31.1.07

Já não tenho idade para descobrir
uma luva esquecida no fundo da gaveta,
ou assistir ao desvanecer das begónias.
Vivi depressa, vivi demais
e todos os anos repetiram nomes diferentes,
entre os despojos largados, sempre iguais.

Mesmo assim, quando contar os meus dias
a quem pretenda ouvi-los (e quem será?)
pronunciarei sem rir a palavra «Amor».
A meus pés, o futuro não escapará
ao lamento dos viúvos, ao clamor dos vencidos.
…Ou sequer à eufórica utopia dos gemidos.

(Amanhã, não esquecer: Limpar o pó das estantes
e fingir que nada aconteceu. Ou então, que não fui eu).

24.1.07

As doenças surgem com os exames médicos.

Porque há um refrão na cabeça que coça a dor de pensar com a ponta da unha sem o carinho do dedo
era para me levantar da cama e descobrir o que anátema significa, saber na boca a palavra, todos os seus expoentes e asserções, todas as codificações e plurais, num esticar de língua que mostrasse a palavra lavada dentro da boca ou apenas colocada em fila na rua, nua e viva;
anátema

a palavra marginal nua numa fila Hitleriana de tortura
(os seios descaídos da palavra, os pêlos púbicos da palavra a verem-se)

eu nunca vi uma palavra com um revólver na boca mas sei que existem e que aparecem mortas nas frases, escondidas depois das vírgulas entre pontos finais;
anátema

eu só queria confortar-me num dicionário que me explicasse:
- uma laranja grávida com flores na cabeça
e me desse a certeza do tempo a passar num copo de ar,
anátema.

22.1.07

Eis-me acordado dentro de ti.

Num soneto de Rilke,
«entre os ínfimos rumores no capim
e o sabor da hortelã».
Ao longe, sobre a falésia e as mais altas ondas
volteiam as aves, luminosas como purpurinas.

Por que afloraram esses dedos os meus lábios,
na terna certeza que só partilham os amantes?
Assim regressámos, sem receio ou cuidado,
e nem tempo tive para guardar o corpo
em qualquer recanto onde pudesse menti-lo.

Agora regresso ao sono, a outras memórias acres,
preciosas, como trufas selvagens sob o chão.

17.1.07

Tens um bicho-da-seda pousado nos cabelos
e um nome na palma da mão,
assim o escreviam as namoradas para sempre.
(A tinta caneta cristal, grossa, azul,
desbotada pela água ou o suor).

Contigo retorna esse som, cego e devorador,
das lagartas triturando as folhas de amoreira,
e depois o silêncio expectante dos casulos
e depois o frenético crepitar das asas
e depois nada,

nada mais recordo porque o teu nome
deitei-o fora numa limpeza escura,
sacudido com o pó e bocadinhos de cotão.
Arrependi-me depois, deves saber,
mais ainda por tê-lo pronunciado um dia

por o ter beijado, cuspido e gritado antes,
muito antes e antes
de encerrá-lo na gaveta proibida.
Arrependi-me disso também e muito mais
haveria a dizer, mas para quê? É outra vez tarde.

Porque os nomes tornam-se um cão
que se rejeita e volta jamais.
Não por falta de vontade,
mas por não saber como regressar.
Para junto daquele que o deixou de amar.

