28.10.06

astronauta alucinado

o astronauta alucinado recomenda, sorridente,
um encontro amoroso na rua do mercado
de modo a que os amantes possam estar conscientes
do valor passível de ser produzido num beijo
ou numa troca de palavras visivelmente apaixonadas.

assertivamente considera positivo e desejável
o equilíbrio das partes neste encontro já marcado.
o homem deve trazer casaco escuro, como os doutores,
e a mulher arranjar o cabelo de modo a fazer-se notar.
o valor do encontro é o desencontro de todas estas regras.

no conjunto das palavras que se encaixam nestas frases,
as que vão ser debitadas pelos lábios molhados dos amantes,
encontram-se aquelas que soam a frutos, sumos e liberdades,
ou seja, as palavras que são queridas por quem se ama.
o astronauta alucinado deseja-vos bom fim-de-semana.

25.10.06

Homenagem a Lorca

PREGUNTAS PARA LHE FACER EM VOZ ALTA A FEDERICO GARCÍA LORCA, IRMÁN


Ai Federico García! Ai Federico! Que te apartou do acolhedor refúgio da tua estirpe? Como foste acovilhar no tobo da ignomínia? Que te levou a rejeitar o fío vermelho que Ariadna te tendera? Que te levou a Granada?

Diz, Federico García. Que estranho instinto te fixo confiar em Minotauro? Quantas noites de lua para distinguir o urro da quimera do canto das sereias? De onde apareceu a fúria ancestral que rachou a geometria do teu corpo?

Ai Federico García! Ai Federico! Que se sente quando os fuziles percutem nas tuas costas? Que quando as balas laceram a tua pele de óleo e caramelo? Que após do estourado, do reverso da ração, da vértebra que secciona o centro e as cisternas? Que te esperava após do golpe imóvel, do sangue as gurgulhadas?

Diz, Federico García, com os teus versos inchados de alecrim e de mapoulas, de reflexos e luares, de sangue e caraveis: A que ule a incandescência do corpo queimado pela pólvora? A que arrecende a traição dos bem amados?

Eu quisera saber, Federico, percebes, Federico, a opacidade do diamante, o voo do colibri, as imagens que passaram trás das pálpebras. Eu quisera saber, Federico, que paixões, que escrituras, que delicias guardavam nas gavetas do cérebro?

Eu quisera saber, ai Federico! Quisera saber, mas é tarde.

23.10.06

[se alguma coisa eu permaneço]

se alguma coisa eu permaneço é esta vontade de subir pelas paredes
da rua onde nasci e levantar voo pela cidade até que possa encontrar,
seja longe ou seja perto, uma construção inacabada dos dias por passar.
vai-se o corpo pela luz dos dias feitos noite quase a meio,
acendem-se os candeeiros das casas fechadas às saídas depois de jantar,
abre-se a solidão em ramos de rosas que não se vendem nas floristas.

se alguma coisa eu permaneço é nesta certeza da morte sem fim
que se nos oferece a cada dia na cidade, porque é da cidade que falo,
até porque mais nada haveria para dizer que este som do trânsito
esvaíndo-se pelos esgotos que agora são tratados nos arrabaldes
e que já não chegam ao mar, não, já não poluem as vistas turísticas
nem incomodam o peixe que se grelha mesmo à beira da praia.

se alguma coisa eu permaneço é esta fotografia tirada há alguns anos
quando eu ainda era jovem e os sonhos todos me eram permitidos
mesmo aqueles que envolviam o amor, as árvores e os castelos.
agora persigo despido as vozes que me falam pela casa vazia
e o meu cheiro é o da loiça que ainda não foi lavada e já tem dias,
essa loiça que não desaparece, como desaparece o resto do meu mundo.

22.10.06

Downsizing

IV

O director deu de comer ao periquito, chamou-o a debicar no dedo, disse-lhe piu, piu, piu, abriu as persianas e exclamou sozinho, “cara al sol”, uf, como é difícil gerir uma empresa, que belo dia! (Acabei a história com este momento de calor, porque ela estava a arrefecer.)

