29.9.06

em teoria

sim, em teoria, todos temos o mesmo direito a existir
enquanto lá fora, na direcção das paredes das nossas casas,
outras tantas pessoas andam com os pés enterrados na lama
e as caras sujas de fome e falta de vitaminas essenciais ao sorriso.

sim, em teoria, todos achamos que o importante é o bem-estar geral
mesmo que isso implique uns quantos pretos a boiar no mediterrâneo
e muitas famílias perdidas em continentes que pensamos terem sido inventados
para o nosso turismo idiota de ficar parado dias inteiros ao sol.

sim, em teoria, sentimos ter a garantia de um futuro abençoado
pelo sistema de segurança social em bancarrota que nos deixaram,
em cofres de bancos defendidos pelos melhores advogados,
os nossos avôzinhos que foram para o Brasil a vinte seis de abril de setenta e quatro.

sim, em teoria, sentimos ter a garantia do melhor serviço em todas as cadeias de lojas
que aceitem os nossos cartões visa sem validade porque o nosso nome vem nos jornais,
mesmo que algumas pessoas sejam despedidas todos os dias trinta do mês
porque as dívidas dos clientes impedem uma boa relação com os fornecedores.

sim, em teoria, vamos todos acabar por ser felizes mais dia menos dia
porque se não for o capitalismo há-de ser a religião ou a caridade ou o euromilhões
ou o casamento rico do nosso filho que andou a estudar para doutor das regras
e agora vive desregradamente à custa dos outros para nos fazer felizes a nós.

sim, em teoria, vamos todos acabar mortos mais dia menos dia
e como não levamos nada desta vida a não ser as vidas todas que para ela trouxemos
talvez o melhor seja comer e beber tudo o que nos colocarem sobre a mesa portuguesa
e ao sair esperar, sempre de sorriso nos lábios, que o tipo que vem atrás pague a conta.

