31.1.06

Um terramoto um dilúvio um desastre de avião.


Sabe bem estar contigo quando dormes, quando



falas,


nascem bebés entre as palavras.


Depois crescem,


como a esperança que me davas.

30.1.06

Comemorando finalmente o aniversário de W.A.M.

Nesse dia, o senhor Jorge saiu de detrás do balcão, abriu a lata de Cergal em andamento e vociferou-me:


- Cá para mim, esse Amadeu precisava era de uma mulher como deve de ser. Assim com’á minha!


- Qual Amadeu, senhor Jorge?


Fiz-lhe a pergunta sem levantar os olhos do Su Doku quádruplo que me levara, enraivecido, a pontapear a Shakira debaixo da mesa, aos saltos com o seu lacinho rosa barbie no pescocinho de poodle.


- O Amadeu Mozart! Ora quem!?


E com isto, deu por terminado o assunto e virou-me as costas, em sincronia com um arroto olímpico em posição de mariposa. Desisti de entender. Não filosofo em leitarias. Nisso, sou muito diferente do Fernando Pessoa, benza-me Deus.

Enganosa é a noite das portas anunciadas,


das portas fáceis abertas


para o mais fundo lugar.



Todos transpomos o limiar da esperança.


Só alguns regressam,


retomam a primitiva dança.

29.1.06

O hóspede

Eu estava a conversar com um jornalista (penso que era português) quando se aproximou de nós aquela personagem (chamo-lhe assim porque já não sei até que ponto ele faz parte da minha memória inventada). Era moreno e afável, vestido à ocidental, de espessa barba preta. Curiosamente, muito parecido com o meu colega (eles tinham outra semelhança, falavam os dois bem inglês).


“Chamo-me Doutor Aziz”, disse o intruso, insistindo naquele doutor, como se fizesse parte do nome.


Conversámos de forma intermitente ao longo dessa noite. Circulávamos pela festa e, por vezes, reencontrávamo-nos e trocávamos umas palavras.


Existir a festa era já por si uma estranheza. Organizada por um dos homens mais ricos de Islamabad, obrigara a certa logística reunir naquela casa luxuosa tantos correspondentes e repórteres, todos atraídos nessa semana ao Paquistão pela iminência de um conflito no país vizinho.


“Sabe, meu caro Rick, quando for para o interior deste país e alguém lhe disser ‘É meu hóspede’ não terá mais nada a recear”. O doutor Aziz tinha um copo de sumo na mão e, ao dizer-me aquilo, ficou algum de tempo à espera, a olhar para mim.


“Se alguém lhe disser isso em Nova Iorque”, respondi, “veja se ainda tem a sua carteira”. Quis fazer humor. O doutor Aziz riu-se com educação, mas pressenti que ficara desiludido comigo.


Circulámos mais um pouco. Meia hora depois reencontrei-o a conversar com colegas de outros jornais. Um deles dissera que os fundamentalistas iam tomar conta do Paquistão (julgo que foi provocação, para motivar uma resposta, mas era um sítio bizarro para fazer tal afirmação). E o doutor Aziz, com tranquilidade, lá explicava que não era assim, que isso não ia acontecer:


“Julgam que somos monstros?”, perguntou ele, no meio da discussão, mas sem perder a sorridente paciência.


E, quando nos despedimos, segurou-me muito a mão e disse:


“Seja bem-vindo ao meu país. Você, Rick, é meu hóspede”.


Esqueci a simpática despedida. Esqueci a festa, que não era mais do que uma agradável distracção no meu trabalho.


Três dias depois, o meu jornal mandou-me fazer uma reportagem sobre uma manifestação antiocidental. Estavam milhares de populares e o desfile durou horas. A princípio, aquilo não me pareceu mais intenso do que ver compatriotas meus a saírem de um jogo de basebol. Mas, às tantas, quando se gritavam palavras de ordem mais acesas, porque estava um calor terrível, houve como que um tumulto, a multidão perdera as estribeiras, ganhara autonomia, força própria, como um rio fora das margens. Corria-se em múltiplas direcções e as massas humanas chocavam entre si. Comecei a ver caras contorcidas de raiva e a ouvir gritos incendiados.


Até que um homem me puxou para dentro de uma porta, salvando-me da turba. Foi tudo confuso e rápido. Saí da luz para a penumbra. Ele vestia a longa shawaz branca, como todos os outros, colete elegante. Tinha barba negra, espessa e, quando o observei melhor, reconheci o doutor Aziz.


“Que está aqui a fazer, Aziz?” perguntei, sem esconder a minha surpresa.


“Não me chamo Aziz”, disse o desconhecido.


Observei-o de mais perto e cada vez mais me parecia o homem que eu conhecera na festa:


“Mas é você...”


“Claro que sou eu”, riu-se o desconhecido. “Mas chamo-me Daoud”.


E, no entanto, era igual ao outro. Quando a manifestação acalmou, despedimo-nos:
“Você é meu hóspede”, disse ele. E não o vi mais.


Nem sequer posso afirmar que isto seja uma história. A tarefa de um repórter é a de dar sentido ao mundo que observa. Mas se o mundo tem sentido e a história direcção, então a minha tarefa deveria ser a de encontrar aqui uma determinada ordem. Mas, embora os tenha visto, nem sei se Aziz e Daoud existem mesmo ou se são aquilo que pareciam, pois o mundo não passa de um vasto conjunto de factos, cuja essência e verdade nos escapam a cada momento.


Hoje não há silêncio, sombra ou medo


nem sussurros de amantes em segredo.


Hoje regressas e recordo só a estrada,


vestindo de vermelho a pele dourada.



Podem cair em tom de aviso flores lilazes.


Mas o jardim, as raparigas, os rapazes,


acordam na dobra desse dia


a esperança indestrutível da alegria.



Não sei, em verdade, como despes


a memória respirando quando as noites...


Mas sei de nós, os dois surpreendidos


por haver tanto ainda para dar.



Apenas nós entre a Alma e os sentidos.


E o Amor antes da hora de acabar.

28.1.06

Algumas garças, uma única cegonha,

a luz das árvores, a raiz do vento.

Possa aprender o sinal dos pássaros

e dos rios, respirar enfim

tudo o que finge mudar de lugar.


Sentir de novo a ausência de pensar.

27.1.06

O quê, como e quando

Ele foi esperá-la ao terminal do autocarro, vindo de longe. Não a via há mais de dois meses e tinham ficado sem resposta todas as sofridas cartas que enviara. Sentou-se num banco de jardim no Campo Grande olhando os barquinhos, a fazer tempo fumando um cigarro e a pensar no que diria, como o diria, quando o diria...


Assim que ela chegou, esqueceu todos os critérios de oportunidade e a frase saiu-lhe de rompante: «Apaixonei-me. Não soube viver assim, com a distância e o silêncio». Ela olhou para ele e sorriu. Ficou perplexo ao senti-la tão genuinamente divertida. «Claro que sim», respondeu ela. E depois: «Anda comigo». Com a delicadeza de quem orienta um sonâmbulo, levou-o pela mão até à primeira pensão que encontraram e as horas que se seguiram nunca ele as conseguiu contar. Ao sairem finalmente para a rua, muito abraçados, ele ia a pensar outra vez o que diria, e como o diria. O quando, esse, podia esperar.