III

Madalena, encontraram-na os filhos, três, no chão da cozinha, com os ladrilhos brancos de cerâmica no olhar, sem nenhuma carta ao lado – no meio dos comentários depois alguém falou de downsizing, mas outro alguém disse que não senhor, que quando a descobriram cheirava a gás. João Pedro foi visto a última vez junto ao rio, a deambular, mãos nos bolsos, com um sorriso só nalguns músculos da cara, nos zigomáticos e nos masséteres, e o olhar azul a boiar na água castanha. Rui encontrou que fazer, garantem os amigos, parece que arranjou uma escrita, ele não é capaz de estar quieto, é uma coisa personalítica – ainda bem, os nervos às vezes são bons para a sobrevivência, a gente enerva-se e vive mais tempo.

II

Bom dia, Madalena, vou direito ao assunto, como oportunamente a administração anunciou estamos num processo de downsizing, não, não me interrompa, o que tenho a dizer-lhe é pouco e não tem discussão, está dispensada, arrume a sua secretária, passe pelo serviço de pessoal, já falei com a dona Fernanda, e deixe a casa até ao meio-dia. É tudo.
Senhor João, já chamei o senhor Rui, chamo-o agora a si, para lhe dizer que infelizmente – creia-me, infelizmente, como sabe gostei sempre do seu trabalho, aliás já lho disse, não me lembro quando mas sei que o disse –, já não é preciso. Como fiz ao seu colega – eu não, a administração, que eu nestas coisas não sou ouvido nem achado, estou só a dizer-lhe o que me disseram a mim, ai as palavras –, a empresa dá-lhe dois meses de salário por ano para a deixar agora. Não, não é um despedimento, por favor, eu nunca faria isso – o nosso passado, temos um passado, fizemos uma caminhada juntos – é uma rescisão amigável, o senhor só aceita se quiser. Mas acredito que se a sua decisão for ficar, terá pensado nisso MUITO bem.
Well, Rui, como está? Gostei muito do seu último relatório, sabe? Há quantos anos está connosco? VINTE E CINCO? Ó homem, estava eu ainda na escola! É muito tempo, realmente. Os filhos? O Manel deve estar um homem!
Pois, o senhor deu-nos muito, e estamos muito reconhecidos por isso. Mas como sabe, é um homem de contas e de certeza que sabe, a crise económica, a subida do barril de petróleo – e certamente esse Saddam e esses terroristas do Fórum Social Mundial, o senhor já deve ter ouvido falar –, têm dado cabo da nossa actividade. Somos os últimos de uma época, meu caro, o senhor e eu, isto está tudo a mudar. A acabar.
Ora, é por isso que o chamei, e vou chamar ainda outros colegas, quero fazer-lhe uma proposta aliciante concebida para nós por especialistas de outplacement, que se fosse a si – e interprete-me o melhor possível –, aceitaria.

I

O director deu de comer ao periquito, chamou-o a debicar no dedo, disse-lhe piu, piu, piu, abriu as persianas e exclamou sozinho, “cara al sol”, uf, vamos a isto, que belo dia! Depois sentou-se, respirou fundo, abriu a agenda, capa de cabedal, chamou a secretária e pediu-lhe para convocar os senhores Rui, João Pedro e a Madalena, por esta mesma ordem!


20.10.06

Era uma vez ...