NEGREIROS

És um alucinado!, vociferou o banqueiro Marinhas para Francisco Félix de Sousa, atropelando-o com a notória barriga assanhada, os braços alongados, as mãos em riste, as unhas agigantadas, espetava-lhe caneladas com a biqueira lustrada dos sapatins, de canutilhos de ouro, és um alucinado!, repetia, escarrando na cara de Francisco Félix de Sousa, estragaste-me o dia, o Governador dignou-se iluminar a minha festa de fim de ano e tu vens para o portão exigir o dinheiro que só na tua cabeça te devo, o banqueiro Marinhas ia compondo os dois laços de seda do lenço da gravata, que os repelões tinham desarmado, entre os empurrões soltara-se a arrecada de meia pérola preta encastoada na cabeça do alfinete de prata, que prendia o lenço ao peitilho tufado de tela com debruns de fio de ouro, viste, caiu-me a meia pérola preta, clamou colérico o banqueiro Marinhas, apontando com o dedo demonstrador para a camisa de cambraia, o banqueiro empinou a pele durácea da barriga sob a cinta de cetim azul, garrotou os ombros de Francisco Félix de Sousa com as mãos enganchadas e, calculando a força e o alvo, desferiu uma cabeçada entre os olhos de Francisco Félix de Sousa; este sentiu-se levantado no ar, os olhos raiaram-se-lhe de sangue negro, o céu azulíneo da abóbada do firmamento convertera-se numa cova escura, Francisco Félix de Sousa esforçou-se por abrir os olhos, pulava-os, distendia as pálpebras descomunalmente, divisava um horizonte de trevas reticulado de fiapos roxos brilhantes, é o sangue a esteirar-se, pensou, cegado de sangue, Francisco Félix de Sousa deixou o corpo abater-se, sentiu nas cruzes o vértice do primeiro degrau, logo outro abrindo-lhe a cabeça, o quente macio do sangue da testa adocicou-lhe as comissuras dos lábios, estou perdido, pensou, só vivi metade da vida e já morro, não é justo, meu Senhor dos Navegantes, o corpo de Francisco Félix de Sousa rabeava pela vasta escadaria de pedra de lioz da mansão da ladeira da Barra do banqueiro Mário Marinho Marinhas; tanto trabalho me deu esta escadaria e o vagabundo do Félix vai cagá-la de sangue, bramiu o banqueiro, incomodado com os gritos caprichosos de sua esposa, d. Marinhas, que do interior exigia a sua presença, era o seu orgulho de proprietário do solar da Barra, a opulenta escadaria de entrada, a pedra britada, serrada, lixada e aparada em Setúbal, vinda inteirinha como lastro no porão de um dos navios mercantes do banqueiro Marinhas, numerada para a montagem e aparelhagem com preceito em São Salvador da Bahia-de-Todos-os-Santos, e o alucinado do Félix emporcalha-me os degraus a duas horas da chegada do Governador, os rebordos agudilíneos dos degraus massacravam a cabeça de Francisco Félix de Sousa, talhando-a de lenhos, que regurgitavam fios de sangue, empapando-lhe o corpo de vermelho, é um alucinado!, reiterou o banqueiro do cimo da escadaria, de corpo arqueado e ofegante, desassossegado com os riachos de sangue que o corpo rolado de Francisco Félix de Sousa ia abandonando pelos lances de escada, é um alucinado!, disse, de novo, como se exorcizasse o demónio, um alucinado e um vagabundo! Atraídos pela gritaria do banqueiro Marinhas, os mamelucos e mulatos da sua guarda pessoal acorreram ao fundo da escadaria, largando os postos de vigilância do parque, é o Félix, vozeou o banqueiro Marinhas para os escravos, incomodado pelos acenos de d. Marinhas que, de cabeça sobressaída de um janelo, exigia a presença do marido, ouvia-se na escadaria a sua voz trémula, indecisa sobre o exacto lugar do oratório de ébano sacramentado em Goa pelos dedos místicos de São Francisco Xavier, ostentando, na curva da portinhola, uma mancha ressequida entre a calva e o resplendor de São Thomaz das Índias, queimada pela dedada da cabeça do polegar ardente de São Francisco, que ali distraidamente encostara o dedo, d. Marinhas chiava de dentro, macerando as mucamas, que, irresolutas, a rodeavam aos saltinhos, cada uma propondo um exacto lugar para o oratório, nenhum satisfazendo o desejo de d. Marinhas, que, agastada, fechara o leque, virara-o ao contrário e desferira o cabo de nácar na cabeça do escravo que desenrolava um tapete, vai chamar o teu dono, depressa!, ganiu aflautinada a boca de d. Marinhas, mas não fora preciso, o banqueiro Marinhas irrompera pelo salão, acomodando o enovelado do lenço da gravata em torno do pescoço, fixando a meia bola preta da pérola no peitinho, teria de lustrar os canutilhos dos sapatins, que aborrecimento, ordenara que os seus cães de fila dessem uma surra de pau a Francisco Félix de Sousa, se o matassem fizessem-no desaparecer, o melhor seria enterrarem-no na Mariquita, à embocadura do Rio Vermelho. Félix de Sousa tinha razão, o banqueiro devia-lhe o custo de cinquenta escravos, mas a vida estava mal para todos, no último carregamento perdera cem pretos, atirados ao mar, a maioria vivos, dissera-lhe o mestre-negreiro, o corrimento sanguíneo nas fezes não enganara ninguém, ou atirávamo-los ao mar ou chegávamos todos mortos à Bahia, sugados pela desinteria, porventura o brigue perdido, clamara o mestre, desculpando-se pelo prejuízo; desde há dois anos que o banqueiro Marinhas negociava directamente com os fornecedores de escravos do Daomé, deixara de se socorrer de intermediários de São Salvador, como Francisco Félix de Sousa, que encareciam a “peça”, interessava-lhe vender bandanadas de escravos para as plantações de algodão e os engenhos de cana-do-açúcar do sertão, aqui o lucro via-se, quase trezentos por cento para além do preço por escravo no cais de São Salvador, o Francisco Félix de Sousa era contra, apostava na perfeição, traficava os escravos de corpos rijos e saudáveis, especializava-os em profissões, que exercitavam durante seis meses antes de serem vendidos no mercado, os pruridos do Félix encareciam o tráfico, importante era vender os escravos às carradas, os novos donos que os ensinassem e lhes cuidassem da saúde, quantos mais vendesse maior o proveito, isso era o que interessava.
Tombado da escadaria, o corpo de Francisco Félix de Sousa desabou sobre a relva inglesa do jardim do banqueiro Marinhas, sentiu a humidade empapar-lhe as costas, descerrou as pálpebras e desorbitou os olhos, catando luz através da pasta de sangue que lhe cobria o rosto, o sol baqueava sobre Itaparica, escurando o céu, a primeira estrela da noite chamejou e Francisco Félix de Sousa fixou o olhar na alvura cintilante da estrela, vejo a luz de uma estrela, disse para si, saboreando na garganta a gosma do seu próprio sangue, a estrela pulsa para mim, pensou Francisco Félix de Sousa, tenho de viver para seguir a luz daquela estrela, Francisco Félix de Sousa sentiu-se levantado pelos ombros, arrastado para o caminho de piçarra, o cordão de mulatos e mamelucos fechava-se à sua volta, lobrigava vagamente visagens de jagunços e cabras-do-mato, de tezes cicatrizadas pelo punhalim e lábios queimados de cachaça, as narinas bufando como reses tresmalhadas, a pele coriácea do pó do sertão, tenho de viver para seguir a luz daquela estrela, disse mudamente Francisco Félix de Sousa; alçou a cara e projectou os olhos ensanguentados para cima, buscando a paz que só para si brilhava no veludo redondo do céu escurecido, sentiu a primeira pancada, fora o Melgaço, toma, mesmo no ombro direito, disse este, depois o Óbidos, toma, mesmo no ombro esquerdo, a seguir o Sintra, pumba, em cheio nas costas, o Santarém atira para baixo, nos quadris, o Alfama aponta para o dorso, aprimorando as pancadas nas costas, o Mouraria vai para os joelhos, os dois ao mesmo tempo, um deu de si, rangeu, o Abrantes acerta nos pés, o Luso esborracha a barriga, aproveitou uma abertura das mãos do Francisco Félix de Sousa e deu-lhe na barriga, em pleno, já este começa a vomitar, o Tomar beneficia o pescoço e dá duas de seguida, os outros protestam, é proibido, é uma porretada de cada vez, depois passa ao seguinte, sempre cada vez mais rápido, o Setúbal, açulado, nunca mais chegava a sua vez, estrondeia, vá, continuem, para não se perder o balanço, justifica-se, o Coimbra, mais mole, deu uma porrada nas coxas, ora, ó Coimbra, as coxas têm muita carne, não se parte nada, desculpem lá, disse este, o Setúbal foi directo à espinha, até fez troque, mas não partiu, neste jogo é proibido partir a espinha e a cabeça, avisou o Luso, o chefe, o Estremoz voltou aos quadris, o Vichy, mameluco de pai francês, bateu forte na arcada do peito, três costelas foram ao ar, de certeza, voltou ao Melgaço, que insistiu no peito, passou para o Óbidos, que repetiu as costas, para o Sintra que voltou às pernas, para o Santarém, que despachou as mãos, as duas, elas estavam juntas, assim não se perde tempo, o Alfama, que forçou o dorso, o Mouraria insistiu nos joelhos e o Abrantes nos pés, o Luso inclinou-se para os ombros, estavam muito saídos, era preciso baixá-los um pouco, e passou ao Tomar que se conteve, era para dar duas mocadas mas deu só uma, na clavícula, o Coimbra quis partir as canelas, não sei se consegui, desculpou-se, e palpava a cachamorra, tenho de mudar de porrete, disse para o ar, o Setúbal, para ele é só espinha, não o suficiente para partir, mas fica toda desconjuntada, o Estremoz, pumba, em cheio na barriga, agora sai sangue, às golfadas, o Vichy estava distraído a olhar para a lua, acabada de nascer, encardida, de luz aziaga, a espreitar azar, voltou ao Melgaço, ao Óbidos, cada vez mais depressa, ao Sintra, ao Santarém, ao Alfama, ao Mouraria, ao Abrantes, ao Luso, ao Tomar, ao Coimbra, ao Setúbal, ao Estremoz e ao Vichy, e de novo ao Melgaço, sempre cada vez mais depressa, sus, sus, rápido, rápido, vai um, passa a outro, mal um porrete se levantava já outro cacete desabava, o corpo de Francisco Félix de Sousa esparramava-se pela cascalheira do chão, desconjuntado, incapaz de se levantar, o mameluco do Luso, filho de pai reinol e mãe tupinambá, chefe dos jagunços do banqueiro Marinhas, aprestou-se a desferir a derradeira cacetada, directa ao pescoço, entortar a gorja do Félix e afogá-lo lentamente no seu próprio sangue, proferiu, a boca castanha saburrosa, ansiando pelo picante da cachaça. Félix de Sousa, inconsciente, abriu meio olho e sorriu com a meia boca que lhe obedecia, a estrela continuava no céu, cintilava forte entre o manto enegrecido, piscava como se arfasse, pulsando, protegendo-o e sussurrando-lhe, segue-me, dizia ela aos ouvidos surdos de Francisco Félix de Sousa, segue a minha rota, eu sou a tua estrela, o meu fogo é a luz do teu destino, Félix viu o pau de goiabeira do Luso elevar-se, a fileira dos outros matutos de arrocho para baixo, de lábios selvagens, olhar bruto, vigiando a porretada final, Francisco Félix de Sousa cerrou a meia-pálpebra, fixando no céu do pensamento o clarão alvo da estrela que nessa noite de fim de ano de 1797 brilhara só para si, prometendo-lhe mais meia vida, só três dedos da mão direita lhe obedeciam e Francisco Félix de Sousa agarrou a estrela entre os dedos, prometendo ao Senhor dos Navegantes que seguiria a rota daquela estrela se sobrevivesse à macetada final, dá-me mais meia vida, Senhor dos Navegantes, articularam os lábios imóveis de Francisco Félix de Sousa, deixa-me experimentar a paz que nunca tive, Senhor dos Navegantes; o Coimbra bradou para o Luso, encolerizado, ou arreias presto ou arreio eu, escaqueiro-lhe a cloaca da garganta com as mãos, e ameaçava substituir o Luso, nunca sentira na pressão dos dedos as articulações de uma gorja a ceder, faltava ao Coimbra a experiência de asfixiar um homem, e o Luso, pressionado, orgulho de chefe posto em causa, fincou as duas mãos no macete de goiabeira, calculou a pontaria à luz esconsa da lua, com um pé virou a queixada de Francisco Félix de Sousa para o lado direito, para que a garganta, alongada, se abrisse à bordoada, eihááá, gritou, ganhando força, eihááá, repetiu, escancarando a boca vermelha e os lábios pretos grossos, as asas do nariz abertas, sugando ar, o branco dos olhos alvejando, olhar fixado para baixo, mirando o centro da garganta de Francisco Félix de Sousa, eihááá, clamou pela terceira vez, de mourão prestes a desabar - do escuro, entre o renque de bananeiras, o estrondo de um bacamarte troou no jardim do banqueiro Marinhas, riscos fulminantes de pólvora e chumbo zumbiram na noite e o grito de guerra do Luso arrastou-se-lhe na boca, de língua tesa, agonizando, o corpo do Luso bamboleou, desprovido de força, dobrado pelos joelhos, olhos fixos e apagados, tombando sobre o corpo de Francisco Félix de Sousa, botas cascalharam no terreiro e o estampido furioso de uma voz retumbou, quem se mexer é homem morto!, dez homens armados avançaram, um branco e nove pretos, o branco aferrava o bacamarte, que reenchia de pólvora, e os negros catanas de aço inglês, de lâmina fina como faca, mas rija como massa de ferro de uma bigorna; é o cabrão do Simão, pensou Francisco Félix de Sousa, lançando meio sorriso ao céu, no fundo da sua mente a luz da estrela latejou, confundida com as faces de Simão, e os três dedos da sua mão direita desprenderam-se, lassos, desinquietos, pacificados, dois pretos avançaram para o corpo de Francisco Félix de Sousa, rolaram o corpo do Luso, que, estirado, de perna esquerda aos repelões, agonizava, levantaram Francisco Félix de Sousa pelas pernas e pelo tronco, arrastaram-no para o portão e espojaram-no de bruços na garupa de um cavalo, Simão e os sete escravos, de espingarda apontada e catanas alçadas, perfilados, recuaram como um bloco, atravessando o portão, os cavalos resfolegavam encostados ao muro, cheirando o sangue que pingava do corpo mole de Francisco Félix de Sousa, dois pretos calmaram-nos, eihááá, eihááá, disseram baixo, afagando-lhes o pescoço, Simão pulou para o cavalo que carregava Francisco Félix de Sousa, esporeou-o e gritou, eihááá, eihááá, e o matalote dos salvadores lançou-se à galopada, afastando-se da ladeira da Barra, ganhando a estrada para a igreja de Nossa Senhora da Piedade; Francisco Félix de Sousa, a cabeça balouçante a chocalhar na coxa suada do cavalo, lançou obliquamente o meio olho que lhe obedecia para o redondel do firmamento, a via leitosa do céu cobria-se de numerosas estrelinhas latejantes, como brilhantinhos de lata na túnica azul-escura do Senhor dos Navegantes, pensou Félix, sorrindo com a meia boca, porém, entre todas, uma estrela tremeluzia mais rijamente, parecendo só piscar para o olhar mortiço de Francisco Félix de Sousa, seguirei o caminho da tua luz, entaramelou a sua meia boca, viverei mais meia vida, a minha fortuna mudará e experimentarei a paz que nunca tive.