14.1.07

REIZADA

REIZADA

Em Castelo Branco, no sertão bahiano, habitavam os descendentes de duas famílias, os Marques e os Martins, povoadores pioneiros oriundos de Oleiros, cerca de Castelo Branco, cujo nome português reproduziram em plena mata. Com os índios aprenderam que Eldorado nomeava uma vasta campina de milho e abóbora, muita fruta e muita caça, circundada por um ribeirão manso, onde se pescava à mão e os velhos, estirados na margem, morriam em paz - isto é que é a terra do Paraíso, dizia o velho caipira, a Terra Sem Mal, onde se toca música, brinca com os filhos, assa peixe no espeto, bate o pilão, pinta a cabaça e adormece na rede com a mulher, esta é que é a Terra da Prata da Harmonia. Os Marques e Martins eram famílias pacíficas, que mercadejavam cereais e gado com o litoral, as suas fazendas abasteciam um quinto do mercado de S. Salvador, a carne dos seus bois tornara-se famosa em toda a Bahia, e até para o reino enviavam coco verde. Meio século depois já eram uns dez casais, umas 30 a 40 crianças, evitando o casamento entre primos direitos, era a única lei que existia em Castelo Branco, a proibição de casamentos entre primos direitos, de irmãos não se fala, de resto não precisavam de meirinho e julgado, que não existiam rixas. Recolhidos os rendimentos das vendas, eram por todas as famílias divididos, como se todos tivessem trabalhado o mesmo e todas as famílias tivessem os mesmo filhos, os que hoje tinham menos, já tiveram mais ou hão-de ter mais, e os que hoje têm mais, já tiveram menos ou hão-de ter menos, equilibrando-se assim o cômputo geral, que a nenhum dava mais que a outros, e, por isso, ninguém podia sentir-se menos ou mais que outros. Da vida assim o tinham aprendido com os índios, seres comunitários, e com a Santa Religião Cristã e o seu livro, a Bíblia, que todos as casas cuidavam como coisa mais sagrada, e mais nenhum livro tinham, com a excepção do casal mais velho, que outro livro iam passando de mão em mão, Os Lusíadas, de Camoens, porque por ele era que em criança aprendiam a ler e a escrever. Há não mais de 30 anos, aparecera por cima da serra que bordejava Castelo Branco um vasto corpo luminoso em forma de cruz. Desde então, gravara-se a cinzel no lintel da porta de cada casa as iniciais C. M. B., que, para sertanistas, franciscanos e jesuítas significavam “Christus Mansionem Benedicat”, “Cristo Abençoa esta Casa”, mas para eles, os Marques e Martins descendentes, tão fraternos entre si, tão agradados de Deus, que os recompensava de fazenda farta, roça apurada, pastos cheios e gado gordo, significavam Caspar (primitiva grafia de Gaspar), Melchior e Baltazar, os três Reis Magos. Os descendentes dos Marques e dos Martins, espantados de tanta paz, tanta fraternidade e tanta riqueza, acolheram com maravilha a intuição de que, diferente de toda a colónia brasílica, habitada por brancos rapaces, matadores de índios e exploradores de pretos, desobrigados dos costumes da cristandade, Deus privilegiara Castelo Branco como centro matricial do Quinto Império, o Reino de Deus na Terra. Ali conviviam brancos, índios e negros em paz santificada e estes não eram escravos, eram trabalhadores, que ganhavam ao jornal, as suas senzalas eram limpas, de parede e telha e redes para toda a família, e um arcaz para guarda de seus pertences, e cada família tinha os seus apetrechos de louça e os seus talhares de pau, e ninguém andava nu, ninguém trabalhava à chuva e ao sol do meio-dia e havia carne para todos uma vez por semana e fruta com abundância e farinha e feijão às carradas, e até parece que as cobras, bicho carnadura do Demónio, tinham fugido de Castelo Branco. Ilustrara os corações dos descendentes do Marques e dos Martins a história do Quinto Império português, que seria universal, e ali tinha a sua semente, figuravam-se como os habitantes da terra que voltara a unir, mil e quinhentos anos depois da morte de Cristo, as três raças dos três Reis Magos: Belchior de raça branca, são os Marques e os Martins, Gaspar oriental, são os índios que, não sendo da Índia, não por acaso têm o nome de índios e têm os olhos e o cabelo como os Chinos, e Baltazar, de raça negra, são os escravos de Cabinda, Benguela, Ajudá e S. Paulo de Luanda. Entusiasmado, houve quem propusesse a passagem do nome de Castelo Branco para Salva Terra de Magos, mas os mais velhos reprovaram, porque tanto pareceriera sobranceria dos seus habitantes, que se anunciavam como salvadores, e só eram pioneiros de futuro salvamento. Por decisão subterrânea antevendo o futuro e resgatando o passado, os Marques e os Martins passaram a celebração do Natal, festa do passado, para o dia de Reis, festa do futuro fraterno de todas as raças e todos os povos, e logo a reizada, em 6 de janeiro, se tornou a festa mais importante de Castelo Branco, dia em que todos a todos se ofereciam presentes e todos pediam perdão a todos alguma ofensa havida, e todos prometiam a todos que todos desejassem o que cada um para si desejasse, e todos a todos se ofereciam para trabalhar, ajudar nas fazendas alheias, varar as margens do rio, que de todos era, aparar os canaviais, ferrar os bois, castrar o porco, limpar o chiqueiro, tosquiar a ovelha, cartumar a pele da cabra, queijar o leite, estrumar a terra, ensinar a ler e a