26.1.06

A melodia de Bach

Budiaguin observou as bétulas e as faias que o rodeavam. Distraiu-se com a luminosidade doce que vinha da orla da floresta, e que dava às folhas finas das gramíneas a textura cintilante das superfícies aquáticas. Crescia uma ligeira brisa e, sem perceber porquê, o capitão lembrou-se de Pavlik. A sua memória concentrara-se nos botões dourados do uniforme do amigo, o sorriso, a voz amarga, que falava de qualquer coisa. Tinham os dois caminhado pela trincheira baixa, nem dobravam o tronco nos pontos menos protegidos dos atiradores austríacos. Então, pararam num local e ficaram frente a frente, na conversa, alheados da guerra. Pavlik começara a falar da mulher que amava. Era fim de tarde, com crepúsculo lento, igual ao de outros dias. De súbito, a cabeça de Pavlik estalara e Budiaguin compreendeu de imediato o que acontecera: o atirador furtivo tinha dois alvos, oficiais russos numa trincheira baixa e escolhera um deles, ao acaso.


O capitão Budiaguin desabotoou o dólman. A orla da floresta era como que uma porta aberta trespassada por luz. Tentou recordar o que dizia Pavlik, naquele último momento, mas não conseguiu recordar-se. Tinham passado apenas três anos e nem se lembrava das feições exactas do amigo.


Que música tocara Ivan Mikháilovitch Kútcherov naquele memorável dia do primeiro combate, em 1914? Decidiu que fora a versão em piano de uma canção de Bach. Trauteou a melodia, enquanto pegava numas amoras siberianas, bagas cor-de-rosa, intenso cheiro doce. O regimento ocupara uma quinta e descobriram um piano no salão. Foi um pouco antes do contra-ataque dos alemães. O tenente Kútcherov sentara-se ao piano. Agora, parecia-lhe um absurdo, coisa de romance. A música parecia atrair o tiro do inimigo. Os alemães disparavam como loucos na direcção do salão. Então, os dedos de Kútcherov falharam as teclas. Houve uma catastrófica cacofonia e, depois, um peso enorme que se abatia sobre o teclado, produzindo um profundo som, que se arrastou numa eternidade.


A floresta cantava uma melodia de Bach, pensou Budiaguin. O vento agitava as folhas, os arreios dos cavalos, a respiração dos soldados. Fascinado pela luz que brotava da orla da floresta, Budiaguin avançou um metro, depois outro. As suas botas esmagavam as ervas altas, mas era como se pisasse o chão de um salão de baile, enquanto tentava recordar esses rumores do passado, o arrastar dos vestidos, o riso furtivo, a melodia de uma voz....


...O guarda vermelho Grichka Kuzmich não acreditou no que via: um oficial saíra da linha dos brancos, para fora da floresta e dava pequenos passos sobre a erva alta. Kuzmich não viu um homem a cem metros da sua trincheira, mas um ser indefinido. Por isso, apontou a arma à resplandecente farda e, como lhe tinham ensinado, susteve a respiração e pressionou, muito devagar, o gatilho da espingarda.

25.1.06

Descobri o lugar que te pertence,


essa pequena dobra, ampulheta de luz.



Não tem ainda um som


e talvez não viva para saber dizê-lo.


Mas, em cada manhã,


desperta-me a vontade de merecê-lo.

24.1.06

Começar

Um dia, que amanheceu dourado numa Primavera que nunca esqueci, o ar trouxe-me uma fragrância desconhecida que se sobrepunha ao aroma dos rebentos nos campos e tornava estéreis os risos plenos de promessas das raparigas. Olhei para Oeste, na direcção para onde se projectava a minha sombra. E vi como ela se afastava já de mim, antecipando-se-me no início do caminho.

Então, eu que coisa alguma conseguia fazer sorrir e que permanecia impávido, tratando como néscios os espirituosos e os bobos, comecei a rir descontroladamente e, pleno de euforia, abri os braços como quem se prepara para voar soltando a plenos pulmões um grito primordial de libertação e certeza. Depois, dei o primeiro passo.

O Carregado

“Quem é aquela figura extraordinária?” perguntei ao meu primo.


“É o incendiário”, disse ele.


O homem não tinha mais de 30 anos, era alto, cabelo desgrenhado, ar de desmazelo. Entrara no café da aldeia (que também servia como mercearia) e ficara pelo menos cinco minutos parado à frente do balcão, antes que o dono do café se dignasse olhar para ele. O proprietário perguntou ao intruso o que queria, mas fê-lo com um desprezo que despertou a minha atenção de turista.


Nas duas semanas que eu passara em Vila Fria, para visitar o meu primo Manuel, jamais vira aquele homem bizarro, que não deixara de mostrar uma quase arrogância na maneira como ignorara o desprezo do outro. Por isso, fiz a pergunta. Aquilo tirava-me da rotina da aldeia antiga, quase despovoada, confusamente pendurada numa colina abrupta.


Só quando o estranho saiu do café o meu primo contou a sua história. Tinha por alcunha “O Carregado” e fora surpreendido em flagrante a largar um incêndio que quase destruíra Vila Fria. “Esteve dois anos preso e voltou há três meses. Vive numa casa fora da aldeia e ninguém fala com ele”.


Estava esclarecido e quase esqueci o incidente. Passei mais cinco dias de férias naquele paraíso. Era Primavera, havia água nas ribeiras, o calor começava a tomar conta da serra. Um dia, ao fim da tarde, fui dar um passeio junto de uma pequena represa a jusante da aldeia. Acho que me perdi, no meio daquela paisagem onde parece que as pessoas deixaram de existir, apenas ficando as ruínas do seu rasto. E, então, de súbito, no meio de nenhures, vi o Carregado, o homem com quem ninguém falava, a ocupar a vereda onde eu seguia. Era assustador, com aquele cabelo desgrenhado, a ameaça no olhar, que cintilava com desdém. Olhei em volta, a ver se via alguma alma que me pudesse ajudar. Mas não havia ninguém. Tinha de passar por ele e foi o que fiz, a rezar que nem um cristão. Ficámos à distância de um metro um do outro. Ele podia matar-me num só gesto. Olhou-me com ódio, à espera que eu passasse. E eu desviei os olhos dele. Cruzámo-nos sem uma palavra.


Depois, esqueci o que acontecera. Passou outra semana. Até ao dia em que me ia embora. Estava a almoçar em casa do meu primo, seguia para Lisboa logo a seguir à refeição. Então, ouviu-se um alarido. “O Carregado matou-se”, dizia uma mulher, lá fora. E vimos da janela, ao fundo da rua, dois homens que vinham a subir para a aldeia, carregando um corpo inerte, um homem desgrenhado e de pescoço partido, que mais parecia um saco.