Miguel Real,
Fontanelas, 30 de Setembro de 2006.

28.9.06

Prémio Fernando Namora/Estoril Sol

O romance "A Voz da Terra", de Miguel Real, recebeu o prémio Fernando Namora/Estoril Sol. O júri decidiu por unanimidade e destacou a "qualidade literária, bem como a reconstituição histórica, a riqueza da linguagem, a elaboração dos afectos e a efabulação". Parabéns, Miguel.

27.9.06

Um dia parei junto a um lago, coberto de nenúfares. Tu não estavas lá. Nem alguma memória de nós. Apenas a paz da música ausente, cortada pelo som de longínquos motores. A calma pairava sobre as águas e, dentro dela, as suas raízes movendo-se em lentas carícias sem sentido. Como um vento subaquático debaixo da pele de cada planta respirando, inaudível e leve. Tonto de silêncio regressei. Tonto de silêncio. E líquido como esse caminho de regresso, até uma casa por erguer.

26.9.06

fim de uma era

"e depois era de noite
e eu falava de sexo ao telefone
com o luis filipe cristóvão
e tocava-me
e ele desligava
o porco"

25.9.06

Devoluto

Ao fundo da minha rua existe um prédio devoluto, que pertence a um banco. Está quase em ruínas e vazio. Tem quatro andares, seriam oito ou dez apartamentos, não sei bem, mas todas as janelas estão partidas, o tecto parcialmente tombado, as portas tortas e inúteis. Não é muito fundo. Não há saída pelas traseiras, pois dá para um muro do pátio. Em baixo, havia duas antigas lojas, cheias de lixo e onde, por vezes, alguns vagabundos dormiam.

Digo havia, porque alguém tapou com tijolos e cimento as duas lojas de baixo.

Eu ia a passar por ali, trazia na mão os sacos com as compras do dia, por isso caminhava devagar, rua acima (a rua tem certa inclinação e já sou velho, por isso andava devagar). Então, ao passar pelo prédio devoluto, reparei nos tapumes de tijolo e parei ali, para observar melhor. O cimento ainda estava fresco. Que diabo, pensei, foram rápidos a tapar isto...

Foi então que ouvi um rumor distante, uma voz rouca que balbuciava algo. E parecia vir do interior.

Poisei os sacos e procurei testemunhas, para partilhar essa minha estranha descoberta.

Estava um rapaz à espera da namorada, na esquina e chamei-o, veja lá, veja se ouve alguma coisa, e aproximou-se também um segurança do edifício público mais ao fundo da rua, chamei-o igualmente, venha cá, senhor, veja lá se ouve alguma coisa. O rapaz quase colou o ouvido ao cimento fresco, mas fez que não com a cabeça. Estive toda a noite a dançar na discoteca, é natural que não ouça nada, explicou ele (embora eu não tivesse pedido qualquer explicação ele sentira-se na obrigação de me dar uma). O segurança era mais arguto, mas não encostou o ouvido ao cimento, com medo de sujar a farda. Depois de um bocado, disse: Há, de facto, um barulho qualquer, mas pode ser o vento a assobiar na janela de trás, às vezes isso lembra uma pessoa a uivar. Afirmara aquilo como se pedisse desculpa por não concordar comigo, embora eu não tivesse dito nada. Foi nessa altura que eu referi a minha teoria sobre o assunto: isto pode ser alguém que ficou lá dentro, um sem-abrigo, por exemplo, que estivesse aqui a dormir enquanto fizeram a parede.

Eles olharam para mim, desconfiados. Ninguém ia fazer uma coisa dessas, disse o segurança, como se não acreditasse em erros de engenharia catastróficos. E se ficasse alguém lá dentro, fugia por trás, objectou o rapaz que esperava a namorada. Olhe que não, olhe que não, contrariei, lembro-me destas lojas e não têm saída por trás.

Ficaram a olhar para mim, alarmados. Colocaram o ouvido de novo no cimento. Não ouvimos nada, disseram os dois, ao mesmo tempo, como se fossem membros de um coro afinado. Um barítono, o outro tenor.

Fomos à volta, mas a porta estava bloqueada por tijolos e a segunda loja também. Tudo fechado, aqui não entra ninguém, exclamou o segurança, sem lógica, pois o problema era sair, não era entrar.

Dito isto, feita mais uma audição atenta, concluíram as duas testemunhas que se tratava de falso alarme. O segurança desculpou-se com a insegurança do seu edifício público: ainda me entram por ali os ladrões, (como se o problema fosse entrar). E o rapaz fingiu ver a namorada do outro lado da rua e escapou em grande velocidade. Fiquei eu e os meus sacos. Encostei o ouvido aos tijolos cimentados que tapavam a antiga entrada da loja térrea e fiquei ali a ouvir, a princípio nada, depois um vago rumor, como se fosse um sem-abrigo emparedado ou, com mais atenção, o vento a assobiar numa frincha. Ainda pensei em chamar uma autoridade, mas depois lembrei-me de que havia futebol na TV e estava quase na hora e ainda tinha de subir três andares...

Nos dias seguintes, toda a gente ouviu uns barulhos estranhos que chegavam do prédio entaipado. Depois, foi descendo a frequência do ruído. Até que acabou. Agora, o bairro voltou a estar tranquilo...

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22.9.06

Um gato ruivo
fósforo que salta
e os meus braços abertos.
Tímidos somos,
como quem sofreu já demais.
Esperando alguém que nos agarre
apesar dos sinais.

21.9.06

Antes de Começar

As crianças brincam. Não é a inocência que as faz balouçar.A inocência reserva-se talvez para alguns animais das ilhas, uns poucos engenheiros e cientistas,para os nomes aqueles nomes que figuram nas extensas listas de presença ou de género estatístico fixadas tanto faz se em vitrinas ou dossiers de arquivo, para alguns doentes mentais tolerados pela imbecilidade familiar, sua bondade ou negação, e reluz no primeiro olhar com que a mãe cobre o seu menino, já lavadinho e morno, salvando-o para sempre das intempéries das classes sociais, daqueles rios a lá onde molha os tornozelos, poças no centro das praças universitárias em que a solidão finalmente estará pronta a atacar. Vai agasalhado, apertou os atacadores, tem bateria no telemóvel? - Pergunta-se. Assim será o dia em que deus deixara escorregar das suas mãos trémulas e azuis todos o grãos de areia que a humanidade do ocidente lhe rezou:
A esperança, as doenças púbicas e intimas, as doenças intimas tão publicas, curas, fomes e gafanhotos, o choro, o capital, os telhados que voam se de vidro se de zinco, vontades e todas as outras excessivas formalidades, histerias cêntricas resultantes do desejo moderno de ir mais e mais longe ou de pudor, esse conserto. Ninguém se reserva formal só porque a mamã ensinou, toma nota, é-o mesma medida em que se portava bem três ou quatro dias antes do natal e pronto. Pegando na bíblia ilustrada do Doré ou engraxando os belíssimos sapatos.
Ninguém é inocente, não deixes que este pensamento bondoso te acompanhe. Nem as crianças que brincam, nem a corda que sustenta o baloiço, nem a energia das solas enquanto deixas solta, pleno voo dos cabelos e do chinelo, a palavra romance. Vai e Vem.
-Será este o último dia de verão? Verbosas miúdas com vento nos vestidos, inflados como promessas. Oh as pernas ficam aqui logo a seguir ao tronco. Verificaremos no primeiro dia de chuva, quando a terra estiver húmida e a relva suja e sem mosquitos, verificaremos no silêncio do quarto de banho o crescimento atempado das minhas maminhas. Prontas a sobressair, para ti, já na próxima primavera.