escrever a criançada pela letra e o sentido do poema de Camoens. Nessa noite de Reis as casas ficavam às escuras, de candil e candeia apagadas e ao chegarem os violinos e os adufes, narrando e cantando a epifania dos três Reis Magos, dançando pelas alamedas, acompanhados dos casais com o seus filhos, batiam à porta da casa e clamavam todos em coro: “Acendam o candeeiro, pois o Filho de Deus já nasceu, Baltazar, Belchior e Gaspar já chegaram e nós somos alegres e contentes”, os negros clamavam Baltazar, os índios Gaspar e os brancos Belchior, e todos se juntavam à procissão alegre e riadeira, e iam para o rossio da capela onde cada um, trazido o seu prato e o seu púcaro, retiravam de uma balsa gigantes rincões de carne com sal, de um tabuleiro do tamanho de uma mesa fatias de pão e de umas gamelas fundas enchiam os púcaros com vinho e ervas de cheiro. Aqui os pares se pareavam, os casamentos se marcavam, e todos andavam na rua vestidos de foliões, com tambor e pandeiro, carregando aos ombros um menino coroado de Imperador, e cantando e assobiando se despediam clamando “O Divino Espírito Santo / É um grande folião / Amigo de muita carne, / Muito vinho e muito pão”. Novos casais se casaram, novas casas se levantaram, novas fazendas foram arroteadas, novas crianças aprenderam ler e a escrever pel’Os Lusíadas, novas reizadas se comemoraram, outras epifanias se sucederam, novos índios e negros receberam o seu jornal, e a povoação teimava em manter a velha capela de taipa e sapé, recusando igreja de mármore e telha, mantendo em silêncio o segredo de se saber a anunciada do Quinto Império ou do Reino Consumado de Cristo, que pela segunda vez viria à Terra.
Apertados entre novos vizinhos, as terras começaram a escassear, novos povoadores, já não Marques nem Martins de Oleiros, mas os Madeiras da Madeira, os Bitancourt de S. Miguel, os Paxeco da Galiza, os Cavaco do Algarve, os Axim de Viseu, os Guterres do Fundão, os Bailão da Caparica, os Sócrates da Covilhã, os Seguro de Penamacor, desbravaram o capinzal e instalaram-se de olho grosso na abundância paradisíaca de Castelo Branco. Nesta, o povo juntava-se no rossio e clamava por Deus, pela Virgem Santíssima e pelos Reis Magos, que os ouvissem e estendessem a sua fartura a outros povoados, mas ecos desta escuta não vinham, e os negros das fazendas vizinhas, mal tratados, fugiam para Castelo Branco; em S. Salvador dizia-se que Castelo Branco era um mucambo de negros, que ali as leis da colónia não eram respeitadas, não havia Sé, nem tabelião, nem julgado, nem meirinho, nem almoxarife, nem prisão, nem provedor, e que os Martins casavam com os Marques e os Marques com os Martins e já ninguém sabia quem eram os Marques e quem eram os Martins, que eles só vendiam a S. Salvador e nada compravam, e o Bispo Alpedrinha, de testa séria, mandou inquirir. O inquiridor descobriu que as crianças esperavam Cristo ressurrecto na crença de que os Reis Magos uniam todas as raças, e o que une não divide, por isso os pretos e os índios eram tratados como os brancos, e o inquiridor regressou ao palacete do Bispo Alpedrinha e este decretou milenaristas e heréticos, criptos e contumazes os habitantes de Castelo Branco. O Governador-Mor, de testa séria, de nome Serrasqueiro, escutado o Senado da Câmara, ordenou que Castelo Branco fosse como todas as terras, tivesse meirinho, juiz, almoxarife, carcereiro, provedor, vereador e sacerdote, os escravos tinham direito a comer e a vestir, mas não a receber dinheiro. Os descendentes dos Marques e dos Martins não contestaram, venderam os casais por dez réis o mel coado aos novos colonos, e partiram, uns apanharam a primeira nau de carreira para Goa, desceram na Guiné, penetraram no Cachéu e subiram a Medina do Boé, onde Amílcar Cabral, em 1973, trezentos anos depois, há-de elogiar uma família Marques Martins como a única família não racista do sul da Guiné-Bissau, outros deixaram tudo assim como estava, pegaram na roupa, nos instrumentos de trabalho e nos filhos e, com a animalaria, penetraram no Mato Grosso, onde construíram uma nova Castelo Branco, agora, sim, abertamente chamada Salva Terra de Magos, e aí edificaram a única igreja do mundo dedicada exclusivamente a Belchior, Baltazar e Gaspar. Quando, nos princípios do século XX se fez o levantamento dos companheiros de António Conselheiro, da revolta milenarista e sebastianista de Canudos, na Bahia, entre os nomes arrolados pelos capitães dos regimentos militares que dizimaram os sequazes do Conselheiro, muitos eram Marques e outros Martins, e inquiridos donde vinham, já sabemos, de Castelo Branco ou de Salva Terra de Magos. Agostinho da Silva, em Cachoeira, terra mais preta da Recôncavo bahiano, acocorava-se na soleira de granito velho de um sobradinho derruído, escutando a voz de um matuto arcaico e desgastado, de barbas de matusalém, pele fuliginosa de sujeira, soprando um cachimbinho de barro com erva-santa, narrando histórias de ninar sobre as eras do futuro, quando os pretos, os índios e os brancos fossem tão iguais como hoje entre si eram iguais as crianças no seu brincar de roda. Perguntado pelo nome, o matuto antiquíssimo dizia-se, uns dias, dar pelo nome de Marques, mas também podia ser Martins, e outros, Martins, mas também podia ser Marques.





