondez que pessoas como eu acham mais sensual. Alice não serviria para modelo de pele retocada a photoshop e cabelo ao vento. Ela tem cintura gorda, pregas de carne em torno do umbigo, o que pessoalmente acho muito de cobiçar; e, no seu peito subido e largo apetece encostar a cara, para se ouvir aquele coraçãozinho palpitante, a respiração acelerada; sim, confesso, sei bem como podem aqueles seios enlouquecer um homem. Conheço Alice há dez anos, por dentro e por fora, andámos enrolados por alguns frenéticos meses, embora ela não tivesse qualquer ilusão sobre as minhas intenções, que eram inteiramente desonestas. Talvez por isso tenha sido possível mantermos esta relação amigável. Ela sabe que me faltam alguns parafusos, talvez suspire por mim, num ou noutro pensamento, mas nunca o mostra. É apenas afável comigo. E não tenho dúvidas de que Carriço, que apareceu muito depois, saiba do nosso passado comum, embora nada possa conhecer sobre os segredos murmurados, as frases de amantes que trocámos, ela e eu. E não pode imaginar as lágrimas que ela gastou comigo.
Podia evitar a leitaria, pois quase não suporto a desconfiança e a inveja de Carriço e talvez seja cruel alimentar dessa forma as lembranças de Alice. Mas acabo por me sentar todas as manhãs no estabelecimento, a olhar o pequeno mundo que por ali passa, a rabiscar pobres poemas; bebo um ou dois cafés, leio o Diário de Notícias, como uns salgadinhos, vou bebericando imperiais ou, ocasionalmente, uma aguardente. Enfim, medito.
Naquele dia, também não tinha nada para fazer e transformara, como de costume, a mesa do cantinho no meu escritório. Já agora, para que percebam a razão de tanto tempo perdido, informo que sou uma espécie de inútil: queria ser poeta, mas falhei na vocação; o meu pai era industrial; deixou fortuna assinalável, investida em bolsa. O meu trabalho, digamos assim, é estar atento ao sobe e desce das cotações, vender em alta e comprar em baixa, o trivial, que dá para viver modestamente. Não faço descontos nem loucuras, sou solteirão. Vivo no limbo feliz da decadência burguesa, numa casa antiga, com vista para o passado e também para o rio e o seu estuário.
Os meus investimentos são de pouca ambição, e falo metaforicamente. Pode parecer estranha, esta ideia de alguém querer apenas viver o dia-a-dia, ao ritmo de um mercado sem lógica, despreocupado em relação a quase tudo e numa perspectiva constante de não possuir futuro. Aliás, essa é a minha única perspectiva constante. Antes assim, viver sem amar nada em particular, olhando melancolicamente o que podia ter acontecido, se por hipótese improvável tivesse acontecido.
Dizia eu, estava sentado no meu cantinho, quando apareceu aquele homem minúsculo. Era velho. Um turista japonês, via-se. Olhou para o interior da leitaria e entrou. Só reparei porque o meu próprio olhar passeava por coisa nenhuma, à bolina.
Este conto tem continuação, a publicar em breve

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6.11.06

A floresta cor de sangue


Rivaud ouviu um grito e quando olhou para trás, assustado, ainda viu o seu companheiro, Leduc, tombar inanimado. O arqueólogo tinha sido atingido por um insecto e desabara entre arbustos. Embora estivesse nos limites das suas forças, Rivaud correu na direcção do ferido. Descobriu o corpo inerte, o aguilhão cravado nas costas como se fosse uma faca. Leduc agonizava e lançou um derradeiro suspiro, morrendo ainda estendido no chão, sem dar tempo sequer para o jovem biólogo o segurar.
Não havia mais nada a fazer, mas este foi, para Rivaud, o momento de maior desespero. Olhou para a floresta que o cercava, esmagado por uma angústia que até aí jamais sentira. A selva parecia escorrer sangue, amálgama de imensas copas com mais de duzentos metros de altura, um muro de folhas que escondia a luz pálida da atmosfera e se propagava em distâncias que quase não se podia conceber, quando olhado daquele ponto de vista baixo, do chão esponjoso. Formas de espécies não catalogadas, com flores bizarras e perigosos insectos do tamanho de um punho; mas sempre aquela mesma cor vermelha, fantasmagórica e cheia de sombras. Uma molécula semelhante à clorofila, mas púrpura, transformara o mato num peculiar cenário: dir-se-ia que a selva era exclusivamente feita de tecidos longos, hastes e troncos, (pareciam panos tingidos com o mais berrante do roxo ao rosa), raízes que vinham do topo das árvores (cinco vezes maiores do que as mais altas da Terra), e toda a arquitectura da natureza funcionava como uma gigantesca e profunda caverna, onde flutuava um cheiro a podre e um ruído de fundo, poderoso, que lembrava uma sinfonia ameaçadora, interpretada por instrumentos imaginários.
Segurando o corpo de Leduc, Rivaud escondeu-se nos arbustos, atento ao voo dos mortíferos insectos. Por instantes, o biólogo entrou em pânico; mas, com o tempo a passar, começou a acalmar-se. O fato térmico estava rasgado e deixara de o proteger contra a temperatura de 50 graus. Sentia febre. Mal conseguia respirar e perdera demasiada água. Desfalecia, poderia entrar em choque se não se acalmasse, e foi o intenso treino que lhe permitiu ultrapassar aquele momento. Sentou-se, agarrado ao cadáver do arqueólogo, e controlou a respiração, escondido dos velozes insectos sem nome, que zumbiam ainda. E enquanto esperou que passasse aquela tempestade, um pensamento assaltava-o: como pudera aquela expedição correr tão mal?

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Uma semana antes, um grupo de quatro exploradores tinha descido naquele ponto da selva densa do Planeta Golem. Levavam equipamento suficiente para enfrentarem qualquer perigo, incluindo fatos térmicos que lhes permitiam manter o corpo em temperatura segura e até escafandros. O local da descida não tinha sido escolhido ao acaso. Cinco anos antes, uma sonda automática fotografara o que parecia ser uma construção no meio da floresta sangrenta. Podia ser uma pirâmide, meio oculta na folhagem vermelha, ou uma cúpula de pedra ou ainda uma superfície espelhada que, de alguma forma, reflectia a luminosidade acima das copas do arvoredo. As imagens não permitiam identificar o objecto, mas era sem dúvida artificial. Em certas fotografias, quase parecia uma cara humanóide de grandes dimensões.
Golem ficava fora das rotas das viagens espaciais e tinha interesse remoto, pois não parecia haver recursos estratégicos naquele planeta do sistema de Sirius. Apenas a opressiva floresta, coberta por um efeito de estufa que tornava o clima demasiado quente para o ser humano. Mas a descoberta de traços que poderiam ser de uma civilização perdida mudara a estratégia da exploração. Nos anos seguintes, foram enviadas sete sondas automáticas, mas nenhuma delas conseguiu produzir qualquer dado significativo, excepto imagens de grande beleza da construção, que ganhava novos contornos, algo fantasmagórica e imprecisa. Um facto tornara-se evidente: Golem parecia inexpugnável.
Os voos com levitadores não permitiram reconhecer o local exacto da construção. Ou teria sido engolida pela selva e não estava visível. Ou brilhava apenas em certas ocasiões. Foram usadas técnicas variadas, mas o arvoredo era impenetrável, com três possíveis objectos dispostos em posições distantes um quilómetro umas das outras. Os restos de uma cidade de uma raça estranha? Ninguém sabia.
Por isso, foi enviada uma expedição de quatro homens armados, dispondo de aparelhos de comunicação, alimentos e água. Desceram de levitadores especiais por longas cordas e entraram na selva. Sabia-se a posição das pirâmides ou torres, ou das construções alienígenas; por isso, tinham descido a menos de um quilómetro do local estimado, montando acampamento. Quando encontrassem o objectivo, abririam uma clareira que permitisse poisar aparelhos com mais material e reforços humanos.

