REIZADA
Em Castelo Branco, no sertão bahiano, habitavam os descendentes de duas famílias, os Marques e os Martins, povoadores pioneiros oriundos de Oleiros, cerca de Castelo Branco, cujo nome português reproduziram em plena mata. Com os índios aprenderam que Eldorado nomeava uma vasta campina de milho e abóbora, muita fruta e muita caça, circundada por um ribeirão manso, onde se pescava à mão e os velhos, estirados na margem, morriam em paz - isto é que é a terra do Paraíso, dizia o velho caipira, a Terra Sem Mal, onde se toca música, brinca com os filhos, assa peixe no espeto, bate o pilão, pinta a cabaça e adormece na rede com a mulher, esta é que é a Terra da Prata da Harmonia. Os Marques e Martins eram famílias pacíficas, que mercadejavam cereais e gado com o litoral, as suas fazendas abasteciam um quinto do mercado de S. Salvador, a carne dos seus bois tornara-se famosa em toda a Bahia, e até para o reino enviavam coco verde. Meio século depois já eram uns dez casais, umas 30 a 40 crianças, evitando o casamento entre primos direitos, era a única lei que existia em Castelo Branco, a proibição de casamentos entre primos direitos, de irmãos não se fala, de resto não precisavam de meirinho e julgado, que não existiam rixas. Recolhidos os rendimentos das vendas, eram por todas as famílias divididos, como se todos tivessem trabalhado o mesmo e todas as famílias tivessem os mesmo filhos, os que hoje tinham menos, já tiveram mais ou hão-de ter mais, e os que hoje têm mais, já tiveram menos ou hão-de ter menos, equilibrando-se assim o cômputo geral, que a nenhum dava mais que a outros, e, por isso, ninguém podia sentir-se menos ou mais que outros. Da vida assim o tinham aprendido com os índios, seres comunitários, e com a Santa Religião Cristã e o seu livro, a Bíblia, que todos as casas cuidavam como coisa mais sagrada, e mais nenhum livro tinham, com a excepção do casal mais velho, que outro livro iam passando de mão em mão, Os Lusíadas, de Camoens, porque por ele era que em criança aprendiam a ler e a escrever. Há não mais de 30 anos, aparecera por cima da serra que bordejava Castelo Branco um vasto corpo luminoso em forma de cruz. Desde então, gravara-se a cinzel no lintel da porta de cada casa as iniciais C. M. B., que, para sertanistas, franciscanos e jesuítas significavam “Christus Mansionem Benedicat”, “Cristo Abençoa esta Casa”, mas para eles, os Marques e Martins descendentes, tão fraternos entre si, tão agradados de Deus, que os recompensava de fazenda farta, roça apurada, pastos cheios e gado gordo, significavam Caspar (primitiva grafia de Gaspar), Melchior e Baltazar, os três Reis Magos. Os descendentes dos Marques e dos Martins, espantados de tanta paz, tanta fraternidade e tanta riqueza, acolheram com maravilha a intuição de que, diferente de toda a colónia brasílica, habitada por brancos rapaces, matadores de índios e exploradores de pretos, desobrigados dos costumes da cristandade, Deus privilegiara Castelo Branco como centro matricial do Quinto Império, o Reino de Deus na Terra. Ali conviviam brancos, índios e negros em paz santificada e estes não eram escravos, eram trabalhadores, que ganhavam ao jornal, as suas senzalas eram limpas, de parede e telha e redes para toda a família, e um arcaz para guarda de seus pertences, e cada família tinha os seus apetrechos de louça e os seus talhares de pau, e ninguém andava nu, ninguém trabalhava à chuva e ao sol do meio-dia e havia carne para todos uma vez por semana e fruta com abundância e farinha e feijão às carradas, e até parece que as cobras, bicho carnadura do Demónio, tinham fugido de Castelo Branco. Ilustrara os corações dos descendentes do Marques e dos Martins a história do Quinto Império português, que seria universal, e ali tinha a sua semente, figuravam-se como os habitantes da terra que voltara a unir, mil e quinhentos anos depois da morte de Cristo, as três raças dos três Reis Magos: Belchior de raça branca, são os Marques e os Martins, Gaspar oriental, são os índios que, não sendo da Índia, não por acaso têm o nome de índios e têm os olhos e o cabelo como os Chinos, e Baltazar, de raça negra, são os escravos de Cabinda, Benguela, Ajudá e S. Paulo de Luanda. Entusiasmado, houve quem propusesse a passagem do nome de Castelo Branco para Salva Terra de Magos, mas os mais velhos reprovaram, porque tanto pareceriera sobranceria dos seus habitantes, que se anunciavam como salvadores, e só eram pioneiros de futuro salvamento. Por decisão subterrânea antevendo o futuro e resgatando o passado, os Marques e os Martins passaram a celebração do Natal, festa do passado, para o dia de Reis, festa do futuro fraterno de todas as raças e todos os povos, e logo a reizada, em 6 de janeiro, se tornou a festa mais importante de Castelo Branco, dia em que todos a todos se ofereciam presentes e todos pediam perdão a todos alguma ofensa havida, e todos prometiam a todos que todos desejassem o que cada um para si desejasse, e todos a todos se ofereciam para trabalhar, ajudar nas fazendas alheias, varar as margens do rio, que de todos era, aparar os canaviais, ferrar os bois, castrar o porco, limpar o chiqueiro, tosquiar a ovelha, cartumar a pele da cabra, queijar o leite, estrumar a terra, ensinar a ler e a escrever a