Miguel Real.

12.1.07

O golfinho de Palembang

“Á ilha de Palembang chegou uma manada de golfinhos. Passados três dias, a manada partiu, mas um golfinho ficou desorientado e só. Quando souberam que aquele ficara atrasado, os rapazes sentiram pena dele, e decidiram ir visita-lo todos os dias. Ao primeiro não foi fácil estabelecerem contacto, pois não e simples perceberem o que dizem nem o que querem.

Umas semanas após, atendia ao chamado dos miúdos, que lhe acarinhavam no focinho, e ele deixava-se fazer, coma se estivesse á vontade. Uma tarde, uma criança, que atendia por o Kim, botou-se ao mar por imitar aos mais velhos. Não sabia nadar e começou balançar os braços ao tempo que afundava, e quando semelhava ir afogar, apareceu de súbito sentado no golfinho, pegando na barbatana dorsal, como se cavalgasse. O Kim agachou a cabeça para lhe falar ao ouvido, e o golfinho empreendeu o caminho do largo. Saíram na sua procura, mas por muito que vogaram não deram com o golfinho nem com o Kim, que desapareceram no mar para sempre jamais.

Passados os anos chegou á angra de Palembang uma manada de golfinhos. Todos lembravam a história do Kim, que os pais contavam ás crianças, para alerta-las dos perigos do mar, e temeram que acontecesse qualquer desgraça. Assim, armados com arcos e com setas, saíram navegar para expulsa-los da baía. Os golfinhos semelhavam não quererem internar-se no mar, e quando lhes disparavam mergulhavam de contado reaparecendo a várias braças de distância. Um golfinho mais branco que os outros afastou da manada, ergueu sobre a cauda, e viron que tinha barba e bigodes, e uns olhos distintos dos que têm os golfinhos, com pálpebras e pestanas, e abriu as barbatanas laterais, que eram braços unidos ao corpo com uma membrana.

Desde aquele dia, nas águas de Palembang, há um golfinho que fala a língua dos locais e conta mil historias, que leva aos rapazes de cavalo, que diz chamar-se o Kim e ter percorrido o mar oceano, que come peixe e vitela, frutas e deleites.”