...um tigre de pelo encarnado que gostava de correr na floresta... um panda gigante que via tudo a preto e branco...Era uma vez... A memória das palavras, o ritmo delas, chegava-lhe de longe com uma nitidez surpreendente, tantos anos depois. Ao ritmo dos próprios passos na calçada. Eram sempre animais. Jacinta gostava de animais e inventava histórias para eles. Para ela, que a ouvia em silêncio, embalada na doçura da sua voz. Esquecia-se que não queria dormir, os olhos fechavam-se-lhe sem querer, a pensar nos pandas e nos tigres. No dia seguinte queria saber o resto, conta pedia ela, e Jacinta ria-se, que esperasse, à noite contaria. Era sempre assim.
Joana sorriu à recordação dessa infância iluminada pelas histórias da Jacinta, a ama, que vivia agora no lar de fachada amarelo-torrado, ao fundo da rua, estava mesmo a chegar.
Bateu à porta e esperou. A governanta descia a escada com vagar, a gemer das artroses, abria cheia de cautelas, dava os bons-dias e lançava-se numa ladainha que só parava lá em cima, à porta do quarto de Jacinta.
A dona Jacinta, benza-a deus, na mesma coitadita, lá vai carregando a cruz, veja a menina, é uma santa, sem um queixume, benza-a deus. Repetia aquilo, repetia, escada acima, e Joana refreava a pressa que trazia da rua e seguia-a em silêncio, a fazer que sim com a cabeça. Mas a outra não via, deixava-a à porta do quarto sem um aceno e perdia-se nos corredores da casa, sempre a murmurar. Benza-a deus, coitadita.
Quando ela entrava, Jacinta erguia a cabeça e Joana julgava ver um brilho qualquer iluminar-lhe o rosto por um momento. Mas depois o olhar resvalava-lhe, perdido, para o abat-jour branco do candeeiro, e daí para a imagem da virgem sobre a cómoda, passava pela menina-de-chapéu-de-palha-na-praia do quadro na parede, sem um sinal de reconhecimento, e ia pousar sobre as mãos abandonadas no colo.
Era Joana que falava. Contava as últimas graças do Diogo, já faz tão bem as contas, havias de ver, Jacinta, e o piano da Marta, artista aquela miúda, também gosta de histórias, hás-de contar-lhe aquela das zebras. Perguntava-lhe do apetite e da comida, do sono, à noite. Como te sentes hoje, Jacinta? Calava-se a dar-lhe tempo, como se ela fosse responder, e depois dizia ainda bem, gosto de te ver.
Vinha então a enfermeira, era a hora de medir a tensão e a temperatura. E depois dizia, naquela voz das enfermeiras, que agora são horas de dormir. Então Joana começava a contar, com a voz repousada, era uma vez um leão azul que vivia numa floresta muito longe... E continuava a contar, até que Jacinta adormecia.