A cor das lágrimas

Não lhe consegui ver a cor das lágrimas. Quando digo cor, digo o que lá vai dentro, dissolvido com os sais e outros químicos que o cérebro da pessoa fabrica no meio do desgosto. Digo o que as impulsiona, as lágrimas, e depois é arrastado com elas. Não lhe vi a cor.
No primeiro dia triturava palavras tão doentes como os actos de que se arrependia e devolvia-me sílabas enrodilhadas em lágrimas e saliva e desespero. Dessa vez nem pensei em cores, quais cores, chorei eu também à vista de tanto sofrimento descolorido.
Mais tarde chorou-me ao telefone, à janela do carro, chorou à porta de casa e no maple pequeno da sala, com a luz do candeeiro de pé
(o do braço articulado e sininhos de barro pendurados)
a iluminar-lhe os soluços. E eu ouvindo, sabendo que ajudar era deixá-las correr, as lágrimas
(o reflexo da lâmpada deslizando-lhe cara abaixo à boleia das mais grossinhas)
até que por fim desse uma fungadela de coragem e fosse à sua vida mais leve.
Nos muitos dias que durou aquele choro, eu não resisti a tentar adivinhar-lhe a cor das lágrimas, pois enquanto me demorasse nessa pesquisa cromática, aliviava-me da carga daquela dor tão entornada sobre mim.
No primeiro dia, o remorso foi-lhe expulsando pelo nariz um resumo dorido e amassado de um período em que a tinha tratado mal, muito mal, fungava, em que a sonegara ao resto do mundo privando-a da liberdade de ser. Tudo por medo, tremechorava, tudo infestado pelo medo de perder um amor grande como nunca, uma pessoa tão querível.
Foi no mesmo dia em que o meu espanto
“Que homem é esse dentro de ti que eu não conheci?”
animou um estranho ciclo da água e as lágrimas que desciam voltaram para trás, volveram a montante, realimentaram a fonte para daí, de novo, se desprenderem numa enxurrada de desânimo.
Passados dias entrou de óculos inconsolados, magro, ombros mais desnivelados do que o costume
(era evidente que a escoliose também chorava o abandono pela mulher).
Desesperava por uma palavra, insulto que fosse, que um mês inteiro não trouxera ainda. E chorava baixinho:
Pouco tempo após a festa de casamento dos sonhos de cada um, ela começara a espaçar as idas ao cabeleireiro e descurava argumentos na barra do tribunal, desleixo que confundira amigos, colegas e familiares. Porque já dentro do casamento de sonho, ele dera em aspirar-lhe o dia-a-dia aos bocadinhos, para dentro de si. Isto mo confessou logo no primeiro telefonema, o das lágrimas sem cor e do medo por amor, e num ou noutro dos monólogos que se seguiram nos meses que também se seguiram, expurgando assim primeiro o remorso, depois a raiva, e o remorso outra e outra vez.
Até que certa noite ela o apanhou a trabalhar longe. Esvaída de sonhos e de forças, convocou o apoio incondicional da madrinha de casamento e deitou mãos à obra: num passe rápido, desandou de casa com roupas, loiças, cortinados, o sofá pago por si, uma arca antiga e o tapete dos pés da cama encomendado por medida. Abdicou de uns talheres relíquia, abandonou as chaves numa tacinha do hall e calou para sempre o telemóvel.
Nessa noite encerraram-se os contactos entre as duas famílias, por decisão unilateral irrevogável, para estupefacção e tristeza de metade dos interessados.
Ela entrincheirou-se na casa de infância, onde de imediato se ergueu à sua volta, obra de um regimento comandado pela profissional madrinha de separação
(talhada para ganhar a vida gerindo friamente divórcios alheios)
uma fortaleza de surdez e de silêncio, de reclusão medieval.
(Trinta e tal anos, século XXI, Lisboa, uma mulher ainda veste o papel de vítima impotente para mostrar a um homem que a via da possessão desemboca sempre num beco de má saída).
O que ele chorou mais tarde na casa sem cortinados, acolhido numa espiritualidade inventada à pressa, revisitando os erros cometidos naquele passado tão curto, erros de todos os dias, pequenos egoísmos, falhas maiores. O que ele implorou para romper aquela ausência tão absoluta, que tornava a luta tão desigual e desumana; o que suou para expulsar o mercúrio líquido da dor que lhe enchia as veias.
Mas o sonho maltratado de duas vidas tinha o destino habilmente traçado: desmoronou-se de vez assim, sem direito de apelo, e foi depois mantido por terra, tenazmente, com muitos pés sobre o pescoço agonizante, impedindo-o de ressuscitar.
Tudo sem uma palavra. Trabalho limpo de profissional.
Com o tempo, ele acabou por nivelar os ombros e seguir:
“Esta nódoa que se me colou à alma, esfregando sairá?”
Ela voltou à vida meses depois e recomeçou a advogar as sortes dos outros. Entre os dois ficaria um vazio, não fosse a madrinha, prestável, fraternal, ocupá-lo desinteressadamente: aspirando o dia-a-dia dela, aos bocadinhos, para dentro de si.

Quanto à cor das lágrimas, pois bem, hesito em confessar, mas digo-vos que com isto tudo me perdi, e não sei como me desenvencilhar da coisa das cores com que comecei o texto
(porque a sonhei)
mas com que não o consigo acabar…

Também fiz a minha guerra

_ Tínhamos um jacarandá no jardim, e uma cobra-capelo que se aninhava por ali, junto ao tronco... Foi há tanto tempo. Disse aquilo num murmúrio quase inaudível, parecia falar consigo própria, como se eu não estivesse ali.
Dora tinha os olhos semicerrados, focados na distância, muito para além da pequena sala frugalmente mobilada, e ficou assim um longo momento. Silenciosa, muito quieta, a lembrar, talvez, correrias de crianças, a relva encharcada depois das chuvas, o cheiro intenso da terra, a cor viva das flores do jacarandá, as gargalhadas de um tempo feliz em que tudo parecia tão fácil.
_ Parecia tudo tão fácil, disse ela com um suspiro fundo, uma ruga a cavar-lhe a testa. Depois soltou a torrente das recordações, a voz suave, como se afagasse as palavras.
A poucos dias de tudo se desmoronar... Havia as árvores alinhadas ao longo da estrada, o calor logo pela manhã, a empapar a roupa leve, o eterno cheiro do caril que se escapava das cozinhas e ficava a pairar nas ruas, misturado com mil outros aromas de frutas exóticas e flores carnudas. Manga doce e papaia, abolins vermelhas, entrançadas em grinaldas. A miudagem a trepar às palmeiras, a chapinhar nas poças lamacentas, correndo atrás dos gatos que se escapavam num alarido para dentro das casas e dos jardins. E o som etéreo das cítaras nas casas de chá, ao fim da tarde.
_ Também fiz a minha guerra. Houve um momento de hesitação na voz de Dora. Olhei-a com atenção. Nessa altura ainda não conhecia, como agora, os seus modos lentos, o brilho intenso do olhar na face escura. Esperei.
Ela concentrou-se por um momento na chávena que segurava nas mãos, depois levou-a ao lábios e bebeu um gole do chá perfumado de Ceilão que acabara de fazer. Hábito de outra vida, de outras paragens.
Bebi também, e como às vezes sucede quando o tempo se suspende antes de uma revelação, detive-me a estudar um detalhe sem importância na porcelana delicada, um traço vermelho meio sumido, a lembrar uma serpente retorcida.
_ Nunca vimos a cobra, mas o jardim era dela, protegia a casa. Nesse tempo, todas os jardins tinham uma, para dar sorte. Dora a recordar. Um dia, o encantador veio conversar com ela, usava um turbante vermelho, continuou no seu tom suave, a memória a materializar-se em sombras pela sala. Ou seria a tarde a avançar sobre os prédios, lá fora?
_ Só ele podia falar com as serpentes, tinha as marcas secretas nos pulsos, e conhecia a sua língua de assobios. A cobra respondia-lhe do seu esconderijo com os mesmos silvos, mas não quis mostrar-se. “Não a matem, senão a fêmea persegue-vos até à morte”, disse o encantador de serpentes à nossa mãe. Não sabíamos que havia outra, mas faz sentido se pensarmos nisso, reflectia a minha amiga no seu vagar. Hesitou de novo, cerrou os olhos por um momento e então contou tudo como quem alija um peso de muitos anos.
_ Quando o exército deles entrou na cidade e ocupou as casas tivemos que meter à pressa uma roupa na mala. Fugimos de noite, no primeiro avião em que arranjámos lugar. Mas nessa tarde lembrei-me da cobra no jardim, e das palavras do encantador.
Enquanto os pais e os irmãos corriam entre os quartos e a sala, colhendo ao acaso um livro nas estantes, um quadro, uma túnica, Dora desceu sozinha até ao jardim. Tentou assobiar como ouvira fazer ao encantador, mas a serpente permaneceu silenciosa no seu esconderijo. Talvez não percebesse aqueles assobios desajeitados, pensou, mas continuou a chamá-la, até que uma cabecinha escura com dois olhinhos curiosos emergiu na erva, perto das suas pernas.
_ Não pensei em nada. Ergui a machete que tinha levado comigo, e ouvi a lâmina silvar. Foi a única vez que vi a cobra.
Depois, Dora ficou em silêncio e eu percebi que o nosso chá tinha chegado ao fim.