Dáqui

Foi o cabelo, aquele cabelo escorrido - viscoso, pensou Xavier quando teve tempo para pensar nisso - que o fez olhar segunda vez para o homem de idade na esplanada. Vinha meio trôpego, agarrado ao braço de uma mulher mais nova. O cabelo branco tão liso. Era o Dáqui, teve a certeza.
“Dáqui, Dáqui”, gritavam os míudos no páteo, quando ele passava a caminho da sala dos professores. Mas ele nunca se voltava. Prosseguia em passo enérgico, o cabelo negro escorrido e penteado para trás, a fazer porte de artista. A fazer de Dáli. Eles riam-se à socapa e lançavam aqueles gritos de dáqui, mas nunca olhavam para o professor. Gritavam como se o fizessem apenas entre si. Como se aquela fosse apenas mais um das suas algazarras sem sentido.
Qual era mesmo o nome dele, perguntou-se Xavier, olhando o par silencioso na esplanada. Não se lembrava, não valia a pena. Saiu de trás do balcão e caminhou na direcção da mesa, lá fora. Na direcção do Dáqui, o antigo professor de trabalho manuais. Reconhecê-lo-ia? Estremeceu ao pensar nisso. Rir-se-ia dele outra vez? “Então é isto que hoje fazes? Não me espanta”, diria o Dáqui, a escancarar a boca, a pôr as mãos nas ancas e a rir, a rir. A rir como doido.
Isso não é uma linha, é um linhão. O Dáqui a dizer aquilo e a rir. Há quantos anos? Vinte? Vinte e cinco? Talvez vinte e cinco, sim. Como o tempo passa a correr. Servir umas cervejas no Verão, fechar no Inverno. E outra vez a Primavera e o Verão, e mais cervejas, e mais risos na esplanada. O tempo a correr. A cerveja a correr. Passaram 25 anos, está todo branco o cabelo do Dáqui.
Era primavera, talvez. Nesse dia o desenho era uma composição abstracta com figuras geométricas, e Xavier estava lá também, no meio dos outros, na aula silenciosa, às voltas com as linhas rectas e as curvas, a montar um universo só dele, naquelas linhas todas entrelaçadas na folha de papel cavalinho. O pior veio depois. Passem-me isso a tinta da china, não quero borrões. Quem borrar faz tudo outra vez. As ordens do Dáqui. E ele com todo o cuidado a lutar com o compasso e o transferidor, a pôr o tinteiro longe, na outra ponta do estirador, a molhar o bico da caneta com todo o cuidado. A suar, a suar. E a mão, de súbito, a tremer-lhe naquela passagem lixada entre curvas tangenciais. O pingo negro. Céus, um pingo enorme, a manchar aquele cosmos de linhas que era só dele e que não conseguiria nunca mais repetir.
Sentira lágrimas nos olhos. Lembrava-se tão bem, tão nitidamente, enquanto caminhava agora em passos lentos, tão lentos, na direcção dos cabelos brancos na esplanada.
Tomara uma decisão rápida antes que o professor desse pela tragédia. Engrossar a linha, cobrir a gota negra, metê-la no desenho, confundi-la, apagá-la para sempre na curva grossa de uma linha. Uma qualquer. E uma delas começou a alargar e a engrossar, enquanto ele passava a caneta uma e outra vez, a linha a destacar-se cada vez mais das outras todas, como uma marca estranha, larga, no papel. A ficar... um linhão. Isso não é uma linha, é um linhão. O Dáqui estava na sua frente a rir, a rir. A rir como um doido e a olhar para o seu desenho. Lembrava-se das lágrimas a correr, manchas a alastrar-lhe nos olhos, deixara de ver as linhas curvas, as rectas, aquela mais larga, a do pingo, e todo aquele universo que tinha sido só dele.
Que quereria o velho? Uma cerveja, talvez. Beberia cerveja com esta idade? Decidiu ignorá-lo. Olhou apenas para a mulher, disse bom dia, perguntou o que iam desejar.
Ela, um chá. O pai, nada, não está bem de saúde, ouviu-a dizer, enquanto fazia um gesto vago, apontando a própria cabeça. Xavier olhou-o, então, com surpresa. E, quando o fez, só encontrou uns olhos vazios, já despegados de tudo. Olhos sem vida, alheios ao mar ali em frente, à filha que retocava os lábios distraída, a ele próprio, que, de regresso ao balcão da esplanada, de costas voltadas para o par silencioso, ia agora a sorrir, quase feliz.

5.1.07

no ano de dois mil e sete

no ano de dois mil e sete a poesia era uma maneira de se estar vivo
respirar para dentro das coisas onde não se via nada para além do nevoeiro
e encontrar pela noite dentro um abraço terno e seguro como uma cama bem feita
pelos dedos dóceis de uma avó que só se preocupa com o nosso bem estar.
era ficar em pé de cabeça levemente descaída em frente à montra dos jornais
e ler alguns títulos que nunca nos interessavam verdadeiramente
como os jantares oferecidos ao corpo diplomático pelo presidente da república
ou os referendos que se repetiram infinitamente até deixarmos de perceber o seu significado.