criançada pela letra e o sentido do poema de Camoens. Nessa noite de Reis as casas ficavam às escuras, de candil e candeia apagadas e ao chegarem os violinos e os adufes, narrando e cantando a epifania dos três Reis Magos, dançando pelas alamedas, acompanhados dos casais com o seus filhos, batiam à porta da casa e clamavam todos em coro: “Acendam o candeeiro, pois o Filho de Deus já nasceu, Baltazar, Belchior e Gaspar já chegaram e nós somos alegres e contentes”, os negros clamavam Baltazar, os índios Gaspar e os brancos Belchior, e todos se juntavam à procissão alegre e riadeira, e iam para o rossio da capela onde cada um, trazido o seu prato e o seu púcaro, retiravam de uma balsa gigantes rincões de carne com sal, de um tabuleiro do tamanho de uma mesa fatias de pão e de umas gamelas fundas enchiam os púcaros com vinho e ervas de cheiro. Aqui os pares se pareavam, os casamentos se marcavam, e todos andavam na rua vestidos de foliões, com tambor e pandeiro, carregando aos ombros um menino coroado de Imperador, e cantando e assobiando se despediam clamando “O Divino Espírito Santo / É um grande folião / Amigo de muita carne, / Muito vinho e muito pão”. Novos casais se casaram, novas casas se levantaram, novas fazendas foram arroteadas, novas crianças aprenderam ler e a escrever pel’Os Lusíadas, novas reizadas se comemoraram, outras epifanias se sucederam, novos índios e negros receberam o seu jornal, e a povoação teimava em manter a velha capela de taipa e sapé, recusando igreja de mármore e telha, mantendo em silêncio o segredo de se saber a anunciada do Quinto Império ou do Reino Consumado de Cristo, que pela segunda vez viria à Terra.
Apertados entre novos vizinhos, as terras começaram a escassear, novos povoadores, já não Marques nem Martins de Oleiros, mas os Madeiras da Madeira, os Bitancourt de S. Miguel, os Paxeco da Galiza, os Cavaco do Algarve, os Axim de Viseu, os Guterres do Fundão, os Bailão da Caparica, os Sócrates da Covilhã, os Seguro de Penamacor, desbravaram o capinzal e instalaram-se de olho grosso na abundância paradisíaca de Castelo Branco. Nesta, o povo juntava-se no rossio e clamava por Deus, pela Virgem Santíssima e pelos Reis Magos, que os ouvissem e estendessem a sua fartura a outros povoados, mas ecos desta escuta não vinham, e os negros das fazendas vizinhas, mal tratados, fugiam para Castelo Branco; em S. Salvador dizia-se que Castelo Branco era um mucambo de negros, que ali as leis da colónia não eram respeitadas, não havia Sé, nem tabelião, nem julgado, nem meirinho, nem almoxarife, nem prisão, nem provedor, e que os Martins casavam com os Marques e os Marques com os Martins e já ninguém sabia quem eram os Marques e quem eram os Martins, que eles só vendiam a S. Salvador e nada compravam, e o Bispo Alpedrinha, de testa séria, mandou inquirir. O inquiridor descobriu que as crianças esperavam Cristo ressurrecto na crença de que os Reis Magos uniam todas as raças, e o que une não divide, por isso os pretos e os índios eram tratados como os brancos, e o inquiridor regressou ao palacete do Bispo Alpedrinha e este decretou milenaristas e heréticos, criptos e contumazes os habitantes de Castelo Branco. O Governador-Mor, de testa séria, de nome Serrasqueiro, escutado o Senado da Câmara, ordenou que Castelo Branco fosse como todas as terras, tivesse meirinho, juiz, almoxarife, carcereiro, provedor, vereador e sacerdote, os escravos tinham direito a comer e a vestir, mas não a receber dinheiro. Os descendentes dos Marques e dos Martins não contestaram, venderam os casais por dez réis o mel coado aos novos colonos, e partiram, uns apanharam a primeira nau de carreira para Goa, desceram na Guiné, penetraram no Cachéu e subiram a Medina do Boé, onde Amílcar Cabral, em 1973, trezentos anos depois, há-de elogiar uma família Marques Martins como a única família não racista do sul da Guiné-Bissau, outros deixaram tudo assim como estava, pegaram na roupa, nos instrumentos de trabalho e nos filhos e, com a animalaria, penetraram no Mato Grosso, onde construíram uma nova Castelo Branco, agora, sim, abertamente chamada Salva Terra de Magos, e aí edificaram a única igreja do mundo dedicada exclusivamente a Belchior, Baltazar e Gaspar. Quando, nos princípios do século XX se fez o levantamento dos companheiros de António Conselheiro, da revolta milenarista e sebastianista de Canudos, na Bahia, entre os nomes arrolados pelos capitães dos regimentos militares que dizimaram os sequazes do Conselheiro, muitos eram Marques e outros Martins, e inquiridos donde vinham, já sabemos, de Castelo Branco ou de Salva Terra de Magos. Agostinho da Silva, em Cachoeira, terra mais preta da Recôncavo bahiano, acocorava-se na soleira de granito velho de um sobradinho derruído, escutando a voz de um matuto arcaico e desgastado, de barbas de matusalém, pele fuliginosa de sujeira, soprando um cachimbinho de barro com erva-santa, narrando histórias de ninar sobre as eras do futuro, quando os pretos, os índios e os brancos fossem tão iguais como hoje entre si eram iguais as crianças no seu brincar de roda. Perguntado pelo nome, o matuto antiquíssimo dizia-se, uns dias, dar pelo nome de Marques, mas também podia ser Martins, e outros, Martins, mas também podia ser Marques.
Miguel Real.