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O primeiro a morrer foi Delba, que comandava a expedição. Foi na madrugada do primeiro dia. Rivaud só podia especular sobre o que lhe acontecera. Delba vigiava o acampamento enquanto os outros dormiam. Quando acordaram, tinha desaparecido. Acabaram por encontrar o corpo a uma distância curta. A mão fechara-se sobre o que parecia ser uma flor esplendorosa. Mas uma análise revelou que as pétalas eram venenosas. Porque razão o comandante tocara, sem luvas, na flor?
O que nenhum dos membros do grupo compreendeu foi o motivo porque Delba saíra sozinho do acampamento, contra todas as regras. Teria sido atraído por algum ruído ou fora excesso de confiança do comandante? Vira alguma coisa ou alguém? Morto sem angústia, de face serena, Delba já não podia responder a essas inquietações.
Os três sobreviventes abandonaram o primeiro acampamento, depois de terem enterrado o corpo do comandante. À luz muito diáfana da manhã, a selva de Golem parecia incendiada, repleta de tons baços e formas horrendas, como se fosse carne viva pendurada num talho de criaturas gigantes.
"Um milhão de plantas desconhecidas para podermos baptizar com nomes novos", brincara Bergerac. Foram estas as únicas palavras que gastaram. Lembrando-se do companheiro, avançaram calados, pisando a cobertura esponjosa, (lianas, troncos e pântanos), rumo à construção alienígena.
Nesse segundo dia, perceberam que tinham perdido os aparelhos de comunicação e de orientação. Os primeiros deixaram logo de funcionar, consumidos por um musgo, ou algo vivo e quase microscópico que entrara no interior dos mecanismos e os incinerara; os aparelhos de orientação eram menos relevantes, pois não teriam de caminhar um espaço demasiado longo para chegarem ao objectivo, que devia estar logo ali, quatro troncos mais à frente, escondido pela cerrada vegetação rente ao solo.
Mas, nos dois dias seguintes, procuraram em vão a construção misteriosa, sempre sem avançarem mais do que um quilómetro em qualquer direcção. Andavam em frente, depois inflectiam para a direita e, de novo, para a direita, apenas 90 graus em cada viragem; após três voltas andavam de novo para trás, sempre num padrão semelhante, como se varressem uma quadrícula. Então, começaram a perceber que nunca encontravam os rastos deixados pela anterior passagem. Onde tinham cortado raízes e fendido vegetação com os grandes machetes, havia agora apenas a paisagem imaculada, monótona, como se novo tecido tivesse engolido os seus rastos.
O cansaço começara a tomar conta dos três exploradores. Sonhavam com a pirâmide, imaginavam que ali, naquela selva, estaria enterrada uma maravilhosa cidade de cúpulas douradas, mais bela do que qualquer outra construção no universo, e nesse refúgio poderiam descansar das suas fadigas.
Foram sendo tomados de alucinações. Bergerac enlouqueceu ao sexto dia. Começou a rir-se muito alto, histérico. Numa ocasião, sem aviso, embrenhou-se no mato espesso. Não o viram mais. Apenas o riso insensato, que parecia provir de várias direcções ao mesmo tempo. E, quando chegou a noite, trazendo o fumo rasteiro da decomposição dos tecidos, o cheiro ácido da putrefacção, Leduc e Rivaud ouviram de súbito um grito pavoroso, que irrompeu daquela paisagem de camadas decompostas, onde apenas a morte triunfava.
Já não procuravam nada, quando foram surpreendidos pelos insectos do tamanho de um punho. Limitavam-se a percorrer uma espécie de labirinto mental, sem rumo ou sentido, apenas marchando, já sem forças, um passo a seguir ao outro, como náufragos numa rotina.

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Rivaud pensou em ficar no local onde Leduc tombara. Permaneceria naquele exacto lugar até que chegasse a expedição de salvamento. Mas os murmúrios da selva de sangue prosseguiram na mesma entoação de um cântico fúnebre. E o corpo do amigo tornara-se desagradável, coberto por uma espuma, ou seria uma película de um líquido fétido, cuja podridão o contaminava também a ele, com o seu cheiro enjoativo, colado aos dedos, entranhando-se pela pele dentro.
E, quando o desespero já assentara no espírito cansado, emergiam na sua memória as imagens indefinidas daquilo que poderia ser uma construção em forma de cara humanóide, olhando o espaço, ou uma torre, ou uma pirâmide espelhada, a reflectir a vaga luminosidade pálida daquele planeta excessivo.
Acordado pela beleza das imagens, Rivaud ganhou energia para continuar a marcha. Deixou o corpo do arqueólogo escondido por folhas mortas e prosseguiu. Andou durante um tempo que lhe pareceu prolongar-se por muitas horas, cada passo um novo tormento, cada fibra do corpo a protestar com dores, pela desidratação, a febre, o cansaço.
Quando chegou a noite, escalou a um ramo de uma árvore e amarrou-se com a corda que lhe restava. Apesar do desconforto, conseguiu dormir. Sonhou com pirâmides e torres imaginárias, caras alienígenas e também, confusamente, com os nomes de fantasia que tinha escolhido para todas aquelas novas espécies de plantas, que ninguém conheceria jamais. E, quando despertou, ao raiar de uma luz que pairava como se fosse poeira, lembrava-se apenas de farrapos do sonho.
Depois, seguiu o caminho. De novo, as botas afundando-se na matéria esponjosa do solo, o cansaço a anunciar cada movimento, um vapor que parecia sair do seu corpo, a água restante, que se perdia para a humidade geral, como se as suas células fossem os únicos tecidos a secarem naquela armadilha.
E, de súbito, viu um movimento, alguns metros à frente. O que lhe pareceu um homem a andar entre a folhagem. E ouviu distintamente o ruído de machetes que cortavam a selva. O seu coração bateu mais forte, assaltado pela esperança de ser encontrado pela missão de salvamento. Mas logo essa alegria entrou em colapso, ao distinguir, naquela distância, duas figuras de homens, as cores do uniforme iguais às suas: eram ele e Leduc!
Sim, ele, Rivaud, a abrir caminho entre ramos soltos; e, atrás, Leduc, com uma expressão de angústia, o olhar desvairado e perdido. Antes de estar morto!. Uma cascata de emoções tomou conta das suas percepções, mas a visão fora breve, já os dois náufragos desapareciam numa neblina, sem lhe dar tempo para gritar.
Rivaud ainda andou à deriva durante muito tempo, uma eternidade. A floresta de sangue estava repleta de ecos. E, de súbito, foi inundado por uma onda irresistível de cansaço. Encostou-se a um tronco e ficou ali, à espera. Estava a morrer e sabia disso. Então, na derradeira hora, quando lhe restava a desistência, teve um relance das construções misteriosas. Estavam talvez à sua frente, a dez metros. Viu a superfície lisa de uma parede que brilhava, mas a imagem não era estável, parecia animada por uma ondulação de neblina que lhe mudava subtilmente os contornos. Era perfeita, pensou Rivaud, maravilhado com a descoberta. Igual ao sonho que sempre procurara, a quimera inexistente, a inatingível perfeição humana, o tesouro inalcançável, o cerne da alma. Uma miragem.
E, finalmente feliz, em paz consigo mesmo, Rivaud deixou-se flutuar na direcção da morte.

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19.10.06

O caso da loura espampanante


Sou considerado um duro na minha profissão, um detective privado à moda antiga. Por isso, para um tipo como eu, habituado ao sub-mundo, o caso da loura espampanante era uma simples briga caseira. Mas não me interpretem mal, quando um detective como eu se mete ao serviço, pois bem, mete-se ao serviço.
O marido enganado (baixo, gordinho, careca) era um homem de negócios e pagava-me mil dólares para arranjar fotos comprometedoras da sua mulher com o amante dela, um gajo qualquer, arraia miúda, que a louraça conhecera em Hollywood, quando fora actriz sem grande êxito. Um facto era indiscutível: ela tinha demasiadas octanas para o meu cliente. Vocês conhecem o enredo: o marido é peixe graúdo, mas a sereia anda na atmosfera a seduzir marujos de passagem.
Eu podia escrever argumentos de filme B, de tal maneira adivinho as histórias logo desde início, mas as conversas iniciais com o maridinho não me tinham preparado para uma lasca daquelas. A madama era um mulheraço de parar o trânsito. Podia, sem escândalo, ser declarada monumento nacional. E espantei-me: as coisas que Hollywood anda a mandar fora.
Mas não se engana cá o je. Nesse dia, ela saiu de casa com peruca e óculos escuros. Um disfarce quase infantil. E, claro, o perfil dela era inconfundível a uma distância de 200 metros: a forma como se movia na rua, ao mover aquelas ancas de fazer enlouquecer, tornava-a muito fácil de vigiar. Tinha o melhor par de pernas que já vi e foi nessa altura, quando a estava a seguir discretamente na avenida 56, no meio do tráfego da manhã, que percebi o interesse do velho careca, o marido enganado.
A gaja agiu bem, tentou despistar eventuais seguidores e, se tivesse sido um amador, a pista tinha-se perdido. Deu-me as voltas num hotel da baixa, ao entrar por uma porta e sair pela outra, mas eu tinha previsto a manobra e continuei a farejar a presa. Depois, entrou numa estação de metro, apanhou a primeira composição e saiu na estação à frente, mas no último momento, para detectar eventuais seguidores. Claro que eu tinha antecipado o truque e continuei a segui-la, já quase apaixonado por aquele movimento de ancas, uma verdadeira máquina hipnotizadora.
Por instantes, até me imaginei enrolado com a dama, quando ela entrou numa casa de banho pública e eu fiquei fora à espera. Foi ali que ela mudou de disfarce, uma boa manobra para despistar amadores, mas não me deixei enganar. A louraça era uma excelente actriz. Saiu na forma de velhinha insignificante, com saquinho das compras e tudo! Comecei a admirar o petisco!
No fundo, bem lá no fundo, sou um duro de coração mole! Continuei a segui-la, mas agora com extrema admiração. Quase tive pena de ser obrigado, por contrato, a sacar as famosas fotos comprometedoras. Subimos pela avenida 75, a loura espampanante a fazer de velhinha indefesa, e eu a 50 metros atrás, a apreciar aqueles sinais inconfundíveis das ancas num movimento sensual.
Ela subiu toda a 75 e meteu pela 43. Numa precaução que quase me traiu (foi brilhante, devo dizer!) parou num bar da esquina e enfiou um copo de bourbon, olhando manhosamente para ver se tinha sido seguida. Só depois se dirigiu para o hotel onde estava o amante.
Não vou entrar em pormenores, mas descobri que a lasca subira para o quarto 545. O número é irrelevante. O que importa é perceber que havia uma escada exterior e que se podia, com habilidade, colocar uma câmara que me permitia fotografar o quarto. Ainda não tinha chegado lá, quando me cai um tipo em cima. Houve uma luta terrível e quase caí cinco andares. Então, reconheci as fardas das brigadas de intervenção do FBI. Foi a surpresa que me fez baixar a guarda e levei um uppercut nos queixos que me deixou meio abananado. Só acordei em frente ao meu amigo Denzel Washington, que é um dos comandantes do FBI na luta anti-espionagem.
"O que estás aqui a fazer?", perguntou o Denzel.
Não havia razão para lhe ocultar a verdade:
"Estou a seguir uma loura que se encontrou com o amante, um antigo actor de Hollywood, no quarto 545".
"No quarto 545 houve um encontro entre dois espiões soviéticos", disse o Denzel.
"Devem ter sido os ocupantes anteriores. Estes, eram dois amantes. Uma loura e um actor falhado", expliquei.
"A tua loura é uma velhinha de 70 anos que roubou o segredo da bomba atómica", afirmou o Denzel.
"Não te deixes enganar pelo disfarce. Ela é uma excelente actriz. Não sei porque razão Hollywood não a aproveitou. É muito mais boa do que a Olivia de Havilland".
"E eu sou mais bonzinho que o Errol Flynn..."
"Pois, tu és o Denzel Washington".
Impaciente, o meu colega do FBI abriu uma porta do quarto e lá estava, senda na cama, com os seus óculos pendurados no nariz (parecia uma professora primária) uma velhinha com o saco de compras. A mulher que eu seguira, depois da casa de banho. Havia dois enormes gorilas do FBI a seu lado, com cara de poucos amigos.
"O ‘amante actor’ era um coronel do KGB chamado Petrov", explicou-me o Denzel.
"E onde está a loura?"
"Qual loura?"
Nesse momento, percebi tudo! Quando esclareci o equívoco com o Denzel, ainda corri até à casa de banho pública. Fiquei em frente à porta umas duas horas, à espera que a loura espampanante saísse, mas ela não saiu. Já devia ter saído muito antes. Onde estaria a essa hora? E aproveitei aquele tempo para começar a redigir mentalmente o meu relatório: "A sua esposa tem um comportamento exemplar, fez compras, passeou pela baixa. Tenho esta boa notícia: as suas suspeitas de infidelidade não se confirmam".