19.10.06

O caso da loura espampanante


Sou considerado um duro na minha profissão, um detective privado à moda antiga. Por isso, para um tipo como eu, habituado ao sub-mundo, o caso da loura espampanante era uma simples briga caseira. Mas não me interpretem mal, quando um detective como eu se mete ao serviço, pois bem, mete-se ao serviço.
O marido enganado (baixo, gordinho, careca) era um homem de negócios e pagava-me mil dólares para arranjar fotos comprometedoras da sua mulher com o amante dela, um gajo qualquer, arraia miúda, que a louraça conhecera em Hollywood, quando fora actriz sem grande êxito. Um facto era indiscutível: ela tinha demasiadas octanas para o meu cliente. Vocês conhecem o enredo: o marido é peixe graúdo, mas a sereia anda na atmosfera a seduzir marujos de passagem.
Eu podia escrever argumentos de filme B, de tal maneira adivinho as histórias logo desde início, mas as conversas iniciais com o maridinho não me tinham preparado para uma lasca daquelas. A madama era um mulheraço de parar o trânsito. Podia, sem escândalo, ser declarada monumento nacional. E espantei-me: as coisas que Hollywood anda a mandar fora.
Mas não se engana cá o je. Nesse dia, ela saiu de casa com peruca e óculos escuros. Um disfarce quase infantil. E, claro, o perfil dela era inconfundível a uma distância de 200 metros: a forma como se movia na rua, ao mover aquelas ancas de fazer enlouquecer, tornava-a muito fácil de vigiar. Tinha o melhor par de pernas que já vi e foi nessa altura, quando a estava a seguir discretamente na avenida 56, no meio do tráfego da manhã, que percebi o interesse do velho careca, o marido enganado.
A gaja agiu bem, tentou despistar eventuais seguidores e, se tivesse sido um amador, a pista tinha-se perdido. Deu-me as voltas num hotel da baixa, ao entrar por uma porta e sair pela outra, mas eu tinha previsto a manobra e continuei a farejar a presa. Depois, entrou numa estação de metro, apanhou a primeira composição e saiu na estação à frente, mas no último momento, para detectar eventuais seguidores. Claro que eu tinha antecipado o truque e continuei a segui-la, já quase apaixonado por aquele movimento de ancas, uma verdadeira máquina hipnotizadora.
Por instantes, até me imaginei enrolado com a dama, quando ela entrou numa casa de banho pública e eu fiquei fora à espera. Foi ali que ela mudou de disfarce, uma boa manobra para despistar amadores, mas não me deixei enganar. A louraça era uma excelente actriz. Saiu na forma de velhinha insignificante, com saquinho das compras e tudo! Comecei a admirar o petisco!
No fundo, bem lá no fundo, sou um duro de coração mole! Continuei a segui-la, mas agora com extrema admiração. Quase tive pena de ser obrigado, por contrato, a sacar as famosas fotos comprometedoras. Subimos pela avenida 75, a loura espampanante a fazer de velhinha indefesa, e eu a 50 metros atrás, a apreciar aqueles sinais inconfundíveis das ancas num movimento sensual.
Ela subiu toda a 75 e meteu pela 43. Numa precaução que quase me traiu (foi brilhante, devo dizer!) parou num bar da esquina e enfiou um copo de bourbon, olhando manhosamente para ver se tinha sido seguida. Só depois se dirigiu para o hotel onde estava o amante.
Não vou entrar em pormenores, mas descobri que a lasca subira para o quarto 545. O número é irrelevante. O que importa é perceber que havia uma escada exterior e que se podia, com habilidade, colocar uma câmara que me permitia fotografar o quarto. Ainda não tinha chegado lá, quando me cai um tipo em cima. Houve uma luta terrível e quase caí cinco andares. Então, reconheci as fardas das brigadas de intervenção do FBI. Foi a surpresa que me fez baixar a guarda e levei um uppercut nos queixos que me deixou meio abananado. Só acordei em frente ao meu amigo Denzel Washington, que é um dos comandantes do FBI na luta anti-espionagem.
"O que estás aqui a fazer?", perguntou o Denzel.
Não havia razão para lhe ocultar a verdade:
"Estou a seguir uma loura que se encontrou com o amante, um antigo actor de Hollywood, no quarto 545".
"No quarto 545 houve um encontro entre dois espiões soviéticos", disse o Denzel.
"Devem ter sido os ocupantes anteriores. Estes, eram dois amantes. Uma loura e um actor falhado", expliquei.
"A tua loura é uma velhinha de 70 anos que roubou o segredo da bomba atómica", afirmou o Denzel.
"Não te deixes enganar pelo disfarce. Ela é uma excelente actriz. Não sei porque razão Hollywood não a aproveitou. É muito mais boa do que a Olivia de Havilland".
"E eu sou mais bonzinho que o Errol Flynn..."
"Pois, tu és o Denzel Washington".
Impaciente, o meu colega do FBI abriu uma porta do quarto e lá estava, senda na cama, com os seus óculos pendurados no nariz (parecia uma professora primária) uma velhinha com o saco de compras. A mulher que eu seguira, depois da casa de banho. Havia dois enormes gorilas do FBI a seu lado, com cara de poucos amigos.
"O ‘amante actor’ era um coronel do KGB chamado Petrov", explicou-me o Denzel.
"E onde está a loura?"
"Qual loura?"
Nesse momento, percebi tudo! Quando esclareci o equívoco com o Denzel, ainda corri até à casa de banho pública. Fiquei em frente à porta umas duas horas, à espera que a loura espampanante saísse, mas ela não saiu. Já devia ter saído muito antes. Onde estaria a essa hora? E aproveitei aquele tempo para começar a redigir mentalmente o meu relatório: "A sua esposa tem um comportamento exemplar, fez compras, passeou pela baixa. Tenho esta boa notícia: as suas suspeitas de infidelidade não se confirmam".