18.9.06

O abismo da vida humana


Ao Domingo, junta-se toda a família em casa do meu irmão mais velho, que tem uma vivenda (é construtor civil e a casa dele é suficientemente grande para todos). Tenho quatro irmãos, todos casados (sou o único solteiro), Às vezes vai também o meu tio, que é o meu patrão, dono da barbearia onde trabalho. Mas não era o caso. Estávamos só nós: eu, os meus irmãos e o meu pai.
Comemos muito bem (a minha cunhada é uma excelente cozinheira) e o meu pai, que é viúvo (a mãe morreu há dois anos) estava muito feliz e começou a contar uma história, de uma namorada que tinha tido antes de conhecer a nossa mãe. Nós rimos, imaginando o namoro; e tentámos adivinhar a razão do namoro não ter sido bem sucedido. Alguém perguntou isso mesmo, porque razão não tinha casado. O velho fez uma pausa, ficou a olhar para nós, subitamente com ar sério. Podia perfeitamente ter casado com ela, disse ele, não aconteceu por simples acaso. Então, depois de afirmar isto, o meu pai ficou com uma expressão que só lhe tinha visto no funeral da minha mãe, como se estivesse a ver o fundo de um poço e, lá dentro, almas aprisionadas.
Nenhum de nós estaria aqui, disse ele. Só eu, talvez, e não seria aqui, mas noutro sítio. E percebemos que imaginava uma vida alternativa, em que tinha casado com essa mulher, tido outros filhos e outros netos. Estaria a almoçar com essas outras pessoas, em outro sítio qualquer.
Olhámo-nos, subitamente conscientes de que éramos os filhos de uma circunstância irrepetível, uma teia de acontecimentos só possíveis uma única vez, num único tempo e espaço.
Senti um súbito arrepio e penso que o mesmo sucedeu aos meus irmão. Pensei, de repente, em todas aquelas pessoas que podiam ter existido, mas que nunca tinham existido; talvez melhores do que eu, talvez piores... E, por um infinito segundo, também vi o abismo que é a vida humana...
Cláudio Silva
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Lição do Mestre Tzao (1)

Eis a transparência, a inutilidade das metáforas.
Chegado aqui,
cada palavra é o que ilumina vivê-la.

Mais,
ou menos do que isso,
apenas o jogo perigoso dos sentidos.

17.9.06

LUXÚRIA

LUXÚRIA

Manelinho, enquanto me deito conta-me uma história, rogava o Visitador do Tribunal do Santo Ofício ao escrivão da provedoria de São Salvador. Manelinho, descalçando os chapins de pele de gamo europeu, abriu a boca a deixou sair as palavras a que se habituara.
O primeiro a ir à Mesa do Tribunal, ainda no Colégio dos Jesuítas, ali, ao Terreiro de Jesus, foi o vigário de Matoim, no Recôncavo, Frutuoso Álvares, um clérigo que toda a cidade sabia que não havia pai de mancebo que dele não fugisse, levando o efebo para mais longe de Matoim do que de amendoim. Foi-lhe dado juramento dos Santos Evangelhos, em que depôs sua mão direita, sob cargo dos quais prometeu dizer a verdade. A verdade era que de há quinze anos a esta parte o vigário Frutuoso cometera a torpeza dos tocamentos desonestos com quarenta paroquianos, pouco mais ou menos, abraçando, beijando, a saber, com Teocrato de Aguiar, de dezoitos anos, com quem teve tocamentos com as mãos em suas naturas, ajuntando uma com a outra e havendo polução da parte do dito mancebo duas vezes, e assim também tocou no membro desonesto a António de Siqueira, com este moço não houve polução, e assim também teve congresso por diante ajuntando os membros desonestos um com o outro, sem haver polução, com um tal Medina, castelhano, que por aqui passava de carreira, e outra vez com este mesmo teve abraços e beijos e tocamentos no rosto, e assim com outros muitos moços e mancebos, mas todos brancos, branquinhos, nada de mulataria e negraria, que a fruta do Frutuoso não é o terreiro do pardal, onde todos bicam e ninguém vê, e tendo com uns ajuntamentos por diante e dormindo com outros algumas vezes na cama, e tendo cometimento a alguns pelo vaso traseiro, sendo ele o agente, e outros sendo ele o paciente, consentindo o Frutuoso que o cometessem, lançando-se de barriga para baixo e pondo em cima de si os moços, um deles sendo natural de Braga, filho de João Álvares, ora picheleiro, ora paneleiro, e há vinte anos consumou o Frutuoso, em Lisboa, o pecado de sodomia com Francisco Dias, estudante, metendo o seu membro desonesto pelo vaso traseiro deste, dormindo com ele por detrás como um homem dorme por diante com uma mulher pelo vaso natural, e tendo sido descoberto foi degredado para as galés, indo parar a Cabo Verde, onde também foi acusado por tocamentos torpes e por apresentar uma demissória falsa, pelo que foi enviado preso para a Lisboa, a Prostituta, onde pelas ditas culpas foi sentenciado a degredo eterno nestas partes do Brasil, e já na Bahia foi acusado pelo mesmo pecado, por o ter cometido com o rapaz Diogo, que ora é casado com a padeira Pinheiro, de que saiu absolvido por não haver prova de culpa, a padeira Pinheiro jurara que toda a noite o Diogo ficara de tocaia ao forno do pão. O bispo Alexandrino Eminência descartou-se do Frutuoso nomeando-o pároco das terras do confim chamadas Matoim, vai para lá, ó Frutuoso, e toma juízo, disse o bispo Eminência Alexandrino. Mas logo o Frutuoso foi acusado pelos irmãos Alberto e Roberto Poderoso, ora mestres-de-açúcar no Recôncavo, e deste caso saiu condenado por cuniaria, que pagou, e em suspensão das ordens por certo tempo, que já levantada lhe foi, claro, a falta de clérigos exige, o vicariado precisava de nomeações, o bispo Eminência o admoestou muito, ó Frutuoso, logo tu que és sacerdote e pastor de almas, e tão velho, pois que contas sessenta e cinco anos pouco mais ou menos, e não cessas de cometer tantos actos torpes em ofensa de Deus Nosso Senhor. Assine aqui, Frutuoso Álvares, a confissão de culpa, eu, escrivão da provedoria e no caso tabelião do Santo Ofício, assino aqui, Manuel Francisco, e Vossa Reverência – sussurrava Manelinho, lambendo a orelha esquerda do Visitador-Mor -, assina aqui, aqui nesta linha, eu mesmo fiz a linhinha, não, não é pilinha, por quem sois, fico atemorizado quando olho para a face rebrilhante de Reverência Vossa, não digo coisa com coisa, é aqui a assinaturazinha. Do leito, o Visitador-Mor erguia a mão direita, disposta como se entre os dedos assentasse a pena de escrever, assinava no ar o seu nome, com a mão esquerda apagava o borrão de azeite de baleia da cela, esta escurecia, como as trevas do inferno, o Visitador-Mor assentava as mãos invisíveis na cabeça de Manelinho, procurava-lhe a língua, puxava-a, chorando, dizia, tenho uma comichãozinha na barriguinha que só passa com lambidelas de gato malhado, como não há gato malhado na cela coça-me tu, meu certo secretário, a barriguinha com a tua linguinha.