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23.1.06

O DIA DO JUÍZO

Quem é que inventou a segunda-feira? Javé ou o Professor Pardal? Júpiter ou o Dr. Strangelove? Zoroastro ou Kafka? A segunda-feira é singela e pura para aqueles que não picam cartão de ponto, aqueles que não passam cartão aos horários, aqueles que vegetam herbivoramente nos cartões das ruas e que não acenam com cartões de visita. Para os outros, muitas vezes a segunda é a primeira filha da mãe na face da Terra, é o Day After, o Doomsday. Pior ainda, a ontologia flatulenta da segunda-feira é retrospectiva - infecta por vezes o próprio Domingo, poluindo-o com bocejos de boca fechada, tédios ramelentos e ócios desenxabidos.
Para Simão o domingo foi inesquecível, devido a eleição do novo Presidente da República. Simão ficou radiante, porque assim na segunda-feira já tinha um Chefe-de-Estado novinho em folha para matar (este é o seu hobby, depois de uma fase filatélica e doutra colombófila - Simão mata o tempo enterrando Estadistas).
Hoje, segunda, Simão mandou o novo Presidente da República (ainda em fila indiana para reentrar na História com o pé direito e o resto também) desta para a melhor.
Um único senão: foi demasiado fácil, como tirar o doce a uma criança (coisa, aliás, bastante árdua, mais difícil que os 12 trabalhos de Hércules, como sabe qualquer pai de qualquer criança que tenha agarrado um doce com as suas manápulazinhas).
A arma escolhida foi o riso. Simão aproximou-se de Cavaco como quem não quer a coisa e contou-lhe uma anetoda impagável, impublicável e ilegível. O presidente eleito fez uma carranca, depois um esgar espasmódico e estilhaçou-se como um copo que cai, como um corpo que cai. Mas não deixou um cadáver para as cerimónias fúnebres: apenas granizo.
Uma segunda de primeira.

21.1.06

Anjos sem desejo

Germano sabia que aquele seria o último encontro com Adelaide e o seu estado de espírito era o de avaliar os próximos momentos como se encontrasse um anjo, que lhe iria comunicar uma decisão transcendente.


A escola era uma velha casa, com muro baixo a separar o recreio da praça da aldeia, três janelas viradas para o curso do sol, uma nespereira, o campo lavrado atrás de outro muro, descendo a encosta.


Entrou na sala, ela estava ao quadro negro, a ensinar álgebra. Não interrompeu a aula e, passado algum tempo, Germano sentou-se ao fundo, como se fosse um dos alunos. Observou o mobiliário pobre, os tampos inclinados das carteiras alinhadas, a imagem severa do chefe de Estado, o crucifixo e o bolor acumulado nos cantos das paredes. Então, Adelaide mandou as crianças para o recreio, esperou pela acalmia do rumor alegre da debandada e veio sentar-se ao lado dele, como se fossem os dois companheiros de carteira.


“Já sei que eles recusaram”, disse Germano, “mas isso não muda nada”.


Tinham mandado o requerimento para poderem casar. Viera indeferido. Dizia a autoridade, com subtileza, que uma professora primária não podia desposar um cavador analfabeto.


“Deixas de ser professora, vamos para o Brasil”. Germano reflectia em voz alta: “Ou melhor, vivemos juntos”.


Ela sorriu: “Não é possível, amor”.


Depois, ficaram calados dez minutos. Ele absorveu cada momento desta serenidade imensa que os rodeava, o riso das crianças que nunca teriam juntos, as vidas que seguiriam a partir dali rumos diferentes. Nas nuvens sem desejo, para sempre parados no tempo. Depois, Germano acariciou-a levemente na mão, levantou-se e saiu para a luminosidade da manhã.

Deitei fora um casaco velho, esqueci um número


de telefone, quase consegui deixar de fumar.


Tudo por amor.



Antes de ti era o Verbo


e o Verbo fez-se fome,


tantas letras quantas gralhas no teu nome.

20.1.06

Faróis de sal desviam para longe


o perigoso aroma das amêndoas.



Eis-te perto desse amor que chove.


Com os pés na areia fria,


na pele as mãos tão quentes


e a boca no formigueiro de outros dentes.

18.1.06

O primeiro beijo

Um dia estava grávido de sol e desatei a correr. Corria, corria e toda a força provinha daquele primeiro beijo. Poderia chamar-lhe casto, livre porque ignorante de tudo o que viria depois.

Dias como os de agora, a passos lentos. A pureza do beijo liquefeita no gesto treinado que segue a língua, o sexo hirto pela expectativa sabedora do desejo e, afinal, tudo isso menos.

Menos do que um beijo, dado e recebido com pudor semi-clandestino por detrás da paragem do autocarro. Esse beijo nunca imitado, ressentido ou classificado. As minhas mãos paradas, hoje sábias. O meu sexo inerte. O corpo desnecessário perante o espírito que se abria e empurrava, rua abaixo correndo, aquele que fui eu.

These blues were made for walking

These are my walking shoes
Bought them when I got the blues
They are not made to run
But to walk and have a little fun
These are my walking shoes
Got them when I heard the news
You were gone and I was feeling sad
Now I wear them and I'm kind of glad
These are my walking shoes
Just one of many other clues
That I've changed since I'm alone
And happily walk now that you're gone
These are my walking shoes
Better than the best of glues
Each time I lose serenity
They walk me back to reality
They are the best friends to meet
These walking shoes I wear on my feet

17.1.06

Não te percas entre os clamores do dia.


Apenas um sopro te separa da última viagem,


aquela que acordada farás lembrando


as vezes que esperaste em lugar de partir.



Todos o somos, na vertigem que seduz:


Pirilampos diluídos no início da luz.

16.1.06

Desencanto

Poisa o copo no tampo da mesa. Desvia o olhar de mim, tentando fixar objectos estranhos, no exterior: “Quando é que eu senti que já não o amava?” Helena faz uma pausa para ganhar fôlego, “o momento foi banal, Joana!”


Faço que sim com a cabeça, como se soubesse.


“Foi por causa de alguma coisa fútil que ele disse, com ar de grande importância. E percebi, num único instante, o que nunca tinha visto nele, o que sempre me escondera ou que eu não quisera ver”. Helena suspende o relato. Coloca os óculos escuros, embora a luz do restaurante não a possa perturbar. Só depois prossegue: “O David não me foi infiel num aspecto físico, mas traiu a imagem idealizada que eu tinha dele”.


Helena divaga. Quero contestar o que diz: a maneira como vemos os outros não depende só dos outros. Mas não a interrompo.


“O David apropriou-se de uma banalidade que eu tinha dito. Nessa manhã, comentei uma notícia do jornal e, horas depois, fomos visitar uns amigos e ele quis brilhar na conversa e vomitou o mesmo exacto comentário que eu fizera. Percebi então que ele não se apropriara apenas do meu comentário, mas de mim; eu era a sua propriedade, o seu terreno fértil...”


O empregado interrompe-a, ao trazer o último bolo. Helena parece um bocado ridícula com os óculos. Pede a conta. A confidência terminou. Estamos no exterior do café. Passeamos pelo jardim. Não me contenho e digo:


“Na realidade, o amor é uma coisa que nos foge lentamente. Pensas que foi nesse momento, mas tinha sido antes”. Helena parece estranha, mas continuo. “Imagina que pomos as mãos em concha e deitamos água. Ela vai escapando entre os dedos. Às tantas, parece que irrompe tudo de uma vez, mas o processo começou logo no início”.


Passeamos em silêncio. Acompanho-a até à estação. Quando se despede de mim, com um beijo rápido, Helena está furiosa comigo. Só mais tarde percebo que transformei a sua confortável ilusão de que a culpa era de David num banal desencanto mútuo, que é uma degradação igual à doença ou ao envelhecimento.

15.1.06

Há muito tempo não escrevo cartas,

julgo mesmo que nunca o fiz.