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A tremura dos 40

A MÁQUINA DO TEMPO party
40 ANOS DO JOÃO VILLALOBOS

4 DÉCADAS DE MÚSICA = 4+1 dj's: Miguel Cadete, Miguel Somsen, Nuno Costa Santos, Luís Villalobos + Fever Pitch

Quando: 4 de Novembro, Sábado, das 23.00 às 05.00h.
Onde: Grémio Lisbonense, Rua dos Sapateiros, 226, 1º

Informação relevante: Só a primeira bebida é à borla. As restantes nem por isso. TRAGAM QUANTAS PESSOAS QUISEREM. ISTO VAI SER O CAOS! :)

18.10.06

Ser poeta é que era bom

Houve um tempo em que pensei escrever poesia. Não tinha muito para dizer, mas sabia perfeitamente como começar: “Está na hora do anteontem”. Isto porque pelas ruas da Estefânia andava um bêbedo pouco tradicional, que em vez daquele ar emborrachado tinha uma figura efeminada, com uma camiseta desabotoada até à segunda prega horizontal da barriga, à mostra um fio de contas sobre um peito depilado. Usava um chapéu pouco másculo, mole, e um pendente na orelha direita
(ou seria na outra?)
com um berloque que era uma obra de arte, latão martelado, um molho de missangas, croché de fazer inveja a muitas avós.
Chamávamos-lhe o Lixívia Delicada, apesar das unhas, um nojo tremendo, que com os anéis disfarçava.
(Admira como não lhos roubaram logo naquela noite na estação do Algueirão, a dos agarrados que tomara eles serem bêbedos).
Este gostava de desabafar a bons pulmões o que a alma lhe soprava no momento. Zunia o que lhe vinha à ideia, variava, tinha imaginação, criatividade. Mas quando passava da hora certa do abastecimento, quando na ruazinha pedonal do centro as pessoas se cruzavam para a esquerda e para a direita evadindo-se do emprego, e as moedas não davam para a garrafa, aí ele fincava os pés no pavimento de granito, empurrava bem as costas contra a parede do Jornal de Sintra, e em passinhos atrás ia subindo, até ficar de pé muito direito e fazer-se ouvir na perfeição: “Está na hora do anteontem!”.
Eu achava a tirada poética e cheguei a falar-lhe no projecto dos versos, para meu próprio espanto.
- Começa por ‘Enseadas de sombra’ – diz-me ele. – Percebes? En-se-a-das de som-bra.
E pôs-se a soletrar aquilo aos berros. A expressão conhecia-a eu: fecha um capítulo da Imortalidade do Kundera. Por acaso adoro-a, é lírica, cativante, ainda bem que alguém a inventou. Mas não é minha e eu tenho o meu brio:
- Podes-te calar com isso?! Onde é que ouviste isso?
- Foi na rádio… Ou então inventa uma história: Tanana, tal e tal… enseadas de sombra, ponto final acaba assim.
Não lhe dei troco. Não queria escrever história nenhuma e muito menos plagiar a inspiração de outros. Mas a propósito, ocorreu-me que ‘lindamente’ era palavra que me fazia azia.
(E ainda faz: ggzzzzz...)
Numa belíssima história, se lá pelo meio usamos ‘lindamente’, estraga-se tudo. É o mais ranhoso advérbio de modo…
- Da moda… - corrigiu o Lixívia.
- Não, de modo… advérbio de modo da snobada: “Tá bom?”, “Tou lindamente”. “As crianças, bem na escola?”, “Nem por isso, mas esses sapatos ficam-lhe lindamente”.
- Se calhar vivem num mundo lindo… - interpretou ele com um sorriso aéreo nos olhos semi-fechados pela terceira cerveja.
Ignorei, era para desconversar.
Novembro anoitecia e arrefecia. Anos antes, estaria eu a sair do emprego de contabilista-principal num instituto. Antes das reformas da administração pública, quando desataram a enxotar milhares para os excedentes, e daí para os excedentes dos excedentes. Embarcaram-me logo na primeira leva. Ao fim de três ou quatro machadadas no vencimento, mais algumas ilusões sob a forma de medidas compensadoras, vi-me sem conta bancária, mais tarde sem casa por incumprimento da hipoteca, depois sem dinheiro de bolso e, num instante de distracção, vi-me sem mulher, o que foi estranho, pois tinha-a há bem pouco tempo, coisa de ano e meio, talvez.
Depois o governo espremeu as privadas, tornando impossível fugir à crise por aí. Ora como dos pais pouco herdei e com a minha irmã não me dou, nunca sequer a visitei na Venezuela, deitei mão a trabalhecos de pedreiro e outros.
(Era onde eu andava ontem, quando veio cá e não me viu.)
Hoje considero-me na metade ascendente da curva: já vivo num quarto alugado, não tomo banho só ao fim-de-semana… Certos dias é que ponho aqui o chapéu no chão, sucedendo ao esganiçado dos pregões. Gosto de observar os tipos do banco à saída para o almoço, mato saudades dos fatos que já usei.
Bom, bom era ser poeta, condizia com esta situação, falta-me é talento. Mas pelo menos sou um bêbedo digno: uso trajes discretos, ninguém me ouve impropérios e, sobretudo, tenho ar emborrachado.
(Quando é que sai esta entrevista, já agora?)