Manelinho, enquanto me deito conta-me nova história, rogava o Visitador do Tribunal do Santo Ofício ao escrivão da provedoria de São Salvador. E Manelinho, acostumado, descalçando os chapins de pele de gamo europeu, abriu a boca a deixou sair as palavras a que se habituara.
Confissão de denúncia de Guiomar d`Oliveira, cristã-velha, natural da cidade de Lisboa, filha de Isabel Jorge e de Cristóvão d`Oliveira, meirinho das viagens da Índia, trinta e sete anos mais ou menos, casada com Francisco Fernandes, capitão-do-mato, morador nesta cidade de S. Salvador, e confessando disse que haverá quatro anos que conheceu nesta cidade Antónia Fernandes, natural de Guimarães, cristã-velha, viúva, mulher que foi de um Fuão da Nóbrega, homem que ia por dispenseiro nas naus de Lisboa, que a denunciante já conhecia da capital, conheceu por ser taverneira, morando nos Cobertos, debaixo das casas de Luís César, na Tanoaria, a qual veio degredada por alcovitar sua própria filha, por nome Joana da Nóbrega. E tomaram-se de amizade as duas, a denunciante e a denunciada, e vendo a dita Antónia que Guiomar era mal casada de seu marido, arengou-lhe sobre uns demónios que favoreciam os desejos de quem os invocasse, e a Guiomar veio a descobrir que a sobredita Antónia falava com os diabos e lhes mandava fazer, aos mafarricos, o que ela queria, e uma vez lhes mandara matar um homem e o homem apareceu morto, e que, em Santarém, onde antes vivera, dera aos diabos um escrito do sangue de seu dedo, no qual se lhes entregava, e que eles lhe ensinaram muitas coisas de feitiçaria, e então a Antónia lhe ensinou que tomasse três avelãs, ou, em seu lugar, três pinhões, furados com um alfinete, e tirado o miolo fora, os recheasse de cabelos todos do seu corpo, seu dela, denunciante, e unhas de seus pés e mãos e rapaduras das solas dos pés, e assim mais com a unha do dedo pequeno do pé da mesma Antónia Fernandes, e que assim recheados os ditos pinhões os engolisse e que, depois de lançados por baixo, os desse, e a denunciante assim fez, e a Antónia torrou os pinhões e os fez em pó, o qual ela, denunciante, o deu a beber a João d`Aguiar, lavrador em Itaparica, e isto lhe deu para ele se amigar dela e de seu marido e que os não apertasse muito pela dívida do aluguel de sua casa, onde viviam, e outrossim lhe deu também a dita Antónia outro pó de osso de finado, o qual a denunciante deu a beber a seu marido para ser seu amigo e serem bem casados, e também lhe ensinou que a semente de homem, dada a beber ao próprio, trazia afeição e ela assim fez, depois de terem ajuntamento carnal e cair do seu vaso, deu-a a beber a seu marido, misturando-a com vinho, e mais confessou que a dita Antónia tinha um vidro em que estava uma coisa que falava e respondia quanto queriam saber e que em certos dias da semana cuidavam de pôr cebola e vinagre perto do dito vidro porque aquilo que nele estava era amigo desse comer, e também lhe disse que ia tornar-se amigo de um clérigo da Sé, que lhe faria feitiços para o atrair, para que o dito clérigo lhe desse os óleos do baptismo, porque os desejava muito para dar aos diabos, e também para untar os beiços, e, com eles untados, no acto venéreo, beijar na boca aos homens leigos e na coroa aos clérigos, porque com isto ficavam tais que não se podiam mais apartar de sua conversação, sua da dita Antónia, e também lhe ensinou que, no acto carnal desonesto, se a mulher dissesse na boca do homem as palavras de consagração, que eram cinco, hoc est enim corpus meum, o fariam endoidecer de amor, ao homem, e que também sabia umas palavras que encantavam qualquer homem, as quais palavras eram, fuão, eu te encanto e reencanto com o lenho da vera cruz e com os anjos filósofos que são trinta e seis, e com o mouro encantador, que tu te não apartes de mim, e me digas quanto souberes, e me dês quanto tiveres, e me ames mais que a todas as mulheres, e ela denunciante disse estas palavras muitas vezes enquanto seu marido dormia, e disso pede misericórdia a esta Santa Mesa, e também lhe disse a dita Antónia que fora uma noite a Vila Velha, termo desta cidade, cortar a mão a um negro que lá estava enforcado, e que o diabo vinha falar a ela, Antónia Fernandes, em figura de homem, acompanhado de muitos cavaleiros, e que se ela, denunciante, quisesse ser feiticeira como ela, Antónia, que faria que o diabo lhe falasse em figura de homem, para que ela não tivesse medo, mas a denunciante sempre fazia o sinal da cruz e invocava o nome de Jesus, e a dita Antónia fugia, e dizia a dita Antónia que tinha um diabo que era seu fiel servidor, chamava-se Antonim e fazia tudo o que ela lhe mandava, e que a sua filha Joana Nóbrega, moradora em Lisboa, também era feiticeira e tinha um diabrete que se escondia no anel que trazia ao dedo, o qual chamava Baul ou Baal, e que a sua dita filha dormia com os estrangeiros por detrás que vinham ao reino, consumando o nefando pecado de somítigos [sodomia], porque lhe pagavam bem, e tem a denunciante que confessar que o pó e a semente de homem deram resultado que desde então não mais João d`Aguiar os apertou com o pagamento e que seu marido agora é bem maridado com a denunciante, e sobre a denunciada Antónia Fernandes mais a denunciante disse que outras pessoas também sabiam de tudo isto, como João Ribeiro, de Paripe, Manuel Rodrigues Ribeiro, mercador, Maria Pinheiro, mulher de Simão Nunes Dutra, e Gonçalo Dias, cónego, e Francisca Pinheiro, padeira, todos moradores nesta cidade, com os quais a dita Antónia tinha amizade e conversação. Assine aqui, a denunciante, Guiomar d`Oliveira, e eu que passei e transcrevi, Manuel Francisco, ora na qualidade de escrivão do Santo Ofício, e eu, que a tudo inquiri e presidi, Visitador-Mor, puro por dezasseis vezes de ascendência, sem mácula de sangue infecto de mouro ou judeu.
Bela história Manelinho, muito instrutiva, estimei a parte em que a denunciante disse que “a semente de homem, dada a beber ao próprio, trazia afeição” – e a semente alheia, Manelinho, trará afeição mútua? Vamos experimentar esta noite, Manelinho, apaga a luzerna.

Manelinho, enquanto me deito apetece-me nova história, rogava o Visitador do Tribunal do Santo Ofício ao escrivão da provedoria de São Salvador. E Manelinho, acostumado, descalçando os chapins de pele de gamo europeu, abriu a boca a deixou sair as palavras a que se habituara.
Era uma cristã-velha, de nome Maria Lourenço, de Viseu, filha de António Pires, caldeireiro, e de Maria Francisca, já defuntos, ela tem quarenta anos, salvo coisa, e é casada com António Gonçalves, também caldeireiro, puxa-lhe para os caldeireiros, foi delatada, por quem não sabemos, rabiscos anónimos deixados ao portão da igreja de São Domingos. E, confessando, disse que haverá quatro anos estando ela em uma roça, meia légua desta cidade, pertencente a Francisco Pires, pedreiro, foi ter com a mulher deste, Felipa de Sousa, e a dita Felipa se fechou em uma câmara com ela, depois do jantar, pela sesta, e lhe começou de falar muitos requebros e amores e palavras lascivas, melhor ainda do que se fora um rufião à sua barregã, e lhe deu muitos abraços e beijos, e, enfim, a lançou sobre a sua cama e, estando ela, confessante, de costas, a dita Felipa se deitou sobre ela de bruços com as fraldas de ambas arregaçadas, e assim com seus vasos dianteiros ajuntados, e estiveram assim ambas deleitando-se até a dita Felipa, que de cima estava, cumpriu, e assim fizeram uma com a outra como se fora homem com mulher, porém não houve nenhum instrumento exterior penetrante entre elas mais que somente seus vasos naturais dianteiros, e na noite seguinte Felipa foi contumaz, mas a confessante não deixou e disse a Francisco Pires, que é homem velho, que não deixasse sua mulher sair da cama, mas a dita Felipe queixou-se de dores na madre e fez levantar o dito homem para que ela, confessante, a viesse curar, mas a confessante não foi, e a Felipa Sousa gabava-se de ter desonesta e nefanda amizade com Paula de Siqueira, mulher do contador, e com Paula Antunes, mulher do abegoeiro, e com Maria Pinheiro, mulher de Simão Nunes Dutra, o ourives, e que, em uma sesta, se fechara com Paula de Siqueira e esta lhe dera um anel de ouro, e que assim todas lhe faziam, à Felipa, muitos mimos, e só a confessante, Maria Lourenço, a desprezava, e que se fosse preciso lhe dava mil réis, até porque já o deu a uma moça casada com um ferreiro alcorcovado, que mora ao Mosteiro de S. Bento, o Bentinho Marreca, para que esta deixasse a dita Felipa cumprir, e deixou, e mais confessou que ela, Maria Lourenço, pelejando com seu marido, com cólera e agastamento lhe chamou somítigo [sodomita], dizendo que ele a dormia por detrás, e os vizinhos ouviram, porque aqui em S. Salvador há sempre vizinhos a ouvir, porém que isto é falsidade e o dito seu marido não é tal, nem tal lhe fez nunca, e que pode ser que algumas pessoas lhe ouviram que ela disse isto com fúria, mas é tudo falso. A confessante suplica misericórdia desta Santa Mesa, admoestada que vai não recometerá nefando acto e espera penitência que o Visitador-Mor, pensando e concluindo, dita ser: que Maria Lourenço reze 20 coroas a Nossa Senhora, que é o mesmo que dizer 300 Pais-nossos e 200 Ave-marias ao longo de todas as semanas até ao final do ano, que é o mesmo que dizer 6000 Pais-nossos e 4000 Ave-marias, e se for contumaz que seja degredada para a cafraria de Angola, que lá não há mulheres brancas e a Mesa não acredita que à confessante se juntem as pretas, que causa nojo e horroriza a nossa natureza, vá assine e dê-se por muita sorte, Maria Lourenço, e eu que escriturei, notário secretário do Santo Ofício nesta cidade de S. Salvador do ano de 1693, Manuel Francisco, e Vossa Reverência é aqui, aqui nesta linha, eu mesmo fiz a linhinha, não, não é pilinha, por quem sois, fico atemorizado quando olho para a face rebrilhante de Reverência Vossa, não digo coisa com coisa, é aqui a assinaturazinha, debaixo do registo de Sua Eminência, o Visitador-Mor.
Ai, Manelinho, a Felipa deu muitos abraços e beijinhos a Maria Lourença, e tu não mos dás, não és meu amigo, se o fosses fazias-me o que ambas fizeram, arregaçavas o fraldão e unias a tua à minha natura, ai, que vai ser tão bom, Manelinho.