no ano de dois mil e sete a poesia era um livro publicado na primavera
e um abraço apertado à beira-mar enquanto nos copos água fresca aquecia
porque o estrangeiro é mais da nossa própria terra onde nos olham de lado
do que numa cidade distante onde nos tiram o chapéu porque abrimos janelas sorridentes.
era poder telefonar-te porque um beijo ficar por dar no aceno na calçada
era finalmente ter nos bolsos as chaves de uma casa com cortinados coloridos
e ficar sentado numa das noites da semana no sofá grande da sala
a ver um filme francês daqueles que passam a desoras no canal um da erretepê.

no ano de dois mil e sete a poesia era também composta pelas mesmas palavras
que se podem encontrar nos livros mais antigos da história da humanidade
e também nas músicas do josé mário branco e do josé afonso embora essas
tivessem perdido todo o seu sentido original para serem apenas poemas sublimes.
era abraçar-te como se abraça o amor da nossa vida descoberto
e comer maçãs descascadas com vista para o prédio onde uma vizinha estendia a roupa
ser domingo de manhã e sentir um raio de sol a entrar-nos nos peito pelo pijama aberto
sorrir sossegado com a poesia que nos envolve a alma no ano de dois mil e sete.

2.1.07

Fragmentos do passado (terceiro dia)

Perdemos parte das colheitas e alguns dos animais que sobram no estábulo estão a morrer. Este inverno tem sido duro. Inventei hoje que estamos em Janeiro e comecei a contar os dias. Portanto, recuperei a memória da escrita no dia 1 de Janeiro, o que significa que hoje é dia 3. Mas não sei de que ano. E ao começar a contagem ao acaso, certamente não estaremos em Janeiro. Quem sabe? Agora, os invernos são mais compridos do que no passado. O clima mudou. As plantas e os animais morrem por causa disso.
Hoje, sentei-me junto da fogueira na cozinha e comecei a ensinar a criança. Ensinei-lhe algumas letras e ela repetia. Parece inteligente. Talvez seja minha filha... Ao escrever esta brincadeira, desatei-me a rir. Não me lembro de ter rido, certamente não me ri durante muitos meses, talvez até anos.
A nossa existência é feita de incerteza sobre a passagem do tempo. Isso confunde-me. Tento voltar ao princípio, avaliar certas dimensões daquilo que passou, mas fracasso sempre: as coisas amontoam-se. Demorarei muito tempo a ensinar a menina, demasiado, talvez. Amanhã, posso perder a minha memória das letras escritas, não sei.
A mulher Leonor ficou a olhar para nós os dois, enquanto eu ensinava a criança. Parecia desconfiada, como se eu estivesse a fazer alguma coisa de errado. Até que não sustentei aquele olhar de censura e disse-lhe, enquanto apontava para a criança:
“Se esta menina souber ler, nem tudo estará perdido”.
“Os coelhos estão a morrer...”, respondeu ela. Foi como se me dissesse que estava tudo perdido, que tudo era inútil, que mais valia desistirmos.
Depois, encolheu os ombros e saiu da cozinha.
Está tudo perdido, talvez, mas já não existe a “radiação”. Sei disso porque desapareceram as luzes brilhantes no céu nocturno. Significa que a criança terá memória.
Não será como nós, os fantasmas. Somos como sombras, que se arrastam numa penumbra.
Na aldeia, há cada vez menos gente. Algumas casas continuam a ter habitantes, vejo a luz das lareiras acesas, o único aquecimento que temos. Às vezes, ouço os rebanhos patéticos, que alguém conduz até aos pastos mais altos. E também nos cruzamos, com medo uns dos outros, sem nos reconhecermos. Há vozes dispersas.
Muitas casas estão desabitadas, mas também estas têm ruídos. As pedras parecem lamentar-se e as portas que restam por vezes movem-se, como se houvesse dedos a empurrá-las. Choram os telhados e a água corre no interior, como se fosse sangue.
A angústia do que fomos transforma cada casa e cada um de nós num poço fundo e escuro, do qual tentamos retirar a água lamacenta das nossas memórias perdidas.
Mas há duas outras crianças na aldeia. Devia tentar ensinar-lhes a leitura, fazer uma escola, enquanto durasse esta minha lembrança das letras. Mais tarde, poderiam aprender sozinhas. Mas antes, tenho de encontrar mais livros. Amanhã, irei ao que resta da cidade. Não é longe. Existe o perigo dos lobos, claro, e o frio e a incerteza do caminho estranho.