16.10.06

continua a chover intensamente em budapeste

continua a chover intensamente em budapeste
e eu aqui apoiado nos meus cotovelos contra a mesa
conto algumas ervilhas que descasquei durante a tarde.
num pequeno rádio a pilhas oiço notícias de lugares
onde nem tu nem eu estamos e sorrio devagar como o tempo,
esse tempo que alguns cientistas dizem não existir.
talvez fosse uma novidade para nós, os que não lemos,
mas insisto em não acreditar em quase nada do que me chega assim
por este pequeno rádio a pilhas, nem sequer na música.

continua a chover intensamente em budapeste
e os agricultores passam com os seus carregamentos
de uvas para dentro das adegas onde se encobrem do frio.
o meu avô tinha umas botas grandes e escuras
onde uma vez guardei alguns berlindes e um papel em branco
para que ele não se sentisse sozinho ao chegar ao trabalho.
queria poder dizer-lhe agora algumas palavras
como tardes de sol, automóveis, fintas bonitas de um jogador
ou então apenas sorrir-lhe e falar-lhe de budapeste.

continua a chover intensamente em budapeste,
essa cidade cheia de nomes de ruas e de pessoas que desconheço
porque nunca fui até à cidade de budapeste.
apoiado nos meus cotovelos contra a mesa
conto algumas ervilhas que descasquei durante a tarde
e enrolo mais um pouco de tabaco numa mortalha.
no pequeno rádio a pilhas, uma voz lenta e sofrida
fala de uma criança que vai crescendo entre palavras
e eu sorrio uma vez mais encharcado na chuva de budapeste.

12.10.06

Para trás, pá, para trás, que te magoas!