Um postal já um grito de aflição.


Querida,

se estás longe por que adormecem

as palavras na minha mão?

13.1.06

Uma palavra forte

A vila não tinha distracções, para além das noites frias nas margens do lago artificial. A câmara urbanizara aquilo, arrasando o excesso de arvoredo. E faziam festas, às vezes bailes para o povo ou tocava a banda. Um dia, até veio uma orquestra erudita. A música tinha pinta, mas às tantas voaram partituras ao vento e o maestro apanhou com uma caganita de pássaro. Juro, não é invenção, o concerto era ao ar livre e parecia que tinha caído uma daquelas bombas inteligentes da aviação americana, em cheio no fraque; o pessoal riu até não poder mais, nem os músicos conseguiam impedir um riso que desatinava os violinos e estrangulava os sopros. É o que lembro desse fim da Primavera. Estávamos a acabar o liceu e havia aquele pequeno grupo, eu, a Elisa e o Francisco, só nós os três; a minha avó dizia que eu parecia um bicho do mato. E respondia-lhe que era impossível evitar ser diferente quando os outros já o tinham decidido assim. Podia ficar aqui meia hora a falar da minha amizade com a Elisa e o Francisco. Uma noite, ficámos horas e horas a olhar as estrelas, junto ao lago. Não estava ali mais ninguém e conversámos até ao amanhecer. Depois, veio o Verão. Tínhamos acabado o liceu e fomos cada um para seu lado: a Elisa para Coimbra, estudar; o Francisco ficou a trabalhar com o pai; e eu saí da vila e, embora não soubesse para onde ia, acabei por emigrar para a Suíça. A minha avó já morreu, não me resta ninguém; passaram seis anos e nunca voltei. E, se me perguntam o que sinto, saudades é uma palavra forte.

Perto ou longe, tanto faz

Anulação é esta viagem de regresso. O percurso inverso da tua fuga. Chegas, partiste, poucos deram pela tua ausência. Estás nervoso por voltar, João, tens fumado muito também para não teres fome. Ou ainda, talvez seja o início que te enerva. Não o regresso mas um princípio. Para que voltas tu afinal?


Agora, entre os que em toda a carruagem adormecem, entre línguas cruzadas, nada recordas. Corres para qualquer sólido, chão para os teus pés com o formigueiro das viagens e quilómetros marcados a preto na camisa.


Eu, no entanto, reconheço esta paragem. Santarém. As Portas do Sol, o silêncio quase nosso e das putas das criancinhas, um cisne negro na água morna. São as palavras de que me lembro desse primeiro dia. Sabe bem estar contigo, dizias. E rias-te, com a sombra das folhas nos teus olhos.

(...)

Este café já é Lisboa. Onde o genético cheiro a fritos deveria anular a tua habitual dificuldade de transição. A mudança de um lugar para outro durante a qual não estás em lugar algum. Uma viagem de tantos dias que te abandona na irrealidade de um qualquer ponto, concreto e imóvel. Quando a paisagem deixa de ser efémera e o Tempo te retoma. E no entanto, aqui mesmo onde chegas oferecem-te a tentação de outras janelas...barcos, autocarros, táxis, outros comboios para outras direcções. Seria tão fácil recomeçar, continuar sempre.


Em Santa Apolónia, dois homens de fato-macaco caminham inclinados como nos navios. Recebem-te falando. Não sobre o mar, mas sobre o teu antigo deserto. De João, prestes a regressar da Índia, da antiga Etiópia com os seus camelos, os navios do deserto. Os comboios.


Sempre. Nunca te disse? Sempre me fascinaram os comboios. Vento, fluída cartilagem de desejo, a dança magnética das linhas. Foi aqui, há muito tempo, que alguém nos viu trocar lembranças sob o ruído protector de tantas vozes. Quem nos viu confessou-me ainda: «Parecias mais velha e nem reconheci os exaustos gestos que fazias. Quem era ele?». Foi assim que me despedi. Quem eras tu. E como foi inútil perguntá-lo.

12.1.06

À espera, com ciúmes

Sinto-me como um homem que um dia vi a empurrar uma carroça repleta no meio do trânsito. O fardo sufocava-o, mas o peso era tão excessivo que ele parecia indiferente ao vendaval de carros à volta, desfeita a sua noção de sentido que apenas a estrada lhe impunha.
Estou sentado e o silêncio oprime. O apartamento está vazio, a mobília sem uso, as paredes sem nexo. A luz que entra pela janela é angustiante e o mesmo digo da cortina, que a aragem faz ondular com suavidade. Estou aqui à espera dela e o tempo passa a diferentes ritmos, às vezes mais depressa, por vezes com uma lentidão feroz. Fiz bem em esconder o relógio na gaveta: o passar dos segundos ouvia-se como se fosse um martelo a bater no meu crânio.
Ela não virá. Faz parte do seu jogo obscuro, do engano e da cortina que me lança aos olhos, a ilusória doçura branca a ondular na brisa. Engana-me há quanto tempo? Talvez desde que me conhece. Sempre foi uma falsa sonsa! E quem será o homem com que engana? O pior de tudo é não saber isso, embora não haja dúvida sobre a natureza da traição.
A falsidade dela é a sua máscara. Tem um disfarce de sorriso brando e duradoura mentira. Parecia-me um anjo, no início, quando me seduzia, mas era um feitiço, aquilo que me encantava.
E aqui estou, prisioneiro, numa espécie de eternidade. À espera, com ciúmes.
O som de passos. É ela. A chave na porta. Hesitação. Ela teme. E ao rodar a chave daquela forma, mais não faz do que confirmar a minha espera.

11.1.06

A 7ª onda

Dizem que é sempre a sétima onda, mas por vezes as contas falham e surpreende-nos saber tão pouco sobre quando virá, se alguma vez, essa manhã. A mesma inocente manhã transportada pelos pássaros para além da infância e com eles o puro ar, o espanto verdadeiro de existir.


Dizem que é sempre uma música antiga, o odor do pão fresco, da lenha ou da relva molhada. Que, desse modo, a memória nos regressa a um lugar antigo quando tudo parece perto de terminar, para que afinal recomece.


Aí mesmo, pelo caminho do coração em direcção ao idílico jardim onde a alma procura, procura sempre, alguém ou algo que não estranhe nunca. Um confirmado abraço, sentido na pele como a mais protegida fruta, a fértil certeza do tacto, a reencontrada porta para dentro e acima de tudo.


Quero dizer-te: Agora escrevo com dificuldade incerta e lúcida, mas nas tuas mãos abro janelas para esse mesmo lugar, breve olhar ou fulgurante beijo me iluminam e em ti, em ti regressa sempre essa sétima onda. A mais forte, aquela que nos arrebata e comove de tão viva...De tão inesperadamente viva.

10.1.06

A pirâmide Maia

A cidade de Izamal transpirava ao calor exagerado da Primavera. As luzes dos passeios iluminavam a invisível fronteira entre dia e noite. Casas de dois andares, muros, janelas, grades e olhares laterais. Ruas estranhas, passos solitários e sombras nas esquinas. Na praça principal, dançava-se. Iluminação artificial, o som dos risos e música, o cheiro das especiarias. E a multidão cantava. Saltou para uma caleche. “Uma volta completa”, pediu, no seu castelhano hesitante. O condutor encolheu os ombros, distraído com a festa. Esperara um par de namorados, saíra-lhe aquele jovem americano magro. O tristonho cavalo levou-os pelas ruas povoadas de sombras. Entraram pela alameda das pirâmides, iluminada pela lua cheia. Havia um fio de asfalto e, de cada lado, os dois montes artificiais, dominadores.