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25.9.06

Devoluto

Ao fundo da minha rua existe um prédio devoluto, que pertence a um banco. Está quase em ruínas e vazio. Tem quatro andares, seriam oito ou dez apartamentos, não sei bem, mas todas as janelas estão partidas, o tecto parcialmente tombado, as portas tortas e inúteis. Não é muito fundo. Não há saída pelas traseiras, pois dá para um muro do pátio. Em baixo, havia duas antigas lojas, cheias de lixo e onde, por vezes, alguns vagabundos dormiam.

Digo havia, porque alguém tapou com tijolos e cimento as duas lojas de baixo.

Eu ia a passar por ali, trazia na mão os sacos com as compras do dia, por isso caminhava devagar, rua acima (a rua tem certa inclinação e já sou velho, por isso andava devagar). Então, ao passar pelo prédio devoluto, reparei nos tapumes de tijolo e parei ali, para observar melhor. O cimento ainda estava fresco. Que diabo, pensei, foram rápidos a tapar isto...

Foi então que ouvi um rumor distante, uma voz rouca que balbuciava algo. E parecia vir do interior.

Poisei os sacos e procurei testemunhas, para partilhar essa minha estranha descoberta.

Estava um rapaz à espera da namorada, na esquina e chamei-o, veja lá, veja se ouve alguma coisa, e aproximou-se também um segurança do edifício público mais ao fundo da rua, chamei-o igualmente, venha cá, senhor, veja lá se ouve alguma coisa. O rapaz quase colou o ouvido ao cimento fresco, mas fez que não com a cabeça. Estive toda a noite a dançar na discoteca, é natural que não ouça nada, explicou ele (embora eu não tivesse pedido qualquer explicação ele sentira-se na obrigação de me dar uma). O segurança era mais arguto, mas não encostou o ouvido ao cimento, com medo de sujar a farda. Depois de um bocado, disse: Há, de facto, um barulho qualquer, mas pode ser o vento a assobiar na janela de trás, às vezes isso lembra uma pessoa a uivar. Afirmara aquilo como se pedisse desculpa por não concordar comigo, embora eu não tivesse dito nada. Foi nessa altura que eu referi a minha teoria sobre o assunto: isto pode ser alguém que ficou lá dentro, um sem-abrigo, por exemplo, que estivesse aqui a dormir enquanto fizeram a parede.

Eles olharam para mim, desconfiados. Ninguém ia fazer uma coisa dessas, disse o segurança, como se não acreditasse em erros de engenharia catastróficos. E se ficasse alguém lá dentro, fugia por trás, objectou o rapaz que esperava a namorada. Olhe que não, olhe que não, contrariei, lembro-me destas lojas e não têm saída por trás.

Ficaram a olhar para mim, alarmados. Colocaram o ouvido de novo no cimento. Não ouvimos nada, disseram os dois, ao mesmo tempo, como se fossem membros de um coro afinado. Um barítono, o outro tenor.

Fomos à volta, mas a porta estava bloqueada por tijolos e a segunda loja também. Tudo fechado, aqui não entra ninguém, exclamou o segurança, sem lógica, pois o problema era sair, não era entrar.

Dito isto, feita mais uma audição atenta, concluíram as duas testemunhas que se tratava de falso alarme. O segurança desculpou-se com a insegurança do seu edifício público: ainda me entram por ali os ladrões, (como se o problema fosse entrar). E o rapaz fingiu ver a namorada do outro lado da rua e escapou em grande velocidade. Fiquei eu e os meus sacos. Encostei o ouvido aos tijolos cimentados que tapavam a antiga entrada da loja térrea e fiquei ali a ouvir, a princípio nada, depois um vago rumor, como se fosse um sem-abrigo emparedado ou, com mais atenção, o vento a assobiar numa frincha. Ainda pensei em chamar uma autoridade, mas depois lembrei-me de que havia futebol na TV e estava quase na hora e ainda tinha de subir três andares...

Nos dias seguintes, toda a gente ouviu uns barulhos estranhos que chegavam do prédio entaipado. Depois, foi descendo a frequência do ruído. Até que acabou. Agora, o bairro voltou a estar tranquilo...

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18.9.06

O abismo da vida humana


Ao Domingo, junta-se toda a família em casa do meu irmão mais velho, que tem uma vivenda (é construtor civil e a casa dele é suficientemente grande para todos). Tenho quatro irmãos, todos casados (sou o único solteiro), Às vezes vai também o meu tio, que é o meu patrão, dono da barbearia onde trabalho. Mas não era o caso. Estávamos só nós: eu, os meus irmãos e o meu pai.
Comemos muito bem (a minha cunhada é uma excelente cozinheira) e o meu pai, que é viúvo (a mãe morreu há dois anos) estava muito feliz e começou a contar uma história, de uma namorada que tinha tido antes de conhecer a nossa mãe. Nós rimos, imaginando o namoro; e tentámos adivinhar a razão do namoro não ter sido bem sucedido. Alguém perguntou isso mesmo, porque razão não tinha casado. O velho fez uma pausa, ficou a olhar para nós, subitamente com ar sério. Podia perfeitamente ter casado com ela, disse ele, não aconteceu por simples acaso. Então, depois de afirmar isto, o meu pai ficou com uma expressão que só lhe tinha visto no funeral da minha mãe, como se estivesse a ver o fundo de um poço e, lá dentro, almas aprisionadas.
Nenhum de nós estaria aqui, disse ele. Só eu, talvez, e não seria aqui, mas noutro sítio. E percebemos que imaginava uma vida alternativa, em que tinha casado com essa mulher, tido outros filhos e outros netos. Estaria a almoçar com essas outras pessoas, em outro sítio qualquer.
Olhámo-nos, subitamente conscientes de que éramos os filhos de uma circunstância irrepetível, uma teia de acontecimentos só possíveis uma única vez, num único tempo e espaço.
Senti um súbito arrepio e penso que o mesmo sucedeu aos meus irmão. Pensei, de repente, em todas aquelas pessoas que podiam ter existido, mas que nunca tinham existido; talvez melhores do que eu, talvez piores... E, por um infinito segundo, também vi o abismo que é a vida humana...
Cláudio Silva
Isto foi roubado aqui, por favor comentem