O silvo da gaita-de-beiços rompeu o tempo e chegou até mim, acabava de sair do banho, e foi um instante até apanhar o roupão e a ir à janela. Lá estava ele, a silvar outra vez o pequeno instrumento de plástico, amarelo e verde, às ondas, cada onda uma nota, a fazerem eco, a rolarem, brancas, no ar, ainda as ouço. “Ó amolador, afia facas, tesouras, canivetes, arranja chapéus, ó amolador!” – pregava a seguir.
Perto, um miúdo de calções castanhos e camisa amarela, cruzada por uns suspensórios metade de elásticos e outra metade de cabedal, olhava para as faíscas que saltavam da roda abrasiva, braços atrás das costas, quieto, a mexer-se só quando os pequenos lumes o picavam na cara.
“Para trás, pá, para trás, olha que te magoas!” – avisou-o o homem enquanto dava ao pedal, que dava à roda traseira da bicicleta, que dava à rodela que afiava uma faca. Por debaixo do selim, bocados de chapéus-de-chuva atados ao molho, varetas, quantas ferrugentas!
E eu à procura da roupa, onde está ela, e do gravador, onde está ele? Ah! Aqui! Mas, ai, não tem pilhas. NÃO TEM PILHAS! Arranjem-me duas das pequenas! Mas de que tipo, e eu DAS PEQUENAS, muito pequenas! Mas das quais, e eu das AAA, das abaixo das normais, depressa que ele vai-se embora! NÃO HÁ NENHUMAS! O MP3! Tirei as duas do MP3, pu-las no gravador.
O homem ainda lá estava, a soprar outra vez no tempo e a atirar para o ar “ó amolador, afia facas, tesouras, canivetes, arranja chapéus, ó amolador”, mulheres da vizinhança a saírem as portas abraçadas a facas cheias de bocas e chapéus de varetas partidas, e a repetir, outra vez, agora a olhar para cima, para a janela atrás da qual eu estava, para mim, “para trás, pá, para trás, olha que te magoas”, mas eu sem sair dali, hipnotizado pelos vaga-lumes.
Da casa em frente o senhor Amílcar afastou a cortina, chamado de certeza, ele também, pelo pregão, que velho que está, que velho que estou!
Os amoladores apareciam sempre no Outono, quando o tempo começava a acastanhar-se e a cair. Estamos no Outono. Estou no Outono.
A última vez que vi um foi em Lima, vejam lá, em Lima, sim, no Peru, num Outono, também, aí, na rua da Silvia Westphallen, sim, essa, a escultora, que também os ia ver à janela e largava as pedras para ir ter com ele. Lembro-me que me perguntei como é que foram lá parar, eu a pensar que eles eram só daqui!
O miúdo de calção cinzento e camisa amarela, de suspensórios cruzados nas costas, ainda lá está, parte agora atrás do homem, do silvo e do pregão.
Saio a porta, desço a escada a dois e dois, vou junto dele, paro, ligo o gravador, ele sopra na gaita-de-beiços e chama as pessoas, registo o som e o anúncio para o ouvir quando já não houver estações no ano. “Ó amolador, afia facas, tesouras, canivetes, arranja chapéus, ó amolador!” Olho para a roda de amolar e as faíscas. “Para trás, pá, para trás, já te disse, olha que te magoas!”
Já em casa, no sofá, arfo da corrida, ligo o gravador. NADA! Ai, as pilhas! Trocadas! Recoloco-as, saio a porta, desço as escadas a dois e dois, volto a sair. O homem já não está. Corro pela rua, mas dele, nada! Procuro-o nas vielas, nos becos, pergunto por ele, bom dia dona Mariana, para onde foi o amolador, mas ela que não viu nenhum, embora de certeza algum tenha passado, pois, repare, começou a chover, e que eu fosse para casa, vá para casa, menino, que se constipa!
De novo à janela, nenhum Amílcar do outro lado, só chuva, dentro do gravador nada, só o tempo a despegar-se dos pedúnculos e a cair. E no entanto ouvi o homem e o pregão, e a avisar um menino de calções castanhos todo ele olhos para as faíscas que não se aproximasse, que poderia magoar-se.
– “Para trás, pá, para trás, que te magoas!”

11.10.06

palavras preferidas

aquela palavra de que tu costumavas gostar ou não ou não
três vezes quatro quantos eram debaixo do guarda-chuva
quando a água começou a escorrer pelos teus ombros despidos
sombras aguentadas em frança se fosses pequena outra vez
eu podia pedir-te ainda ao ouvido um rebuçado dos que trazias no bolso
ou não ou não tinhas palavras preferidas não era?

aquela palavra que ficava bem nos poemas que não escrevias
depois depois de ser mais que hora de estares na cama e pernas esticadas
sobre a mesa da sala a ver o mesmo filme todas as noites, era assim
que começava a história do teu livro ou do teu país,
como se isso tivesse alguma importância para o que estamos agora
a falar a falar ou não ou não a dizer ao ouvido, isso.

aquela palavra outra vez mas de outra maneira diferente -
afinal de quantas sílabas precisas para acordar sorridente e sair da cama
e sair do quarto e da casa e do prédio e da cidade e do mundo,
aprender a voar mesmo sem asas porque as ideias são como a chuva
apanham-te quando atravessas a estrada a caminho do café
molham-te o casaco todo e mais quantas palavras preferidas tiveres tu.

9.10.06

dilema nº 21

se te perguntarem pelo poema, diz-lhes
que me esqueci de o escrever, talvez
pela hora já tardia em que me o pediram
ou por ser segunda-feira e toda a gente saber
que as segundas-feira não são dias bons para escrever
poemas.