O americano pareceu excitado, contaria depois o condutor da caleche. Quando o polícia insistiu em perguntar-lhe por que razão o desaparecido saltara o muro, o homem encolheu os ombros. Que estúpido azar, pensou, ser suspeito porque não fora um par de namorados, mas aquele rapaz louro e nervoso a subir para o seu transporte.
O americano disse: “Podes parar aqui”. Estavam no meio da estrada e havia um silêncio bizarro. A luz da lua era tão intensa que parecia vir dela o calor que os envolvia. Tudo tinha a cor da prata ou o negrume de um poço. Foi então que o americano saltou da caleche. O condutor achou que ele ia urinar e ficou incomodado. Estará bêbado, perguntou-se. Mas o rapaz limitou-se a saltar o muro e a entrar na cortina de breu, na direcção da pirâmide maia.


“Ainda lhe disse que não podia ser, mas não me ouviu”. O polícia olhava-o desconfiado e o homem tentou ser mais preciso: “Ele não me tinha pago e eu estava muito zangado quando voltei à cidade, meia hora mais tarde”.


A luz baça anulara todas as cores e o americano começou a escalar a pirâmide, num impulso que não compreendia, correndo o risco de se agarrar mal ou de provocar um desmoronamento ou de ser engolido por algum buraco que não poderia ver. Lentamente, aproximou-se do cimo, por vezes a lamentar a loucura do capricho, mas cada vez mais próximo, o que o empurrava ainda mais. Então, de súbito, chegara ao topo. Sentiu-se como uma águia ou como um daqueles seres míticos, meio voadores, meio homens, que povoavam os sonhos dos construtores da pirâmide. Olhou para baixo e viu que a estrada estava vazia. As luzes da cidade brilhavam, distantes, e a noite envolvia-o tão completamente como uma inundação. Ficou ali meia hora. Foi ao descer que a pirâmide reclamou o seu corpo.

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Nostalgia

Quando a luz ao fim do dia atravessa os pinheiros,

quando a chuva repica no gargalo das garrafas,

quando chegas.

Então sim, e só então, recordo Deus.


Esses beijos que lamentas

são os meus.

9.1.06

Vida nova

Esta é a história. Contada a partir de quando os dias, para ela, deixaram de ser um só Tempo de Passado, Presente e Futuro e começaram a surgir apenas um de cada vez. Este passo talvez seguido de outro, se tivesse cuidado e alguma sorte.

Quer isto dizer que ela nem sempre podia saber o que ia acontecer-lhe a seguir. Por vezes, acordava sabendo. Mas logo de seguida a memória da dor surgia entre os afazeres da manhã, no segundo de intervalo em que levava a chávena de chá aos lábios frios, ou noutro em que penteava as madeixas ainda molhadas.

Dava pois por si a viver imagens sonhadas logo ao pequeno almoço e, nessas imagens, ela era ela e também outra sem que tal distinção fizesse sentido. Ou antes, fazia todo o sentido ser mais do que uma, muitas e uma só em simultâneo. Agora fazia. Para si fazia. Porque ela deixara de ser como nós.

Um desses dias, em que já tinha acordado há muitas horas, um homem passou por ela e era idêntico a outro de um desses sonhos que se desvaneciam ou permaneciam, de acordo com os ritmos solares ou chuvosos do quotidiano, como escrevem os que não gostam de palavras bonitas. Era idêntico porque não era igual. Isto é, era e não era ele, o outro sonhado. Seja como tenha sido, esse homem olhou-a de uma forma acordada. Os olhos dele não subiram e desceram sequer o corpo dela, apenas se abriram, lançaram para dentro de si uma tristeza alegre - não há outra maneira para dizer isto ou se há não sei qual seja - uma tristeza vivida mas também de alguma forma se nunca esquecida pelo menos dominada, ou superada, por um brilho de alma nova, uma luz ganha com espada e esforço.

Foi então, nesse momento, em que ela desprevenida se deixou ver pelos olhos do homem que ao mesmo tempo era e não era o homem sonhado, que os dias deixaram de surgir para ela um de cada vez e passaram a ser o mesmo, sempre o mesmo dia, a mesma tarde antes do crepúsculo, o mesmo fato azul, embora os olhos que lhe sorriam fossem cor de avelã, ou mel, ou outra substância utilizada pelos poetas e os apaixonados. Um dia percorrido na procura desse homem que a olhara. Porque ela, quando isto aconteceu, sentiu mas não soube de imediato o que tinha acontecido. Por isso, virou a cara e atravessou a passadeira olhando apenas para os lados que lhe ensinaram em criança.

Só algum tempo depois parou e teve vontade de andar para trás. E andou mesmo, mas o homem não estava no lugar onde se tinham cruzado. E aí, começou a sua vida nova.

7.1.06

A traição

“Ele acha que você favorece algumas pessoas e que devia ser mais distante”, disse Brandes.


Conseguira, estava dito, não havia recuo. Primeiro, no meio do silêncio, tentou distrair-se com um pensamento inócuo, enquanto avaliava a maneira como lançara a farpa sobre Georg. O engenheiro Sombart estava a estudar a sua frase. Olhara-o com intensidade invulgar, talvez tentasse perceber se ele dissera a verdade. Mas o exame durou pouco. Sombart não precisava de muito para se convencer. Reclinou-se na cadeira, brincou nervosamente com o lápis que tinha na mão.


“O Georg sempre foi arrogante, não acha?”, disse o engenheiro.


Brandes sabia que, agora, precisava de ter ainda mais cuidado:


“Nunca tinha pensado nisso”, respondeu. “O Georg é meu amigo, talvez seja arrogante para outras pessoas”.


Depois ficaram os dois um bom pedaço de tempo em silêncio. Sombart ponderava na traição de Georg.


A mentira mais eficaz é aquela que se desvia apenas milímetros da verdade, pensou Brandes. Sorria mentalmente, mas a cara nada mostrou, além da frieza habitual. Uma onda de calor, de imensa perturbação íntima, atravessou cada fibra do seu corpo. Era quase sexual, a satisfação que sentia. E não mentira, não. Georg era seu amigo. Tinha conseguido o êxito que ele nunca conseguira e um salário mais alto. Fizera outra coisa (isso não lhe podia perdoar), sempre o considerara inferior, a quem se ajuda por quase caridade. A raiva dominou-o por um instante. Perdeu o controlo:


“Ele acha-se um pouco superior, é um facto”.


Sombart concordou, com um gesto melancólico. Decidira esmagar Georg. Iria humilhá-lo, talvez destruir a sua carreira. Brandes moveu ligeiramente um músculo em torno do lábio. Sorrira, mas o engenheiro não viu, ocupado com o lápis. Depois, Sombart fez um pequeno gesto com a mão. Brandes estava dispensado, saiu do gabinete. A partir daí, Georg teria problemas. E Brandes pensou, com alegria, que talvez o empurrasse na sua queda, ou melhor, muito melhor, talvez lhe desse a mão, com caridade.