Miguel Real,
Fontanelas, 16 de Setembro de 2006.

14.9.06

Não visito, há muitos anos, qualquer castelo.
Daqueles onde as árvores de fruto ainda vivem e as pedras não,
embora respirem um suor gelado na nossa mão.

Em criança, uma espada era uma espada
sem que fossem necessários inimigos.
Apenas o ar, fustigado por existir. E outros perigos.

13.9.06

das particularidades do número vinte e um

já deves ter reparado que misturo na minha cabeça um pouco de tudo
desde as histórias das vidas dos padres do século dezasseis até
à doçura do teu sorriso quando me olhas para dentro do peito -
é assim que eu quero que te lembres de mim quando puxas os lençois
para cobrir a tua face e os prendes entre os lábios numa ânsia
de ser horas de me veres chegar ou, até mais do que isso, horas de saírmos
os dois juntos até a um lugar onde fiquemos sozinhos e abraçados.

já deves ter reparado que eu fico a olhar para ti embevecido
enquanto tu passas muito devagar de um lado ao outro da casa
passeando o teu perfume que eu agora reconheço como parte de mim -
é assim que eu quero que te lembres de mim quando vais no banco de trás
do carro dos teus pais a falar de velhas chatas que nos vêm incomodar os olhares
e com isso hesites em dizer uma ou duas coisas que te passam pela cabeça
fazendo com que a tua mãe perceba exactamente aquilo de que te estás a lembrar.

sim, já reparaste, tenho a certeza que já reparaste, e também eu já reparei no modo
como me olhas de lado, de todos os lados, quando estamos juntos cá em casa:
como eu já reparei na vontade que tens de te abraçar a mim a deixar o tempo passar:
como eu já reparei como é triste e demorado o teu sair pela porta quando chega a hora:
como eu já reparei como me sorris e me pedes para ficar mais pertinho de ti:
como eu já reparei como me estendes os teus sonhos de porta aberta para eu entrar:
como eu já reparei como eu já reparei como tu já reparaste como eu já reparei.

11.9.06

Infecção

a direcção dos olhos presa a um copo de coca-cola com gelo num dia quente de Verão: as pedras a conversar o dia, presas às curvas do vidro
- quando chegava à cama para me deitar, trazia uma camisa de dormir cor-de-rosa de linho, com ela uma corda ao pescoço que tu nunca viste

todas as noites: noite atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite, noite atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite, noite atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite

a corda a apertar-me o pescoço, tu a fazeres sono, a ideia de morrer jovem a fazer-me sentir coisas a bater na cabeça
- ter tanta gente a falar ao mesmo tempo dentro da cabeça


o sabor do medo a escorrer frio da boca: o corpo que traz água até à barriga a dançar com flores a fazer de unhas
flores amarelas a tapar a carne viva dos dedos
(a tentativa da protecção que não sangre, que não magoe, que não mate)
- a corda asfixiou-me durante todas as noites em que dormimos juntos: tu nunca a viste pendurada em mim

todas as noites: noite atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite, noite atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite, noite atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite, atrás de noite


como se respirar na tua cama fosse morrer a ver-me ao espelho
-
os gemidos causados pela falta de ar, não por ti nu em cima de mim

e o desespero dos comprimidos: os olhos virados para dentro do corpo à procura de alguém que visse
(à procura de alguém que soubesse de mim em tudo isto)

a necessidade da corda cortada que permitisse a felicidade do ar a fazer-se no corpo, sem o peso triste das saudades a esmagar-me os lábios
-
tu deitado na cama como sempre foste: um homem de testa grande, pequeno e sem pés.

8.9.06

Da Lapa a Lulea - 3 (final)

Àquela hora já os camiões do saneamento percorrem Lisboa. O táxi depara com um a impedir-lhe a faixa da direita, e a senhora mira em trejeito de repulsa o movimento basculante dos contentores sob o alaranjado da iluminação pública. Por segundos o cirandar resignado das fardas verdes junto à calçada parece-lhe menos agoniante.
- Muito pobre! Não têm casas de banho, mas muitos têm um balde num canto com um púcaro ao lado. Nem papel.
O jovem contrai-se, incomodado. Não imagina as suas viagens povoadas de realidades destas. Quando conta o dinheiro em caixa às duas da madrugada dos domingos, o que antevê são museus com as obras de arte ilustradas nos livros de História do terceiro ciclo, monumentos como os castelos do Loire e outros revelando-lhe paisagens mais bonitas que as do Minho, bares e pubs à noite a pulular de cabelos louros e ruivos e, quando está mais prosaico, grandes superfícies só com DVDs, MP3 e material electrónico. Megacenas como não há cá.
E a passageira prossegue, empenhada na sua crónica de costumes:
- Depois à hora da refeição são obrigados a comer com a mão esquerda, consegue imaginar, que a direita está suja do rabo!
- Tchiii, fogo!, com a esquerda?! Com a direita, vá que não vá... Ainda a gente cá se queixa.
A subida pela Rua do Alecrim está no fim, no Chiado o movimento é menos residual que noutras noites da semana. O condutor mima-se o direito de um saltinho instantâneo fora da conversa Luís de Camões nas calmas, sempre na tua, nem ao sábado à noite te descontrais, para logo tornar à cliente, disposta a contas:
- E a senhora a assistir a isso tudo, já viu?
- Eu?! - Um firme tom de superioridade indignação atravessa o lenço fino de ramagens que se desenrola, quase esvoaçando, diante da cara da mulher, e que protegerá do ar da noite o elmo amarelo. A surpresa leva o jovem a encará-la, mas regressa de imediato à transparência do pára-brisas. Colecta o troco ao som do esclarecimento: - Eu não, que nunca lá fui e é daqueles sítios aonde nunca hei-de ir! Conta-me a minha filha, o marido é lá diplomata de topo e os meus netos têm professores só para eles. Têm uma vida que eu queria que visse! Vão mais ao cinema que nós, vivem numa casa com empregados à europeia e com nove casas de banho.
- Tchi, nove?! Pessoas importantes...
- Importantes e não é só isso: lembre-se que aquilo é um país muito rico! - Faz um gesto de elegante recusa perante as moedas que ele lhe estende, e um sorriso cansado. - Boa noite e obrigada.

Não estivesse a sem-abrigo já recolhida no quentinho, enriquecido a gases de escape, da estação de metro dos Restauradores e casualmente por ali passasse naquele momento, veria uma perna franzina de pele desidratada, vestida a meia de vidro, pendendo do carro e pronta a poisar o sapato de meio salto no lancil do passeio junto à Igreja do Loreto.
Tivesse a sem-abrigo o dom de escutar os pensamentos dos outros, não apenas as suas recusas, e aperceber-se-ia talvez disto: o jovem interpelando os seus botões pretos Mas qual é a ideia do lenço?!, relutante em acreditar que qualquer sopro de vento pudesse alguma vez abalar a integridade daquele penteado erguido de certeza à custa de muitas pulverizações; seguido de Às tantas aquilo na Índia ainda vale uma viagem até lá, se tem cinemas e tudo; e por fim, já fora do carro, o repentino mudar de rumo da atenção da senhora directamente para a tarefa que a espera: Isto de me dispor a ajudar a turma do meu sobrinho na organização da viagem à Escandinávia, ao sábado à noite, só eu! Estava o trabalho facilitado se não os tenho convencido a desistirem da Índia.