1.1.07

Fragmentos do passado (segundo dia)


(...) Descobri que a criança não se esquece das coisas que aprende. Deve ter, no máximo, uns cinco anos, mas pouco lhe conseguimos ensinar. A menina é filha da mulher chamada Leonor, que deve ser casada comigo ou minha irmã. Não sei quem será o pai da menina: posso ser eu, que durmo mais vezes com Leonor, ou pode ser António, talvez meu irmão ou marido dela, não sei. Ele dorme menos vezes com ela, por isso digo que Leonor, no tempo passado, era a minha mulher.
Chegámos juntos a esta aldeia, os três. Viajámos numa espécie de veículo, que andava sozinho por estradas que ainda existem, só era preciso segurar uma roda e fazer com que oscilasse para a direita e para a esquerda. Não me peçam para descrever melhor a máquina, porque me esqueci por completo como funcionava. Está a apodrecer nas redondezas. Por vezes, tiramos dela materiais, usámos o combustível para nos aquecermos.
Se um dia conseguir que a criança aprenda a ler (talvez esta memória persista algum tempo, as lembranças do passado vão e vêm, são como as ondas ou como o vento que abana a floresta), se ela souber ler, podemos encontrar livros e poderá aprender o que sabíamos e o que se perdeu, como funcionavam as máquinas e aquilo que fazíamos com elas. As crianças nascidas depois de o passado não se esquecem daquilo que aprendem.
Comecei a escrever isto depois de ter encontrado, numa gaveta velha, um caderno de papel e um lápis. O caderno só tinha uma folha escrita. Quando se acabar o papel ou o lápis, deixarei de poder contar a nossa vida, mas também é possível que me esqueça outra vez de como se escreve. O António soube escrever, durante dois dias. Foi no Verão (talvez este ano, ou no anterior) e usou este mesmo caderno. Dizia que no passado (ele chamava a esse tempo o mundo perfeito) houve uma guerra. Explodiram bombas numa terra distante. E seguiu-se uma terrível noite, que se prolongou e que mudou o clima; perderam-se as colheitas, houve muita fome e invasões dos países que tinham guardado alimentos. Mas o pior foi a "radiação", que não sei o que seja. Atingiu toda a gente, matou quase todos e aos que sobreviveram mexeu com os cérebros. Foi o que ele escreveu.
A decadência prolongou-se por algum tempo, provavelmente anos, não sei quantos. Por vezes, sonho com essas memórias, ou elas surgem, inesperadas, como num oceano oculto sob uma crosta gelada. Ao mover-se a água por baixo, emergem por vezes minúsculas lagoas viscosas, que congelam quase imediatamente.
Lembro-me, por exemplo, de uma sala branca e de uma luz que parecia um sol. E à minha volta estavam pessoas vestidas de verde e com a boca tapada por lenços. E eu peguei numa faca e comecei a cortar um corpo humano vivo, que largava pouco sangue. Fiz um longo corte e abri o peito e, dentro, como se fosse um relógio incompreensível, movia-se vida, e eu sabia ler cada um daqueles órgãos, compreendia tudo. E com o dedo, protegido por uma luva muito justa, apontei para uma bola branca que não devia estar ali, e levei a faca até ao ponto branco. Fui eu a fazer isso.
Não me lembro de muito mais porque, segundo escreveu António, depois da radiação, começámos a esquecer-nos das coisas.
Foi um processo lento, uma agonia. Aquele mundo, o do passado, baseava-se em máquinas e as pessoas foram esquecendo, devagar, como elas funcionavam. Depois, esqueceram quem eram as outras pessoas. E, no fim, esqueceram-se da sua própria identidade.
Não sei o que fiz à folha que o António escreveu neste caderno, mas lembro-me de a ter rasgado. Acho que o fiz porque a mulher chamada Leonor dormiu ontem com ele e eu senti uma raiva. Leonor dormiu uma vez com um homem da aldeia e eu entrei em fúria. Acho que matei o homem. Não farei isso a António, mas rasguei a folha que ele conseguiu ainda escrever no caderno, na véspera de se esquecer outra vez como se faz a escrita. Arranquei-lhe o único passado que lhe restava e, por isso, ele passou a ser nada.
Enfim, ele ainda se lembra de números. Diz que era físico, antes do passado, e lembra-se de fórmulas matemáticas, mas não sabe para que serviam. São amontoados de símbolos abstractos e sem sentido. Às vezes, recita as fórmulas, como se repetir palavras sem nexo pudesse levar a uma espécie de entendimento das coisas.