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2.9.06

O regresso

O espaço vazio entre as duas fileiras de casas tinha ondas de lama seca; parecia um instante congelado no tempo.
A casa da avó Bóri ficava no fundo do bairro pré-fabricado, na zona mais miserável do gueto. Mas Dánko não via o lugar dessa forma; para ele, aquela disposição das habitações (filas de prisioneiros na parada) lembrava-lhe a infância; o céu por cima como que viajara do passado (uma nuvem grossa flutuava no azul, parecia um veleiro); e a brisa ligeira que agitava as árvores da mata ao lado era semelhante a um rio entre margens plácidas, num deslizar feliz.
Avançou. Esperara uma hora antes de entrar no bairro dos ciganos. Não queria ser visto pelos vizinhos, pelo menos por enquanto. Escolhera a hora da sesta, quando apenas alguns miúdos brincavam no espaço em frente às casas; e os miúdos ignoraram o intruso.
O autocarro chegara à cidade mais depressa do que tinha imaginado (havia estradas novas, que não conhecera antes); já gastara os mil forints que lhe tinham dado e, por isso, teve de caminhar da estação de autocarro até ao gueto, a pequena sacola ao ombro. De qualquer forma teria andado, mesmo que tivesse dez mil no bolso. O bairro social ficava fora da cidade e mesmo no exterior dos subúrbios, na orla de uma aldeia que apenas conhecera com gente pobre, mas que agora possuía novos habitantes endinheirados, e que pressionavam a câmara a mudar o bairro cigano para uma zona desfavorecida.
Mas, agora, só se preocupava com a avó Bóri. Estava em frente à porta (uma porta meio partida e com marcas de sujidade sobre a tinta pelada). Bateu suavemente e esperou, enquanto uma camada de silêncio se sobrepunha aos ruídos do mundo e a luz baça da tarde abafada lhe fazia doer a vista.
Foi ela quem abriu a porta. Envelhecera e não escondeu o desagrado de o ver ali:
“Já te esperava!”, disse a avó Bóri.
Dánkóoqueria dizer-lhe que não tinha mais nenhum sítio para onde ir, mas o seu orgulho não lhe permitiu pronunciar essas palavras. Limitou-se a saudá-la. Mas não entrou na casa. Esperou, obediente, que ela fizesse um gesto vago com a mão, que apenas fez porque não queria que ele fosse visto ali pelos vizinhos. A avó não precisou de explicar, era evidente pela sua expressão desconfiada, o olhar fugaz que deitava para os lados, como que a vigiar se era vigiada.
Dánko sentou-se numa cadeira da cozinha. Observou o grande calendário com a Virgem Maria. Era ainda o mesmo calendário que conhecera, anos atrasado. Ficara na parede porque a avó gostava da imagem da Virgem Maria, uma mulher pálida e magra, sorrindo levemente, como uma vítima que aceita o destino. Dánko tinha as mãos grossas pousadas sobre a mesa; a cozinha separava-se das restantes zonas da casa por tecidos leves pendurados e que faziam de cortinas, filtrando o pouco sol que entrava. Havia um cheiro a espaço fechado, que lhe recordou a solidão que passara, dias, semanas, meses.
“Não podes ficar!”, disse, de súbito, a avó Bóri, como se fosse a única coisa que podia dizer.
“Eu sei”, respondeu Dánko. E a avó moveu as sobrancelhas, talvez a interrogar-se porque razão ele regressara. Mas não perguntou mais nada. A velha ficou silenciosa, a ver as mãos grossas do neto sobre a mesa vazia.
Dánko ergueu-se, sorriu. Ao despedir-se da avó, sentiu vontade de a beijar na face, mas não o fez. Já estava na rua, quando disse:
“Não fui eu! Não sei como eles souberam, mas não fui eu!!
A avó Bóri olhava silenciosamente para Dánko, que acrescentou:
“Eu ia pagar a dívida até ao fim, mas eles adivinharam, não sei como, mas souberam”.
E, nesse momento, a avó fechou a porta.
Era a hora de maior calor e toda a gente se protegera nas casas ou nas sombras. Alguns homens dormiam, sob uma árvore. Um deles estava de pé e viu Dánko, que tinha de passar nas proximidades. O homem fez uma careta de desprezo, cuspiu para o chão. E Dánko baixou os ombros, desviou-se humildemente, para evitar algum insulto que não pudesse deixar impune.
Andou durante horas, de regresso à cidade. E lembrou-se de um sítio no parque, onde poderia dormir naquela noite, sem ser incomodado. Na manhã seguinte, saberia talvez o que fazer.
O parque tinha forma de cruz e, no seu limiar direito, havia uma igreja protestante. Era na sombra dessa igreja que alguns vadios dormiam nos meses de Verão, em bancos de jardim. Ao aproximar-se desse sítio, acelerou o passo, como se não houvesse mais tempo para o encontrar. Se não encontrasse os vagabundos ficaria ainda mais vazio.
Viu de imediato o vulto de um homem atarracado e gordo. Reconheceu Szárka, o cigano tolo. Os dentes salientes e a cara estúpida, o corpo indolente que se abandonava no banco de jardim. O excluído dos excluídos, no seu poiso.
“Posso dormir aqui?”, perguntou Dánko. E Szárka encolheu os ombros; a sua boca alarve imitava um sorriso.
“Sou Dánko! Saí da prisão hoje!”
O tolo interessara-se:
“Mataste alguém?”, perguntou, numa pronúncia tola.
Dánko negou, com um gesto:
“Estava na prisão a pagar uma dívida...”
Szárka largou um riso de incompreensão. Dánko sentara-se no seu banco de jardim e explicava:
“A minha família tinha uma dívida com o Joshka Gordo, sabes quem é?”
O tolo abanou a cabeça.
“Não podíamos pagar e, como eu sou parecido com o Gordo, fui para a prisão em vez dele, fingindo ser ele. Estive lá um ano, mas devia ter ficado três anos, que era o tempo da sentença. Os polícias descobriram-me! Juro que não fui eu a desistir! Não denunciei ninguém, foram eles a descobrir!”
Szárka parecia compreender o que ele dizia, enquanto observava com tristeza aquele homem grande à beira de chorar.
“Ninguém acredita em mim! E, agora, o ano que passei na prisão não pagou nenhuma parte da dívida. A polícia anda à procura do Joshka Gordo e eu não tenho para onde ir”.
Dánko calou-se. Afundara-se no banco de jardim, sem saber o que faria a seguir. Szárka aproximou-se, abriu o saco de plástico, onde havia alguma comida, e mostrou-lhe, sorrindo, o interior. Oferecia a sua comida.
“Fico a dever-te”, disse Dánko, numa voz sufocada, tirando do saco um pedaço de pão duro.
Depois, sorriu para Szárka, o cigano tolo, que era tudo o que lhe restava no mundo inteiro.

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24.7.06

a minha vida paralela (1)

O bairro colonial fica numa colina virada para ocidente. Não é muito mais do que um conjunto reticular de ruas, alinhamento imperfeito de casas dos anos 40, algumas mais antigas. Possui o mesmo rígido bordado de carros estacionados que enfeita outros bairros da cidade, linhas paralelas, metálicas e coloridas. Mas quando se observa com cuidado, olhando os habitantes, descobre-se uma diferença: o bairro colonial é mais étnico, tem africanos e brasileiros, culturas variadas. Se alguém entrar ali, pode ter a sensação de entrar num mundo separado.
O bairro nunca faz parte do meu roteiro, mas naquele dia entrei pela rua principal, por me querer afastar de mim, por estar zangado com a vida: tivera uma banal discussão no escritório; (ou em casa?) Já só recordo o estado de alma, o estar fora de mim. Saí, num repente, a bater com a porta, para espairecer. Andei por uma avenida, a ver a gente que passava. Depois, precisei de me embrenhar numa solidão ainda mais funda.
Subi, sombrio, a calçada íngreme do início do bairro colonial. Na rua perpendicular, que deixara, passavam multidões, mas poucos se desviavam na direcção que eu tomara; questões de fama do lugar, talvez.
Os prédios tinham o estuque estalado, persianas de janela sujas, roupa pendurada ao sol, grafitos nas paredes (uma diferente escrita, uma língua separada), caixotes do lixo a transbordar. E ouvia-se, vindo do interior de cada casa, um rumor de vida, vozes e murmúrios, como se houvesse fantasmas em cada pedra daquele castelo, pois que tudo aquilo era somatório de fragmentos.
(...)
Dizem que a oscilação de uma flor ao vento pode ter implicações cósmicas. Sinceramente, não acredito. Mas, por vezes, essa ideia falsa faz-me pensar nos complexos caminhos do acaso. O que me levava ali, senão uma torrente irresistível de decisões demasiado frágeis para serem materiais? E porquê naquele tempo específico, naquela situação e conjuntura, cinco minutos desfasado do gato sonolento que não vi porque se distraiu com um passarinho esvoaçante? Sincronizado exactamente com o gesto da mulher que se postara à sombra, na porta da sua loja de objectos inúteis e que me viu avançar rua acima, sei lá com que pensamentos na mente? E as nossas existências perpendiculares cruzaram-se naquele exacto ponto do tempo e do espaço, naquelas únicas circunstâncias, e não em outras distintas, sabia-se lá por que vontade! E, alheio a essa coincidência, subi como caminha o sonâmbulo que não sabe para onde vai, ou que sonha algo de distinto da realidade que os seus passos incertos produzem...
(...)
Havia uma espécie de planalto, em que as ruas perdiam a inclinação. As mesmas calçadas portuguesas, que pareciam tecidos roídos pelas traças. A patine nas fachadas, de tom pastel, as pequenas lojas cheias de misteriosos nadas.
(...)
Tinha marchado muito e a minha fúria dissipara-se. Olhava as coisas que me rodeavam, já com um gosto diferente. De certa maneira, mudara, embora não soubesse o que mudara em mim. Então, passei em frente a um grupo recreativo, um café com grupo recreativo, com pessoas dentro, lembro-me vagamente, sem saber já o nome que estava no cimo da porta larga, de alumínio. Recordo-me bem do símbolo e da bandeira, igual à da Itália, mas com uma estrela no campo branco. E já tinha passado quando o homem magro que estava à porta, a observar-me, desconfiado, deitou a beata de cigarro ao chão e fez assim: “Pst! Pst!”.
Não gosto de reagir a chamamentos daqueles, embora soubesse que ele se dirigia a mim, visto como intruso.
“Ó Manel”, insistiu ele, a estender o braço na minha direcção, depois virando-se para dentro, gritou: “Venham ver, tá ali o Manel da Lúcia”.
Aquilo era comigo, não o podia ignorar, embora não me chame Manel e não conheça nenhuma Lúcia. Não senti ameaça, ou algo assim, percebi de imediato que tinha sido confundido com outra pessoa. Estava calmo, via agora o mundo no seu lado favorável e virei-me para o homem fininho, disposto a esperar por ele, a enfrentá-lo, a rectificar o equívoco.
(...)