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6.1.06

(Longa) Mensagem de Amor


Então chegaste, ó ainda desconhecida! Nem tempo tive para estender sob os teus passos os mais luxuosos dos tapetes. Ou acender pelo caminho lâmpadas de óleo, queimando essências de que só os antigos conhecem o segredo, para que os seus aromas incendeiem ou apaziguem os nossos desejos e tornem vivos os sonhos que nos alimentam.

Tivesse eu sabido da tua chegada e todos aqueles por quem passasses entoariam o teu nome num cântico de alegria, igual ao do lavrador que semeia e saúda a chegada do Sol. E onde parasses, fontes jorrariam para ti. Não a água da qual homens e animais bebem, mas uma outra tão cristalina e pura como o mel que colho nos teus olhos, ou o néctar que os teus lábios oferecem como a mais sumarenta fruta. Velas arderiam de múltiplas cores obscurecendo o dia e nunca se consumindo, como não pode consumir-se o amor que transborda desta taça que é o meu coração, bombeando-me o sangue com a força de um nunca extinto vulcão.

No entanto, assim seja! Que chegues até mim com a veloz surpresa de um relâmpago, iluminando o Mundo que acreditava já tudo ter visto e nada de novo ser possível sobre a sua envelhecida terra. Iluminando-me a mim. A mim, cujos olhos se tornaram velhos antes do seu tempo observando as dores e o sofrimento, meu e de tantos, antes que a alma se recusasse a encarquilhar como um velho pergaminho sucessivamente escrito, erros sobre erros, palavras ocas sobre palavras ocas, impossível palimpsesto de frases que a vida e a morte se encarregam de apagar.

Chegaste e nada tinha para ti senão estas mãos que tremem quando se aproximam do teu calor. Chegaste e nasceram-me sorrisos por dentro que subiram pelo meu corpo com a agitação dos pássaros.

Em outras vidas te procurei. De candeia acesa, a pé, a cavalo ou no dorso de bestas que voando atravessam os maiores dos pesadelos, percorri sem medo os mil e um caminhos secretos da Terra. Nasci e renasci incontáveis vezes, tantas quantas a Lua se recorda de me ter visto, respirando a translúcida luz que me dava ao adormecer, coberto de estrelas e folhas de sábios carvalhos.

Procurei-te e desisti de encontrar-te. Amei outras e esqueci-as, ou elas me esqueceram por nada ter para dar-lhes excepto promessas vãs, que soavam aos seus ouvidos como ecos de uma gruta onde até os deuses têm receio de dormir. Promessas feitas a ti antes de te conhecer e depois repetidas como um mantra a cada hora de cada dia de cada ano de cada vida. Nascendo e envelhecendo e morrendo procurava-te, mas de ti só ouvia falar em histórias que outros escreviam e em canções que os enamorados tocavam de uma forma inimitável, para mim vedada.

Procurei-te e quando desisti de procurar-te surgiste enfim, ó portadora da Luz que não arde porque nada consome! Surgiste como surge uma perdiz ao alvorecer entre os passos do caminhante, e tão visível que um só relance da sua fuga entre as copas das árvores permanece na memória como uma infância.

É então verdade que aquele que procura não encontra jamais? Talvez seja. Não sei e já não me importa a resposta porque enfim surgiste. Não te ofereci ainda alguma flor, porque és vegetal como elas e como elas impossível de arrancar da mais bela das planícies, ou da mais inacessível das serras. Não te ofereci ainda nenhum dos meus tesouros, porque a riqueza deles se apagou como se apaga uma moeda nas mãos de um bêbado.

Recebo-te apenas. O mais pequeno toque, o mais furtivo olhar, o mais curto sorriso, alimenta-me como as tâmaras a um nómada, no mais árido e inclemente dos desertos.
Não te posso guardar ou encerrar, mesmo nas infinitas paredes do meu coração, mesmo no ilimitado leito da minha alma. Nada posso fazer para que sejas minha, nem esta possessiva palavra se escreve na junção tão aguardada dos nossos dois caminhos. Mas enquanto o quiseres e que sentirei como sendo para sempre, deixa-me ser para ti a água que bebes, o fogo que te aquece, a terra que te alimenta, o céu que te cobre, o ar que respiras. Peço-te muito, ó ainda desconhecida? Faço-o porque te conheço desde o início dos tempos, tu outra essência de mim, tu que deste em mim à luz estas linhas, que se aproximam do que queria dizer-te como as marés se aproximam da praia, para depois recuar.

5.1.06

A moça

“Ôi, Afonso, como é qui cê vai?”


A moça estava em frente dele; materializara-se a partir do nada. Afonso sentiu que segurava com mais força a mão do filho, mas o menino continuava distraído com uma pomba que se afastava, sem alarme nem esforço de asas, apenas uns saltos de borboleta. A moça fez um gesto que traía incompreensão, o que o fez recordar a força com que a segurara naquela noite, ainda não tinham passado três meses. A brasileira não era especialmente bonita, observou, a pensar na mãozinha do filho, que continuava presa à sua, apesar do fascínio da pomba quase fazer os dois braços, o grande e o do menino, esticarem-se como no jogo da corda. A moça parecia-lhe agora apenas mediana, algo ameaçadora. Esticara o cabelo encaracolado e usava-o penteado ao comprido. Os olhos eram mais tristes. Fora uma loucura enrolar-se com ela.
Com a surpresa, deixou soltar-se a mão do menino, que correu na direcção da pomba. Houve um arrufo de asas, o riso da criança. Desviou-se de imediato para o apanhar, simulando embaraço, sorrindo para a rapariga. “O raio do miúdo”, disse.


“É muito bônito, o minino”, respondeu ela, a tentar meter conversa.


Ele concordou, distraído com a cor do céu.


“Cê nunca dissi mai nada”.


Ele engasgou-se. Sorriu vagamente. Uma simples noite e aquilo que a preocupava era ele não ter dito mais nada. A incómoda irritação fez com que recordasse o corpo dela, com o seu peito minúsculo. Fora tudo uma loucura, não compreendia? Mulher ausente uma semana, sem as crianças em casa; os amigos solteiros tinham-no levado a jantar fora; andaram pelos bares das docas e num deles estavam as três brasileiras; alguém metera conversa; às tantas, ficaram apenas eles os dois, sem saberem o que dizer um ao outro; e, às duas da manhã, desataram aos beijos, num impulso; depois havia aquele hotel manhoso mesmo ali ao lado...


Ela agarrava nervosamente o cabelo comprido:


“Cê num lembra di mim?”


Uma noite era apenas uma noite, pensou ele. Fez como se não se recordasse bem. Então, para poder evitar os amargos olhos da moça, que um leve choro já inundava, Afonso foi à procura da pequena mão do seu filho, que corria ainda atrás da pomba, num alvoroço.

4.1.06

O planeta das mulheres

Aquilo que sentes, pela primeira vez, é o Amor. E este mundo, em cada dia de novo habitado e desabitado por amantes que se encontram e se perdem, o único mundo que conhecerás. Nele, há um sentido para cada palavra gasta ou por usar. Há um Deus, crianças que nascem, mulheres que nos amam, outras (ou as mesmas) que nós amamos. E pouco, ou nada, mais.


