7.2.06

Impasse

O carro avançara até meio da avenida e tinha parado em frente a um café, mas o homem estava a pensar (guiava com gestos automáticos) e só reparou no trânsito passado algum tempo. Certamente um acidente, concluiu, ao notar que havia pelo menos três autocarros à sua frente, e de um deles saiam todos os passageiros, que avançavam a pé pelo passeio. Um veículo, que não se avistava dali, começou a buzinar com fervor, como se disso dependesse a salvação da humanidade.
Bloqueado, pensou o homem. Tentou avaliar se poderia virar no cruzamento seguinte, mas tudo parecia parado, incluindo as ruas transversais. Recuar já era impossível. Havia quatro veículos atrás. Avançara demasiado. À retaguarda, à distância de trinta metros, havia um sítio para inversão de marcha, mas não poderia alcançá-la, pois o impasse instalara-se também atrás de si. Crescera um coro de buzinas, furiosas ou impacientes, enlouquecidas, insistentes. Até que tudo se suavizou, com o silêncio que representava a constatação de uma frustração impotente.
Um cliente do café saíra para ver o engarrafamento. Olhava, com ar pastoso, numa direcção que o homem não conseguia ver. Abriu a janela do lado do passageiro, chamou o indivíduo:
“Até onde está bloqueado?”, perguntou o homem.
“Isto está complicado, amigo. Tudo entupido até ali a cima!”, respondeu o cliente do café, que acenou um rápido cumprimento e seguiu caminho, a pé, ao longo do passeio.
O homem desligou o motor e decidiu esperar. Se fosse acidente, em breve estaria resolvido. Pensou avistar, ao longe, a farda de um polícia. Ressurgia a esperança de uma quebra do impasse, mas o tempo passou, nada aconteceu, e o homem regressou à mesma espera inútil. Estou atrasado, afligiu-se. E, por um instante frágil, reflectiu que aquela era uma metáfora da sua vida, o casamento bloqueado, o emprego sem futuro, a existência sem saída. Preso numa confusão do tráfego, sem alternativa senão uma espera interminável.
Caiu numa dócil sonolência. O tempo escoava-se. Então, algo se moveu à sua frente. E durante um instante, como se regressasse à sua vida um fio de esperança. O trânsito movia-se. O homem guiou de forma automática (enquanto meditava em outras coisas) e foi à sua vida.