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A minha vida paralela (2)

Saíram outras pessoas da taberna, do interior do grupo recreativo, e todas me olharam. Alguém repetiu “O Manel da Lúcia!” e parecia espantado; outro homem acrescentou, divertido: “Voltou, o sacana!”.
Os tipos estavam ébrios. Caras patuscas, narizes vermelhos, sorrisos exagerados, vozes rastejando. Rodearam-me, mas sorridentes e interessados. Tentei negar a identificação, mas levaram-me para o interior do grupo recreativo, para dentro do bar atascado, e puseram-me um copo à frente. Que tinha de beber para comemorar o regresso, disse um deles, e chegaram outros homens, atraídos pela comoção geral: houve palmadas alegres nas minhas costas, alguém que notava que eu vinha mais gordo, outro a concluir que parecia em grande forma, igualzinho ao que sempre fora.
O equívoco era tão extenso, que a situação não deixava de ser engraçada, por isso não resisti. Deixei-me levar pela torrente de emoções daqueles desconhecidos, sem perceber patavina do que diziam, a tentar agarrar no ar o débil cordel de uma história que me arrastava como uma brisa leva um pequeno insecto.
(...)
Nas entrelinhas do que diziam, fui percebendo que eu, Manel da Lúcia, desaparecera dois anos antes, sem razão aparente. Aqueles eram os meus amigos, digo assim, meus amigos, embora jamais tivesse visto algum deles. Iam contando o que se passara, numa confusa sucessão de informações inúteis, entre as que desmentiam a história que até ali eu formulara, depois desfazendo de novo o mosaico, reposicionando cada pedaço, numa reconstrução sem nexo...
(...)
Enfim, desaparecera durante dois anos; tinham julgado que eu fora morto numa luta de bandos criminosos; depois, admitiram que emigrara para longe; fui sendo esquecido; e a Lúcia, inconsolável, coitada, deixada para trás, já a tinham chamado. Foi ao perceber este pedaço que me comecei a assustar...
(...)
e, de repente, ali estava ela. Uma figura franzina, de mulher magra e triste. Muito portuguesa, vestida de escuro, com a face pálida e mãos rudes. Uma cara que, embora não passasse muito dos trinta, começava a ser roída por rugas precoces, que lhe tornavam o olhar melancólico e pesado. E, em contraluz (recortava-se na porta, com a luz solar da rua por detrás) causara a imediata suspensão do vozear bêbado dos homens, a figura que adivinhei ser Lúcia, a minha mulher, disse apenas, numa voz de aflição:
“Onde é que ele está?”
Os homens afastaram-se de mim; ela observou-me (eu estava bem iluminado pela luz da rua); Lúcia levara a mão à boca, para suspender um grito; aproximou-se, numa comoção; ficou com os olhos enormes e míopes a um palmo da minha cara. E, ao não me reconhecer, o esgar de consternação, a repugnância, o medo insólito, um pequeno grito de dor...
Fui atrás dela, ao perceber os terríveis efeitos daquele equívoco. Os bêbados tinham-me confundido e chamado a mulher do homem cuja identidade eu tomara por alguns minutos. Era como se eu, porventura involuntariamente, estivesse a magoar aquela Lúcia pela segunda vez, mas agora de forma mais cruel ainda
“Mas, espere, é um terrível equívoco”, disse eu, a persegui-la pela rua.
Ela andara vinte metros e, de súbito, ao sentir-me ali, enfrentou-me, num desespero:
“Porque é que não és tu?”
Como se aquilo fizesse sentido, segurei-a pelo braço, tentado fazê-lo com doçura:
“Foi um engano” disse eu, “confundiram-me com o seu marido... Lamento”
Lúcia acalmara-se. Por um momento, que se prolongou inexplicavelmente, imaginei que Lúcia era, de facto, a minha mulher; imaginei a minha vida paralela, estranhamente desabitado da própria realidade. Depois, a sensação dissipou-se. Ela conformara-se com a sua solidão, a sua perda, ou lá o que era, destino, talvez, acaso.
E ali nos separámos. Lúcia, sofrida; eu, de novo no exterior daquele enigma.
Desci pelo caminho que antes tomara, até à avenida perpendicular.

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15.7.06

Um frio de morte

Extraordinariamente escarlate, com a pele do tom da paprika madura, Támas Fafej deu um murro na mesa, fazendo tremer o candeeiro de petróleo que iluminava a taberna. Só então, os três camponeses, todos bastante bebidos, prestaram verdadeira atenção à pausa que o seu companheiro fizera, o tomar de fôlego antes de um discurso importante:
“Foi assim mesmo que aconteceu!”, exclamou Fafej, criando um silêncio teatral, que as badaladas das onze, vindas da torre da igreja, tornaram ainda mais dramático.
“Vocês, os jovens”, e a voz de ébrio era acentuada pela expressão de desprezo, “não sabem o que foi a guerra e o que lá sofremos”.
Aquilo era de súbito mais credível. Fafej tinha fama de cabeçudo, de homem amargo e quezilento, que dava pontapés nos cães que passavam e insultava os trabalhadores que iam para a faina. Nunca tirava o chapéu quando passava o conde Termekenyi, o proprietário da aldeia. Fafej era um trabalhador dos mais pobres, a mulher cansara-se das pancadas que levava e abandonara-o. Por isso, ele vivia sozinho, sem ninguém com quem falar, cada vez mais furioso com a vida alegre dos outros.
E, agora, pela primeira vez, aqueles rapazes joviais, que não sabiam nada do mundo, começavam a acreditar na história que ele lhes contara, de como fora feito prisioneiro durante a ofensiva Brusilov e levado com metade do seu batalhão para o interior da Rússia, onde ficara prisioneiro durante dois anos. Era inverno, ao estalar a revolução em Petrogrado. Os prisioneiros austro-húngaros tinham sido reunidos numa aldeia perto do caminho de ferro transiberiano e, um dia, vieram as tropas brancas e levaram muitos novos recrutas. Um deles era Fafej.
“A imensa distância”, disse Fafej, a babar-se, pensativo. Engoliu mais palinka, como se precisasse de fogo para soltar a língua. “O rapaz chamava-se Pavlik e era meu amigo”. Na névoa do álcool, lembrou-se que nunca percebera aquela amizade. Era um rapazinho imberbe e magro, que mal sabia carregar a espingarda. Espero que não sejam fuzilados, dissera Pavlik, uma vez, para o confortar. Os guardas brancos encostavam-se à parede (estavam presos num mosteiro de pedra grossa) e desesperavam da sua sorte, temendo o interrogatório dos vermelhos; Fafej era o único húngaro sobrevivente, mal arranhava o russo, e Pavlik, que mal sabia pegar na espingarda, jurava que seria uma pena se ele fosse fuzilado...
“Pavlik era meu amigo, mas tinham-lhe dado uma ordem”. Fafej parou de novo, como se procurasse as palavras certas. E a memória buscava os rastos do que acontecera 15 anos antes, apesar da palinka fazer oscilar o mundo e, com ele, a fraca chama do candeeiro de petróleo, a largar sombras na parede vazia.
“Fomos até à orla da floresta, onde Pavlik deveria escolher um sítio bom para me fuzilar. Os comunistas não tinham munições e muitos brancos foram mortos à pancada. Eu tinha sorte, porque uma bala é mais rápido”.
Os dois camponeses e o forasteiro tinham mergulhado num silêncio alarmado, sabendo que o álcool nunca mente. Bebiam cada palavra.
“Pavlik apontou-me a arma e eu disse-lhe que éramos amigos. Não vais disparar, disse eu. Virei-lhe as costas e caminhei para a floresta, muito devagarinho. E ele gritou, pára ou disparo, e eu continuei, sentindo nas minhas costas o terrível frio do cano da espingarda, a gelada bala que me iria tirar a vida. O frio de morte. E aquela espera durou uma eternidade”.
Fafej ergueu-se e disse de súbito, triunfante, a voz arrastada:
“Continuei a caminhar e estava entre as árvores. Depois, caminhei sempre, até encontrar um comboio. Demorei seis meses a andar cinco mil quilómetros. E, agora, todas as noites sinto ainda aquele frio nas minhas costas. Por isso bebo.”
Fafej era um homem enorme e cambaleou, como uma árvore partida, na direcção da porta. Fora da taberna, acumulara-se neve e assobiava o vento forte. O camponês distinguiu na escuridão a vaga sombra da torre da igreja e avançou pela rua. Estava cansado e confuso. Cantarolou uma cançoneta russa que aprendera, mas o efeito da palinka começou a dissipar-se e uma facada de frio entrou-lhe pelo casaco. Era uma noite de tempestade e gelo. As casas eram vultos que se erguiam como fantasmas e o caminho turvara-se. Então, nas suas costas, ouviu a voz trémula: “Pára ou disparo”. E o frio da morte tocou de novo nas costas de Fafej, num único ponto, o do medo e de uma fúria que se dissipava, pois que o mundo oscilava à sua volta, embora só ali houvesse a ríspida voz do vento e os múltiplos fantasmas das suas angústias, soltando-se como animais na puszta, a erguerem com as suas patas endiabradas uma poalha de geada que o envolvia, protectora.
Invadido por um imenso medo, por uma desistência repentina, Fafej ficou parado naquele caminho sem saída. Talvez cinco minutos de pé, num terror solitário: e o ponto gelado crescia nas suas costas e Pavlik da noite repetia a ordem e, então, como uma árvore abatida, Fafej caiu na cama de neve e adormeceu.