6.10.06

4.980


diz-me que o peso da culpa não é significativo em tudo isto, que o facto dos candeeiros terem acordado a rua em simultâneo não constrói prova reveladora, que masturbar-me à tua frente, fazer-te transpirar sem nos tocarmos, não é fundamental para uma aprendizagem séria das consequências fisiológicas do amor

o sentido do limite no meio das pernas e o cheiro quente do bolo de iogurte a queimar no forno enquanto eu
- eu vou sempre querer perguntar porquê



Ontem.
O sentido do cérebro demasiado pesado levou-me ao ridículo: dei por mim nua na cozinha, estendida sobre a mesa de mármore preto com a cabeça apoiada na balança dos bolos, a balança de casa utilizada na medição rigorosa das gramas de açúcar,

das gramas de farinha,
do peso azul dos ovos para os bolos de domingo
- a medição séria e cientifica do peso do meu cérebro sem ti cá dentro porque morto



Ao estranhar a medição do corpo, o prato de metal pediu-me para desviar o cabelo e ficar quieta.

Foi dito no silêncio: 4.980 gr.

Eu engoli-me para que ninguém soubesse.

2.10.06

Se um músculo decidir morder a cauda de outro músculo
e nem um grito, que heróico silêncio esse.

Só, ribombando de neurónio em neurónio
uma memória física viajante ou, no entender dos entendidos:
Dor psicossomática.

Se um pensamento à frente de outro andar, sempre mas sempre sem se desviar,
até onde iremos parar?

1.10.06

História breve de um laranjal

- Tivesses tu tido a mesma eloquência há coisa de quarenta anos, e hoje ainda haveria o laranjal dos avós que tanto te encantava…
- Elo…quê?, mas que é isso de eloquência? Não me assomes com palavras arrebicadas, eu…
F. e A. saem para o bafo do meio-dia satisfeitos com a reunião com a equipa da fábrica de conservas de tomate. Convenceram a empresa a tirar o fito da área de sobreiros junto à estrada nacional, trocando-a por outra com solos de classe C, também pertença da família. Vindos, o segundo ali mesmo da terra e o primeiro do seu escritório de economista em Benfica, confluíam aos setenta e tal anos, finalmente, neste interesse comum: preservar o montado de sobro herdado dos avós.
- Digo eu que usaste das palavras certas para lhes dares a volta, Armindo, é isso que eu digo – esclarece Fernando.
- Tá feito, é o que conta! Tu aplicas lá como entenderes o dinheiro do subsídio ao montado e eu durmo tranquilo. Não te aproveite a ocasião para me passares a mão pelo lombo.
- Ora! Um copo além na esquina, queres?
- Não quero copos nem muita conversa. Quero fugir para debaixo de um chaparro e gozar enquanto cá ando a paz que a gente conquistou aqui hoje.
O mais novo varre com um suspiro o casaredo quente do largo:
- Armindo! Ainda sentido com a história do laranjal? Ao fim de tantos anos? Quanto é que já não correu por baixo das pontes…
- Que tenha corrido. Mágoas não são águas. A minha, olha que ainda me agua a cabeça muitas noites. Isso do tempo, lá em Lisboa é uma coisa e aqui é outra.
- Precisava de dinheiro, tenta compreender. Queria ampliar o escritório, progredir na carreira... Sabes lá o preço de viver em Lisboa…
- Sei o de viver aqui.
F. destranca com o automático as portas do Lancia, desaperta energicamente o nó da gravata de seda e atira-a para o interior. A. limpa com um lenço de algodão grosso o suor do pescoço e remexe com a bota um veio de pó acumulado na berma do passeio.
- … E quando cheguei com a proposta – prossegue F. - tu ficaste a olhar para mim como se eu fosse transparente, mudo, um grande silêncio, não te opuseste à venda da parcela…
- Não me opus?! – Há penumbras de outro tempo sacudindo o sol a pino. - A gente para se opor tem que coicear? Abalas um dia de ano novo com a Maria Antónia e só ouvimos falar de vocês seis anos depois para reclamares o laranjal!
- Um hectare e meio, Armindo, apenas um hectare e meio numa herdade de setenta e nove…
- E quantas sombras, meu cabrão?! – A. expulsa a zanga com cada fio de suor. - Quantas sombras rasas no chão desse hectare, que eu e a Maria Antónia vivemos palmo a palmo antes de ela saber que Lisboa tinha um canto à espera dela?... O laranjal era da família, mas pertencia-me a mim, a mim, o laranjal.
- Irmão, a vida avança…
- Não avances mais tu no assunto.