- «Gostaria de saber uma coisa», pergunta Cassiel, o anjo caído. «O mundo é igual para as mulheres e para os homens? As mulheres são diferentes?».


- «As mulheres são humanas. Portadoras de uma luz humana. Os homens procuram, procuram, até encontrarem nelas o calor que lhes falta. Elas compreendem-vos. É tudo o que sei dizer».


Elas compreendem-nos, sim. Envolvem-nos na sua vontade de restituir a cada homem a nossa inocência.Para não precisarmos de recomeçar, de cair e cair de novo, de perdermos para sempre a vontade de nascer.


As mulheres são o princípio activo do universo, digo-te eu. Este planeta é o planeta das mulheres. Ele move-se empurrado pela sua vontade de amar, de serem amadas, de perdoar e de esquecer. E o Tempo, também ele, é feminino, embora por vezes as palavras tenham o sexo trocado na maternidade da gramática. O Tempo como já não o conhecemos, de quando éramos crianças e tinhamos mãe e o seu calor a eternidade da nossa ignorância. Deves lembrar-te, havia essa luz nova em cada manhã e o mistério renovado de viver. Agora que sentes o amor, sentes também o que te escrevo, mesmo que não o entendas.

«Deixei-a pedindo-lhe licença para tornar a vê-la nesse mesmo dia, ela consentiu e eu de novo a vi. Desde esse momento, Sol, Lua, estrelas, podem dispor-se segundo a sua fantasia. Já não sei quando é dia, quando é noite, o Universo sumiu-se ao redor de mim».


Assim te fala Goethe através de Werther. Podiam ser tuas estas palavras, maravilhosa descrição de um lugar comum, como é todo aquele em que nos reconhecemos. É o momento infinito em que agora vives e pouco importa quando acabará. «Ama e faz o que quiseres», foi um Santo quem o disse, chamado Agostinho. E na verdade, desde que ames, tudo te é permitido e tudo o que faças será bom.

Mas se tiver um fim, se for necessário que termine o que deveria sempre começar, ouve as palavras de Rilke ao jovem poeta Kappus: «Não julgue que o amor que conheceu adolescente se tenha perdido. Não foi ele que fez germinar em si aspirações ricas e fortes, projectos de que ainda hoje vive? Tenho a certeza de que esse amor apenas sobrevive, tão forte, tão poderoso na sua recordação, pelo facto de ter sido a primeira ocasião de estar só no mais profundo de si próprio, o primeiro esforço interior que tentou na sua vida. Meu caro senhor Kappus, todos os meus votos de felicidade. Seu, Rainer Maria Rilke».


Excepção à regra

Muito excepcionalmente, este blogue terá textos que não de produção própria. Mas, porque estamos na transição para o novo ano, altura de promessas de mudança e, tantas vezes, de frustrada continuidade nos nossos erros, vícios e defeitos, não resisti a deixar aqui um auxiliar catalizador retirado de «O Livro Tibetano da Vida e da Morte».



Autobiografia em cinco capítulos



I


Caminho pela rua.


Há um profundo buraco no passeio


E caio lá dentro.


Estou perdido...não sei o que fazer.


A culpa não é minha,


Preciso de uma eternidade para descobrir a saída.



II


Caminho pela mesma rua.


E lá está um grande buraco no passeio.


Finjo que não o vejo.


Caio outra vez.


Custa-me a acreditar que esteja no mesmo lugar,


Mas a culpa não é minha.


Ainda preciso de muito tempo para sair.



III


Caminho pela mesma rua.


Há um profundo buraco no passeio.


Vejo que lá está.


Mas caio...Já é um hábito


Tenho os olhos abertos,


Sei onde estou


Mas a culpa é minha e saio imediatamente.



IV


Caminho pela mesma rua


Há um grande buraco no passeio,


E passo ao lado.



V


Caminho por outra rua.



Nyoshul Khenpo

3.1.06

Shangri-la dos sentidos

Ao acordar, Anderson teve a consciência imediata de quem era. Soube, também de forma nítida, que não sonhara. Recordou a sua vida luminosa. O passado era uma passagem tépida, a travessia de uma existência confortável, a ordem da respiração transparente, o meigo toque de veludo. E, no entanto, tudo tinha sido aparentemente real. Com energia enraivecida, retirou as sondas da nuca, libertando-se dos fios que o tinham amarrado à cama. E, no entanto, era ele mesmo, ainda era ele quem fazia mexer os seus braços. E teve então a noção concreta de que até ali, enquanto sonhara o devaneio que não era sonho, ao mexer o seu corpo, não era ele quem o movia; ao sentir prazer, não era ele quem desencadeava o processo do sentir.


Enquanto lhe regressava a memória, aos soluços, invadia-o também uma cruel nostalgia pelo que tinha sido a existência perfeita, o Shangri-la dos sentidos, a imersão total na fantasia.


E lembrou-se, a culpa era sua: pedira expressamente para ser acordado uma semana antes do fim.


“Mas poderemos prolongar a sua existência”, objectara o doutor Roberts. “Nessa semana, terá a sensação de viver dois anos”.


“Quero ver a verdade”, dissera Anderson.


Agora era tarde. Saiu da cama, apesar de ter os músculos enfraquecidos. Aproximou-se da janela e viu o esplendoroso espectáculo do fim do mundo. O buraco negro crescera e parecia engolir metade do céu. Dentro de uma semana, o Sol seria destruído e ele, Anderson, seria o único ser humano a contemplar a destruição total do planeta, porque escolhera assim, para ser diferente de todo o resto da humanidade. Enquanto os outros biliões de seres humanos dormiam o seu sono beatífico, ele tinha acordado da contemplação maquinal uma semana antes.


“Perdi dois anos de vida virtual”, pensou, “para acabar aqui sozinho”.


O mundo que lhe restava era aquele. À sua frente, havia apenas uma semana de horrível eternidade.

Diálogo no passeio

- Tu aí, ó rapaz! Dá-me aqui uma mãozinha!

- Isso parece muito pesado...

- E é, caralho! Se fosse leve não precisava de ti para nada!

- Sabe, é que tenho onde estar daqui a cinco minutos.

- Pois tens. E é nas urgências do hospital se não me ajudas aqui. Pega aí desse lado.

- Ufff! Au!...Isto é um caixão?

- Não se vê logo que sim? Tu não eras o melhor da turma na escola, pois não? Deixa-te de merdas e agarra nessa pega.

- Ufff! Ai!

(...)

- Pronto, já está. Agora anda daí que eu ofereço-te uma mini.

- Ouça, mas o caixão era mesmo pesado. Não tinha um corpo lá dentro, pois não?

- Nunca te ensinaram a não fazer perguntas, quando já sabes que a resposta não te agrada? Imagina que eras tu que estavas ali esticadinho. Não ias querer ficar no meio do passeio, ou ias?

- Pois. Acho que não.

- Ora aí está! Vamos mas é beber umas bejecas e eu ensino-te umas coisas sobre a vida, que para mortos já me chegou o dia.

Fernando Pessoa: Dois possíveis inéditos


REVELAÇÃO


Na Sala dos Passos Perdidos

Soam meus passos também.

Corredores com muitos sentidos,

Rodeiam-me...qual seguirei?


Na Sala dos Passos Perdidos

ouço meus passos somente.