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27.5.06

De como o gato Iskra (Faísca) salvou a Humanidade

O velho Mikhail Petrovitch olhou para a brancura da neve, lá fora, e suspirou profundamente. Pareceu perder-se nos seus pensamentos, e só então me dei conta da importância da minha pergunta sobre o que realmente acontecera naquele dia confuso de Abril. Depois, bebeu um pouco do chá que tinha sobre a mesa (notei os seus dedos extremamente finos) e sorriu com uma recordação qualquer. Era como se eu já não estivesse ali.
“Em que está a pensar, Mikhail Petrovitch ?”, perguntei.
O velho sorriu ainda mais. Quase ria:
“Num gato! Chamava-se Iskra e fazia justiça ao nome, parecia uma faísca a correr pela dacha do secretário Korillov. E a sua pergunta anterior sobre aqueles dias da transição de poder fez-me lembrar aquela bola de pêlo ruivo que corria pela casa. O gato que salvou a Humanidade”.
E ao dizer isto, largou uma genuína risada. Depois, ficou em silêncio, e ouvia-se a imensa tranquilidade do mundo. A floresta, do outro lado da estrada, um vento que se erguia sobre a neve, a madeira que estalava no calor da casa.
“O que não percebo, Mikhail Petrovitch, é a ligação entre o gato Iskra e a transição de poder. E como é que o gato salvou a Humanidade?”, perguntei, incrédulo, a pensar que estava a ser gozado.
“Onde é que íamos?”, perguntou o velho. “Ah, a transição! Portanto, depois do secretário-geral ter morrido, houve um vazio de poder durante duas semanas. Os membros do Politburo estavam em luta uns com os outros, excepto Korillov, que teve a liderança durante a transição e, portanto, o poder de escolher o sucessor... Enfim, você já sabe isto tudo... O que não sabe é que houve uma noite de pânico no dia 22. Korillov estava na dacha. Eu também, já que era o secretário pessoal dele. Deviam ser uma cinco da manhã quando chegam três outros membros do Politburo, acompanhados de vários generais. Traziam a mala dos códigos nucleares e pareciam agitados, sobretudo o marechal Getmasov, que era meio paranóico e extremamente incompetente. ‘Temos de atacar antes que eles nos esmaguem’, vociferou o marechal, quando todos entraram no gabinete de trabalho de Korillov, que ainda estava de pijama e parecia patético no seu espanto com aquele alvoroço. Já nem me lembro bem qual era a questão, mas parece que houve um erro de avaliação sobre o que se passava nos silos atómicos dos americanos. Enfim, os generais estavam convencidos de que haveria um ataque nuclear dos Estados Unidos no prazo de uma hora. E gastaram esse tempo a discutir se aquilo era assim, a pedir mais informação. Faltavam dez minutos para o alegado ataque e o clima na sala era de histeria. Todos gritavam, Korillov hesitava. Então, houve uma espécie de intervalo e os espíritos pareciam ter acalmado, como se houvesse ali a iminência de uma grande decisão. Em certo ponto, o secretário Korillov não aguentou mais e vacilou, aceitando um ataque preventivo... Naquela altura não sabíamos, mas uma guerra nuclear seria equivalente ao extermínio da Humanidade... Enfim, alguém se esquecera da mala dos códigos em cima de uma mesa, procuraram-na com o olhar, e lá estava Iskra, a bola de pêlo ruivo, como um diabinho, em cima da mala, a dormir muito refastelado. O marechal Getmasov precipitou-se para a mala, decidido a enxotar o gato, mas foi nessa altura que as coisas se tornaram verdadeiramente alucinantes. Alguma coisa irritara Iskra, que se eriçou contra o marechal, bufando-lhe, furioso com a interrupção do sono ou com algum gesto. Estávamos nove pessoas na sala e ficámos estarrecidos. O marechal fez o movimento de quem procura a pistola e teria disparado, mas os militares entravam desarmados nas dachas dos membros do Politburo, cuja segurança pertencia à KGB. Eram regras de segurança do tempo de Stalin. O marechal tinha estado em Estalinegrado, não era uma gatinho inofensivo que o ia travar. Iskra levou um valente safanão e o Getmasov abriu a mala dos códigos, virou-se para Korillov e disse: ‘Tem de dar a ordem, Stepan Stepanovitch”. Korillov ficou a olhar para ele, muito branco, sentado, ainda no seu pijama, com ar indefeso, mas rendido, pronto a dar a ordem. De súbito, Iskra saltou-lhe para o colo e todo o movimento se suspendeu na sala. O gato esticara-se, com as patas de trás sobre as pernas do dono, as da frente no peito dele e o focinho avançado sobre a sua cara. E Iskra começou a lamber a cara de Korillov, a lambê-lo freneticamente, como se pedisse para esperar mais um pouco. ‘O gato não tem medo’, disse Stepan Stepanovitch Korillov. E segurou Iskra, segurou-o com suavidade, dando-lhe festas no dorso, depois recostando-se na cadeira. ‘Esperamos’, ordenou o secretário. O marechal ainda tentou convencê-lo, implorou durante alguns minutos e, então, chegou aquele telefonema que esclarecia todo o mal-entendido. Tinha sido uma ilusão, não havia nenhum ataque americano, apenas más interpretações de informação electrónica. Dias antes de morrer, Korillov disse-me que no momento em que Iskra lhe saltara para o colo tinha pensado em mil coisas diferentes, mas lembrara-se da sua neta e sentira, por um instante, uma presença superior no seu colo. Mas repare que ele não chegou a usar a palavra Deus... Como é que os americanos chamam a isto, Guerra Fria, não é? Pois bem, digo-lhe, meu caro, se nessa Guerra Fria houve autênticos heróis da União Soviética, aquele gato foi um deles”.
Mikhail Petrovitch calou-se. Ficou pensativo um bom bocado. Olhou para a rua, distraído. Talvez pensasse na sua carreira falhada, no seu futuro breve, no poder dos acasos ou na loucura dos homens. Então, quebrando a pausa, concluiu:
A propos, escreva o seu livro, mas você nunca poderá contar esta história!”

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20.5.06

Passeio com Átila

Da obscura bruma, cinzenta e fria, saiu aquele par de silhuetas. O rapaz era alto e magro, vinha agasalhado com um cachecol velho que destoava do sobretudo. Pela trela, o cão rafeiro, com costela de pastor-alemão. Os dois desceram devagar a rampa asfaltada e o homem escolheu um banco de jardim, onde se sentou, apesar da forte humidade. Depois, largou o cão da trela e disse, em voz alta, como se conversasse:
“Podes ir, Átila, mas não te afastes muito”, e admoestava o rafeiro com o dedo espetado.
A princípio, o animal largou por ali fora, deu três pulos no relvado, cheirou algumas árvores, depois voltou para junto do rapaz, que meditava, a observar o espaço confinado no nevoeiro, as copas de arvoredo no fim do descampado do jardim, as folhas amareladas das árvores mais próximas, a luz que tentava romper a barreira das nuvens.
O cão ficara em frente ao rapaz, sentado sobre as patas traseiras, à espera, a observar o que faria o humano:
“Queres saber como é papar a velhota...”, disse o homem, para puxar conversa.
O cão moveu a cabeça para o lado; talvez para escutar melhor, talvez para tentar compreender a ordem dos sons que o humano fizera.
“Pois, meu amigo, tem os seus problemas”.
O focinho avançara ligeiramente, como que numa interrogação.
“Papar a velhota, digo...”
O cão abriu a boca, descontraíra, tinha a língua de fora...
“Tu deves achar esquisito. Apareci em tua casa, assim, sem aviso, tu percebeste logo ao que eu vinha...Mas, no fundo, não podes compreender porque estou com a tua dona...”
O cão ficara ainda mais atento, o olhar interrogador, insatisfeito...
“Ela controla tudo, sabes. Divorciada, sem filhos, tem dinheiro. E já chegou à idade em que as mulheres se estão nas tintas para as aparências, podem namorar com um tipo como eu, que sou um solteiro desempregado, ainda por cima ambicioso. Olha para o sobretudo”, e mostrou a qualidade do tecido ao canino, que cheirou o casaco, “boa matéria, um presente, foi ela que me comprou...”
O homem recostou-se melhor no banco do jardim.
“Achas mal? Tu também dependes dela...”
O cão de novo tinha a língua de fora, como se concordasse...
“Gostei de a conhecer. Um dia, claro, vou-me embora...Ela vai chorar umas semanas e depois procura outro matulão como eu. Ou talvez nem chore. Aponta o dedo e diz que a porta é serventia da casa. Temos vinte anos de diferença e ambos sabemos que isto não é para casar. O ideal seria ela arranjar-me um emprego. Até esse dia, dá-me presentes...Não achas bem!!
Era uma afirmação. O tom de voz mudara, tornara-se áspero. O cão apercebera-se da transformação e olhou para o rapaz, à procura de pistas para compreender o motivo da transição. Depois, distraiu-se, olhou para o lado e rosnou, na direcção do vazio. Houve uma pausa e, do nevoeiro surgiam dois vultos; eram dois homens jovens, que também desciam o caminho asfaltado no meio do parque público. Vinham a conversar. Aproximaram-se. Pararam junto ao rapaz do sobretudo. Dois skinheads.
“É feroz, o rafeiro?”, perguntou o primeiro skin, apontando para o cão.
“Chama-se Átila, portanto, deve ser mau como as cobras”, respondeu o rapaz.
O segundo skin acocorara-se ao lado do animal. Começou a fazer-lhe festas no pescoço e na nuca.
“A mim, parece-me manso”, disse.
Ficaram os quatro ali um bocado. Então, o segundo skin foi correr com Átila no relvado; o primeiro ficou de pé, ao lado do rapaz do sobretudo:
“Tu não trabalhavas naquela fábrica que fechou?”, perguntou o skin.
O rapaz fez um gesto, a dizer que sim.
“Eu também. Não te lembras de mim? Trabalhava na secção de polimento. Mas, na altura, usava cabelo comprido...”
“Ah, sim! Lembro-me...E arranjaste emprego?”
“Não, ando pra qui...Tu, é que tás a subir na vida, casaquinho à maneira...”
“Nem por isso...Tenho uma velhota por conta... É professora e tem narta”
“Dá-te umas lições...”
“Nem por isso...”
“O cão é teu?”
“É dela. Eu só o vim passear.”
Átila e o outro jovem tinham regressado. Os skins foram embora, mas só se despediram do animal, com grandes festas no pescoço, no dorso e amigáveis palmadas na nuca.
(...)
O parque parecia ter mergulhado numa espécie de intervalo, a cidade imperceptível atrás da névoa densa e os pensamentos a fluírem sem nexo.
“E aqui estamos nós os dois sem termos para onde ir”, disse o rapaz.
E o cão gemeu um pouco, como se entendesse o humano; inclinou a cabeça, como se tivesse pena dele; abriu muitos os olhos, como se quisesse dar-lhe força.
“E tu aqui a perceberes tudo o que eu dizia, meu malandro...”
E, depois, com um riso breve: “vamos pra casa, Átila”.


Nota: Este conto tem forma de resumo e ritmo errado, a exigir mais pormenores, mas paradoxalmente ficou demasiado longo para o tipo de forma adequada a blogue. Prazeres Minúsculos é uma espécie de oficina de escrita, com objectos concluídos e outros não terminados, como é este caso. Não consegui fazer este post mais pequeno, pelo que os leitores necessitam de dupla paciência, a de imaginarem os hiatos e a de suportarem a extensão...

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17.5.06

Uma amizade

Daniel enviara-me um sms a dizer que a amizade valia mais do que tudo o resto, mas apaguei a mensagem. Os meus dedos passaram depressa por três teclas e já estava, foi como se as palavras tivessem morrido e como se o desaparecimento daquelas letras (agora sem nexo) diluísse a imagem que eu ainda tinha dele. Algo se fragmentara na minha alma, após o gesto, mas a perda de consistência não era um acontecimento preciso, apenas uma sensação vagamente desagradável, a que se tem quando algo termina.
Só então assentou a ideia concreta da crueldade. Ao suprimir a mensagem, parecia ter iniciado um processo irreversível de apagar Daniel da minha memória.
Lembro-me dele, ainda antes de sofrer a depressão. Era um rapaz franzino e calado, um pouco melancólico, com óculos redondos pendurados no nariz aquilino. Durante meses, fomos colegas de trabalho, criámos uma amizade e formámos uma bem sucedida dupla de solteirões na noite de Lisboa.
Ele foi um dos convidados no meu copo-de-água, quando decidi mudar para a equipa dos casados. Talvez ele não se recorde particularmente da cerimónia, bebera demasiado, mas às tantas estava agarrado ao meu smoking, quase a rasgar o tecido, a dizer que sentia uma espécie de inveja, tão bonita era a minha noiva.
A beleza engana muito, agora sei disso. E as noivas têm ciúme dos melhores amigos, essas figuras sem lugar. Três é uma multidão, como se costuma dizer. Eu tinha um novo emprego e a minha vida mudara, mas esse primeiro casamento (que durou quatro anos) foi um período sufocante e obsessivo.
Enfim, havia muito em que pensar, por isso também mudara a minha amizade com Daniel. As nossas vidas foram divergindo, mas o processo deu-se com lentidão. Encontrávamo-nos por vezes, mas tínhamos cada vez menos sobre o que falar, como se esse afastamento fosse sobretudo coisa mental. O terreno comum encolhia sob os nossos pés, mas isso nada tinha de trágico, era um facto aceite de maneira conformista. A amizade transformara-se em algo de dinâmico, como se fosse um mar, cujas metamorfoses não são imediatamente visíveis, mas apenas pressentidas. Sombras que passam, cores que mudam, água que se agita, a paisagem mudando em pormenores e minúsculas subtilezas.
Quando o Daniel teve a depressão, a nossa amizade evoluiu de novo. Nunca verdadeiramente me perdoei por não ter reparado no estado em que ele estava. Emagrecera, desaparecia da vista durante semanas (e eu não lhe telefonava durante semanas); e, quando nos encontrávamos, parecia mais sorumbático do que era habitual, de branda palidez; sempre apressado, para recolher à sua solidão. Eu não entendia a natureza da doença e, quando o tentei ajudar, fazê-lo sair do estado de tristeza, ele afastou-me bruscamente. Embora esse gesto fosse consequência do mal, ofendi-me. O afastamento durou seis meses. Quando reencontrei Daniel, por acaso, na rua, ele contou-me o inferno que passara naquele período.
Nunca mais seria o mesmo. Transformara-se numa pessoa demasiado controlada, que evitava multidões, com fobias constantes. Perdera o emprego antigo, empobrecera, enfurecia-se, não conseguia manter relações estáveis. Por isso, Daniel era um solitário. Ficava mais alegre quando estava comigo, mas fui-me afastando dele. E não consigo definir as razões.
Ele embaraçava-me, talvez. A nossa amizade morria, devagar, e o elo fraco da ponte que se desfazia era eu.
Nessa véspera de Natal, Daniel enviou-me uma mensagem a dizer que a amizade era o mais importante. Apaguei a mensagem e, nesse gesto, apaguei sem remorso uma parte da minha vida.