Há caminhos em volta estendidos,

uma luz brilhante à minha frente.


Na Sala dos Passos Perdidos

pairam só meus passos de agora.

Como vagos ecos sumidos

de cada um dos passos d'outrora.


SONHO


Paro junto a um cais,

Sinto-te por entre a bruma.

Corro para ver mais,

Encontro apenas espuma.

Sento-me à borda do rio,

Acenas da outra margem.

Nado, mas é só o vazio,

Ilusão de uma miragem.

Por entre a noite te busco,

Procuro sem t'encontrar.

E tudo o que toco é musgo,

Tudo o que vejo é luar.

2.1.06

A vida continua


Nestes assuntos, não vale a pena mentir. Quando a vi, lembrou-me caramelos espanhóis, aqueles meio rançosos que comprávamos em Badajoz juntamente com sucedâneos de chocolate e que demoravam horas a derreterem-se na boca, mais entretidos a esburacar-nos os dentes.

Não sei se me entendem. Estou a tentar dizer-vos que ela tinha um aspecto pegajoso, duro e atraente, tudo ao mesmo tempo. E rasca também. Não era uma rapariga que se apresentasse aos pais, a não ser que morassem no Bairro das Marianas. Em resumo, fazia o meu tipo. Até porque sou órfão e não preciso de dar satisfações sobre as minhas companhias.

É importante lembrar-vos (não que alguma vez o tenham sabido) que estava um pouco tocado. Mas, com um bocado de sorte, ela também. Pelo menos encostava-se ao balcão como alguém que precisa de um apoio sólido, para contrabalançar o apoio líquido.

Ora outra coisa que não vos disse foi que o barman é meu amigo, embora tenha um fígado com outra opinião. Chama-se Joe e, tirando o nome e o facto de ser americano, é um bom rapaz que sabe dosear um Rusty Nail, numa altura em que outros que andam para aí o julgam nome de verniz para as unhas. É que não há como um Rusty Nail para ganhar pedalada e perder as poucas inibições que nos restam. Mesmo no meu caso que, como devem ter percebido, não tenho muitas.

Convencer o Joe a entrar na jogada foi fácil. Como quem faz conversa, que é o trabalho de qualquer barman, ele confidenciou-lhe que eu era um caçador de focas perseguido pelo Greenpeace, refugiado em Lisboa e sustentado por japoneses que disfarçavam o pagamento sob a forma de lições de golfe na Penha Longa.

Pode parecer-vos inverosímel, mas os olhos dela brilharam quando se voltou para mim e fez o sinal de chamada com a unha comprida, só menos comprida do que as pernas. Depois disso, foi o amor. Instantâneo como o bom café e igualmente doce. Tornámo-nos tão inseparáveis como uns Bonnie & Clyde de colarinho branco, especialistas em dar ao dinheiro a cor do mais refinado açúcar. Lisboa era nossa e os off-shores da Madeira também. Beijos e juras eternas trocadas por telemóvel, um núcleo duro suavizado pela paixão.


Hoje, sempre que Joe e eu nos encontramos para lembrar os velhos tempos à beira da piscina da minha casa em Birre, falamos dessa primeira noite. Tentamos imaginar como ela está e se alguma amnistia poderá vir a caminho para abreviar-lhe a prisão. No fundo, não temos muitas esperanças e a vida continua. Essa é que é essa.

1.1.06

Microcosmos IV

Não consigo sentir mais do que amarga melancolia nestes dias de festa obrigatória. Decidira enfrascar-me sozinho. Mas, antes de me lançar nos braços da solidão, saí de casa, para dar uma volta ao bilhar grande. Nem tive tempo de sentir o frio da rua. Mal tinha saído da escada, ainda envolto no calor da casa, vi luz na loja de Kornel Szigeti e mudei de planos. Pensei que ele estivesse com disposição para um bocado de conversa, por isso bati-lhe à porta. O Kornel é um cinquentão que vive para a sua loja de antiguidades. Tem um típico sentido de humor judeu. Mas eu devia ter estranhado aquela luz magra num 31 de Dezembro. Demoraram a abrir a porta. Senti que alguém se aproximava, depois ouvi uma voz feminina. O sacana estava acompanhado, mas já não havia fuga possível. A porta abriu-se e na penumbra vi a caverna de Ali Babá, em primeiro plano surgia o vulto de uma mulher. Reconheci-a: era Eszter, a viúva do primeiro andar, uma tímida, nos seus quarenta e tais. Cumprimentava-me sempre com extrema delicadeza, mas nunca me interessei sobre a sua vida. Agora, abria-me a porta. “Ah, é você?”, disse ela, num embaraço. E já se ouvia, atrás, a voz de Kornel, que vinha do fundo, de uma habitação que mantinha nas traseiras e onde por vezes dormia uma sesta.


“Vens a tempo”, disse ele, “ Íamos agora abrir a garrafa de espumante”.


“Não se incomodem. Ainda nem são dez horas”, objectei.


Kornel voltou para dentro, ainda a meter a camisa dentro das calças. Eu e Eszter sentámo-nos no sofá de exposição, no meio do mobiliário, das pratas, dos livros antigos, quadros. Olhámos um para o outro e notei que a minha vizinha parecia mais feliz. A sua antiga beleza emergira à superfície do corpo, que tinha readquirido elasticidade, como se uma energia interna brotasse de cada poro da pele. Sorri e ela corou. O meu amigo regressara com uma garrafa, que abriu, com estrondo. Usámos copos de cristal e bebemos o espumante. Não conversámos muito. Ele gracejou, Eszter ria-se de quase tudo. Eles os dois brilhavam como jóias dentro de água transparente. Eu apenas observava. Depois, decidi sair:


“Meu querido Kornel Esti*, agora já se está mesmo a fazer tarde”.


“Pelo contrário, nunca é tarde, nunca é tarde”.


Rimos os três, eu fui-me embora. De repente, a felicidade de outros fazia parte de mim. Decidi deambular pelas ruas quase vazias. A neve cobrira a rua Rákóczi, até à ponte Erzsébet. Havia uma mistura de neblina soturna, o lençol branco, fantasmagórico, as fachadas pesadas dos velhos palácios e as luzes da iluminação pública banhando aquilo com reflexos cor de bronze. Passavam alguns carros, prudentes, no piso escorregadio. E pessoas isoladas, talvez como eu, sem ninguém ao lado. Foi então que se ouviu um clamor súbito. “Buék! Buék!”. Gente vinha às janelas e gritava “Bom Ano! Bom ano!”, batendo panelas, num tumulto. E, pouco depois, ouvia-se do interior das casas, das televisões aos berros, o hino nacional. “Deus abençoe os húngaros”. A música parecia vir de todos os lados, tal como a bem-aventurança, misturada de melancolia, que me invadiu de repente, como se fosse sobretudo coisa minha.



* Impossível de traduzir. Literalmente, Kornel Nocturno, personagem do genial escritor húngaro Dezsö Kosztolányi (1885-1936). Kosztolányi forma com Musil, Kafka e Roth um quarteto de autores nascidos no Império austro-húngaro e que, de alguma forma, escreveram sobre o fim do império. Kormányos tem claras afinidades e, por vezes, tenta em vão imitar o seu estilo (nota do tradutor).


Microhistória de Lajos Kormányos, Tradução do original húngaro: Luís Naves