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2.5.06

Recordação

Nos consultórios não há espelhos. Se houvesse, teria visto as pregas de pele que deformavam o seu corpo outrora liso, agora pouco mais do que o tronco curvado na cadeira, como se fosse um arco de pedra à beira de ruir.
A jovem médica auscultava o tórax, aproximara-se dele, e o velho sentiu uma vergonha súbita, embora a imaginação flutuasse e o gesto fosse também a aproximação de uma mulher. Mas, no fundo da consciência, não podia fugir da realidade do seu corpo em declínio.
Respire fundo, disse ela, e o velho tentou, mas a inspiração saiu-lhe frouxa.
Está magro, tem de comer, sentenciou a médica, enquanto se sentava, arrumando o estetoscópio.
Foi então, quando a médica, compenetrada, começava a garatujar numa folha de receitas, que o velho recordou Úrsula. Quase disse em voz alta que Úrsula tinha aquele nome feio, mas que era um pedaço de mulher. Mas não disse nada, apenas lhe saiu da boca um murmúrio que também podia ser um desabafo ou um gemido de dor...
...Úrsula tinha o noivo pelo braço, mas sorrira para ele, só para ele, o velho que já não era velho e que delirava numa recordação. Ao fundo, nuvens ameaçavam o arraial, levantara-se um vento e os músicos procuravam sair do estrado para se protegerem da chuva iminente; o noivo chamou-a ao correr, mas Úrsula não saíra do mesmo sítio, até que começou a chover e onde antes havia um baile restaram apenas dois jovens, que pareciam conversar em silêncio, infinitamente, enquanto a chuva crescia...
...Pode vestir-se, disse a médica, e o velho agarrou na camisola interior e torceu o corpo, para tentar enfiar o braço na manga. Sentiu uma dor ligeira nos ossos. Percebeu porque se lembrara de Úrsula, a médica tinha uma semelhança com ela, a forma das sobrancelhas era exactamente idêntica...
...Úrsula descia as escadas e ele estava em baixo. Tirara o chapéu para a cumprimentar, não queria fazer mais nada, mas então segurou-a pelo pulso, como se pudesse também suspender o movimento e agarrar o tempo naquele instante. Úrsula tirou ligeiramente a mão do corrimão, mas não sacudiu os seus dedos, não o afastou, sorrira de novo, porque o aceitava, porque o aceitava...
...Tem de tomar estes remédios: a médica estendera-lhe a folha de receitas. E não se pode enganar. Qual é o seu número de utente? O velho abotoava o casaco e apertava o cinto das calças. Lembrou-se de uma das perguntas que pleneara fazer: E vai passar a dor? Sim, num instante, vai passar a dor!...
...O quarto era pequeno, como aquele gabinete de consultório. Úrsula ficara de costas, virada para a janela minúscula, o vestido branco com flores pintadas, talvez pensasse na pneumonia que a ia matar quatro meses depois. Será que me amas? perguntou, a falar para a vidraça. E ele mentiu, que sim, que sim, aproximando-se devagar, até lhe tocar muito ligeiramente no ombro, para a segurar, para que não fugisse dos seus sonhos, com a sua pele lisa, o cabelo castanho escuro e o sorriso delicado...
...Quando tomar os remédios, tem de seguir estas instruções, disse a médica, não se pode enganar. O velho percebera que a consulta terminava. Levantou-se, sem saber bem o que fazer a seguir, se havia ainda alguma coisa a esclarecer. Lembrou-se de repente e perguntou se ia ficar melhor. Que sim, que sim, mentiu a médica, empurrando-o suavemente para fora do consultório.

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10.4.06

Trinta segundos

E ele a dar-lhe... Só então, distraído que estava com os portentos daquela deusa, ouvi finalmente o que Francisco me repetia. “O Anselmo morreu!”. Foi nesse instante que compreendi a informação, com a sensação absurda da notícia se enterrar no meu cérebro como se pesasse uma tonelada.
O Francisco dizia-me aquilo numa altura imprópria. Nos trinta segundos anteriores, enquanto ele se sentava na cadeira em frente, no meio da barafunda do café na alameda do centro comercial, eu distraíra-me a observar uma rapariga: ela tinha um decote fabuloso que revelava o busto perfeito; vestia shorts, as pernas eram esplendorosas, uma dela pendurada sobre a outra, o pé envolvido por um ténis branco a oscilar no vazio, em embalo tranquilo, como se estivesse a ouvir música. O cabelo negro escorria-lhe sobre os ombros nus. Por vezes, passeava o olhar pelo espaço em volta, talvez à espera de alguém. E eu pensei assim, com clareza sibilina: que não tenha um namorado, que não tenha um amante...
E, nesse instante, o Francisco sentou-se na cadeira vazia, na minha mesa, de costas para a rapariga. E disse: “Já sabes?”
Eu devo ter feito que sim com a cabeça, o meu olhar vigiava a gazela; O Francisco ficou pensativo, calado, parecia um filósofo. Pediu um sumo ao empregado e isso ouvi vagamente, por entre o ruído de fundo dos clientes do shopping, que faziam as compras de páscoa.
Depois, ouve uma espécie de turbilhão de acções simultâneas, ou assim pareciam na minha consciência. Um homem passou atrás de mim e gritou qualquer coisa em espanhol, falava para uma mulher gorda que vinha atrás e que resmungou em resposta; mas tinham falado tão alto que me virei por instinto; ainda fazia os cálculos sobre o que acontecera, vagueei de novo pela savana (um tipo alto parecia uma girafa e outro estava pendurado como um gorila); e reencontrei a gatinha, que pegara num livro de bolso e fingia estar atenta à leitura; nisto, juro, ela olhou para mim. Foi um contacto visual directo; devo ter sorrido, pois imagino que ela me sorriu também: O decote enlouquecia-me e a perfeição das pernas...
“O Anselmo, coitado, foi fulminante”, disse então o Francisco. E isto ouvi distintamente.
“O que se passa com o Anselmo?”
“Morreu! O Anselmo morreu!” E aquilo precipitou-se de repente na minha consciência, no exacto instante em que a rapariga em frente movia o cabelo para o lado com a ponta dos dedos da mão esquerda, num gesto próximo do perfeito.
Parecia que me caíra o mundo em cima. O Anselmo era o meu melhor amigo e davam-me aquela notícia no mesmo momento em que me apaixonava:
“Ataque cardíaco fulminante”, explicou o Francisco.
Tinham passado trinta segundos desde que o Francisco se sentara. Enquanto eu meditava no que ele dissera, a deusa guardou o livro de bolso e colocou a mala de senhora ao ombro. Depois, ergueu-se, ligeiramente inclinada, e o peito dela descaía também ligeiramente, mostrando-se na sua glória. Sorriu para mim e avançou por entre a multidão, talvez à espera que a seguisse, sem imaginar porventura que eu já só pensava na morte do meu melhor amigo.

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20.2.06

Na praia

Os calhaus na praia pareciam pérolas, pois brilhavam ao sol, ainda molhados pelo estender da maré. Helena olhou para o horizonte e viu uma fracção do bote, a lutar no meio das ondas, entre cristas mais altas do que a minúscula quilha, as frágeis figuras dos três homens mais parecidas com bonecos, daqueles que decoram a montra das lojas e que não têm movimento, apenas aparência de vida.
Foi ao pensar que o barco se virara, porque desaparecera na cova da ondulação cinzenta, que Helena pensou, numa voz interior que lhe gritava, e com o coração parado, que António era um estorvo na sua vida.
Chegavam as mulheres à praia e ouviam-se gritos, no meio da maresia dura. O barco flutuava ainda, mas em perigo imenso; reaparecera erguido pela água, a não mais de cem metros da rebentação, numa dança com o ar; era como se os pescadores fossem artistas do circo, em equilíbrio incerto, suspenso num fio alto; de braços abertos, como que crucificados no nada.
Agora, o sol escondera-se. O rugido do mar juntava-se em coro ao ruído da tempestade e o vento arrastava o barco para fora. Os três homens pareciam perdidos. Tinham ficado mais pequenos e a gritaria na praia aumentara. Helena pensou em António, que deveria lutar ainda. A fúria dele devia ser quase igual ao terror daquele mar e os braços grossos que tantas vezes usara para lhe bater tinham a força das ondas. O pensamento regressou, como se fosse arrastado pelo refluxo do tremendo oceano: António era um bruto, ela nunca o amara, que se afundasse então.
No bote, em desespero, alguém se lançou à água. Os outros náufragos imitaram o gesto. E Helena viu que o primeiro que se lançara era o seu António, que decidira enfrentar de caras a morte e tentar tudo, até ao fim. Os braços dele pareciam remos a romper a água, persistentes e regulares.
Um dia, embriagado, ele batera-lhe de tal maneira que as velhas da aldeia a tinham tirado de casa. Ficara sob a protecção dos tios durante uma semana, até que António, pressionado por toda a gente, reaparecera, submisso, a pedir desculpa, a implorar-lhe que voltasse. O que ela fizera, por não ter alternativa. E as velhas, iludidas, diziam que a partir daí estaria segura, que o marido aprendera a lição.
A água enfurecera-se, sob o impulso de grossas nuvens e rajadas de vento. Então, os gritos na praia cresceram, quando um dos homens desapareceu na água, uma boca ainda a pedir socorro. Depois, foi o segundo homem a perder o duelo.
Restara António, que cobrira um terço da distância, que poderia ser salvo se avançasse ainda quarenta metros. Os seus braços martelavam as ondas como se fossem nada, a cabeça emergia num compasso, com a regularidade das marchas que a banda da vila tocava. E, no meio da gritaria, Helena rezou, que se afogue, senhor, que se afogue, pois que só a sua morte me liberta.
Foi então que o ritmo das braçadas diminuiu, até se tornar um desconchavo caótico de um braço após o outro. A corrente arrastara o pescador vinte metros para o largo e o cansaço tomou conta do resto. Houve ainda uma mão que tentou respirar, fechando-se sobre o ar, como se o agarrasse. E o corpo afundou-se.
Foi no meio de terríveis gritos que Helena percebeu a prece que fizera. E uma horrível culpa, mais opressiva que o medo, mais forte que o mar e mais destruidora que o ódio, tomou conta dela, numa prisão perpétua.

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