7.9.06

Da Lapa a Lulea - 2

Quando o táxi abranda face à iminência do vermelho, uma sem-abrigo tardia, de cabelo escorridinho pouco limpo, olha de relance e assusta-se: parece-lhe avistar para lá do vidro um cortiço parado e silencioso petrificado, um enovelado audaz a desafiar a gravidade, mais estranho ainda pelo tom amarelado e baço. Um décimo de segundo dá para captar tudo isto e ainda concluir: À noite vêem-se figuras muita estranhas, caraças! E é verdade, pelo menos o taxista partilha da opinião. Apercebera-se daquela verdadeira armadura capilar emoldurando uma cara magrinha pouco antes do chafariz das Janelas Verdes, e entre uma música e outra, uma fala e outra, espantara-se para o retrovisor: Fogo!, o que é aquilo, um turbante?! Isto à noite vê-se cada um!
- O que ainda conserva um pouco a atmosfera aristocrática e o prestígio do bairro da Lapa são as embaixadas, sabe – continua brandamente a dona do cabelo morto. - Mas também não fazem vizinhança nenhuma, é só por dizer que representam a diplomacia internacional.
- A diplomacia, ah pois… – O jovem roda ligeiramente o botão do volume. O ambiente está fraco no interior do veículo, Há que aguentar a vigília. Irrompe das bandas do tabliê a voz caramelizada da operadora da companhia, solicitando um carro para a Rua da Palma “ao Martim Moniz” e logo, por entre uma sucessão irreal de apitos e estalidos, a repetição de um número: “309! É o 309!”.
- Há chalés de família ocupados por associações duvidosas, faltam crianças a brincar, não se consegue um táxi a tempo... - Espirra duas vezes encadeadas, a senhora, efeito do fresco da noite aspirado pela janela do condutor. – Enfim, olhe, há quem esteja muito pior que nós.
Do banco da frente sai um aceno por cerimónia, mas primeiro “Santinha!”. O condutor já fareja uma espécie de antecâmara de sessão de desabafos. Não está para aí virado e dá outro toquezinho no botão do rádio, na esperança de criar ali, como quem não quer nada, uma subtil barreira sonora que aparte as duas metades do habitáculo. Mas a cliente tem outros planos. Corre com olhos distantes o largo do Cais do Sodré, a mente solta por extravagantes paragens:
- Olhe a Índia, por exemplo. Na Índia é que é mau: nem táxis há, anda tudo a pé!
Surgem sinais de despertar no lugar do chofer, com a alusão a um país distante, embora este conste da lista dos que o jovem nunca sonhou visitar.
- Tudo a pé, não me diga! Se calhar é só duas rodas, não? E é para quem quer, não?
- Sim, duas rodas e rodas nenhumas. Não têm táxis e não é só isso: as ruas parecem enxames, muita fome, as crianças pelo chão sem roupas, só trapos, há um barulho constante no ar, e depois aquelas multidões no Ganges a tomar banho...
- Ganchos?... – Falta de saber ou só ruído, certo é que o motorista parece agora incomodado inseguro com a rádio e baixa o som. - E tudo ao monte, quer ver? Olhe que não me puxa para lá ir. Mas gostava de entrar no Taj Mahal... – Um fado de inesperados acordes orientais insinua-se devagarinho, mas ele cala de vez o aparelho. - Aquilo dizem que é lindíssimo e tem uma história: era um homem que o construiu para um grande amor e...
- Sim, sim, toda a gente sabe a história do Taj Mahal. – A passageira corta implacavelmente a direito. - E o pior é que não têm casas de banho…
- Onde, no palácio?!
- Não!, por toda a Índia…
- Ai não? Tchi! Aquilo é tudo um país muito pobre...

Da Lapa a Lulea - 1

- Boa noite fogo! que me vi aflito para encontrar a sua porta!
- Boa noite acredito! É para o Chiado, mas vá por baixo pelas Janelas Verdes, se fizer o favor. Aquelas ruas meio desertas na zona da Estrela a esta hora não me agradam muito.
- Pelas Janelas Verdes, sim senhor... - A anuência sai-lhe em voz firme mas vai-se esgotando quase até ao sussurro, a intenção transposta para os dedos que procuram sintonizar na rádio o “Banda da Amizade”, programa dos anos oitenta ultimamente reposto a horas vadias.
Funga e finta a rede de sentidos únicos que quase obrigam um condutor a seguir por onde não quer. É um jovem a alcançar os vinte, cabelo máquina um, mosca sobre o queixo como há muito se desusa, argolinhas no lábio inferior e numa orelha, feição honesta, vestido de preto faça chuva ou sol. Sábados e domingos, feriados só excepcionalmente, aufere uns euros jeitosos a conduzir o táxi creme do tio, mas ser chofer de praça não está nos seus sonhos. Quer viajar.
Viajar. E quanto mais cedo e para mais longe melhor. Por isso durante o último ano calcorreou o planeta à boleia dos catálogos de paisagens estereotipadas das agências, vasculhou a pente fino destinos internéticos dos mais banais chegados aos mais extravagantes inóspitos, evitando contudo as revistas da especialidade, por aprofundarem demasiado locais tão vulgares como a Madeira ou a cidade de Bordéus. A indecisão entre o cosmopolitismo do norte da Europa e o exotismo da Ásia é ultrapassada após algumas prospecções junto de quem deparou na Europa do norte com uma versão apenas mais gelada e higienizada desta que vamos construindo cá pelo sul. Faz portanto pontaria para o continente dos contrastes das sabedorias. Que coordenadas ao certo logo se verá, mal o pé-de-meia cresça a ponto de lhe inspirar uma decisão.
- Andei aqui perdido que tempos fogo!, não se percebe bem esta numeração. - Torce tudo para a esquerda e eis o Chafariz da Imponência Real, anúncio empedrado da proximidade às Janelas Verdes. A cidade sossegou há horas. Porém no diminuto movimento cabe ainda a coincidência de o táxi creme desembocar na Rua Presidente Arriaga no preciso instante em que também se aproxima o preto e verde-plástico de um companheiro dos fins-de-semana. Cumprimentos de luzes. Lisboa é pequena, sorri o rapaz.
- Sabe lá, tava a ver que tinha que fazer a sua rua toda em marcha-atrás! Por pouco não esborrachava um cãozito que por ali andava, um cor de mel, se calhar até é seu, quer ver?
A senhora alinha umas quantas vértebras, ajustando-se melhor à napa estalada do lugar. É uma posição que lhe abre recordações. Passou a infância, a juventude e parte da idade adulta sentada no banco de trás, altivamente, dali comandando um exército de um só homem, o motorista particular da família que ingratamente desertou, desgravatado e tonto coberto de soberba, no dia 26 de Abril de setenta e quatro. De então para cá, há que alugá-los às meias horas. E, e...!
- Pois, o tempo que eu esperei pelo táxi! Está por demais este país, as últimas décadas têm sido para esquecer. A Lapa já não é o que era, um jardim dentro de Lisboa, cheio de tradição, a abarcar todo o Tejo…
- Ah isto já foi um jardim? - É a segunda vez que o jovem arregala os olhos para o retrovisor.
- Jardim é uma maneira de dizer: todas estas mansões ajardinadas formavam, no seu conjunto, um jardim...
- Ah, tá bem! Isto a esta hora é um pulinho aqui pela 24 de Julho.
A senhora aconchega a gola do casaco. Chinchila, da genuína. Adquirido no estrangeiro antes destas modas dos direitos dos animais se infiltrarem nas cabeças das pessoas e nos noticiários. Traz os fios do cabelo como que de castigo, tenazmente cativos num penteado antigório, todo ripado. Arrepiado na nuca, progride resolutamente daí para cima, tomando a partir das orelhas o formato rígido de uma panela de pressão. De dois litros e meio, não mais.

5.9.06

chocolates regina

num dia de calor como o de hoje estava capaz de derreter entre os meus dedos,
não fossem eles tremer no momento de abrir o meu saco pousado sobre a cadeira
para tirar lá de dentro o presente que te tinha preparado, a caminho do encontro,
quando entrei num café daqueles que tem, em algumas prateleiras limpas,
resquícios de uma altura em que eu ainda era pequeno e tu mais ainda.

porque não era nada que eu soubesse ou pensasse acertar, aliás,
foi mesmo a forma despreocupada como procurei levar-te algo que te fizesse sorrir
que me fez encontrar o que eu nem sabia procurar. - chocolates regina são
os meus preferidos, disseste. e eu sorri e sorriste comigo, não precisei de dizer mais
nada porque já te tinha dito que gosto muito da tua maneira de sorrir.

num dia de calor como o de hoje estava capaz de derreter entre os meus dedos
aquela barra de chocolate que depressa deixou de ser apenas uma barra de chocolate
para ser, talvez, os teus dedos ou a forma como os teus cabelos esvoaçam quando
te viras para mim para me dizer adeus. ou então eram só os teus olhos muito abertos,
mas não zangados, a desviarem-se dos meus quando olhei para o teu coração.

porque não era nada que eu soubesse ou pensasse acertar, aliás,
não tenho nenhum jeito para tiro com o arco nem para jogar no totoloto
e talvez possa vir a ter a fortuna do meu lado noutras coisas. chocolates regina,
daqueles envoltos em saquetas de plástico vermelhas e douradas, com amêndoas,
resquícios de um tempo em que o teu coração cresceu e o meu mais ainda.

4.9.06

Nada de racional, ou seja, não bem um poema, isto

dedicado à blota, que eu ainda não conheço, e que um destes dias plantou este comentário: "divino de tão terreno".

havia qualquer coisa na boca dela que ele não compreendia
apesar de tantas vezes terem já saído juntos os dois até ao café
e ao cinema, qualquer coisa na boca dela que era como palavras
mas um pouco diferente, sei lá, qualquer coisa como um beijo
que parece que vai nascer a partir do canto esquerdo do lábio inferior
e depois se espande pelos lábios inteiros mas não bem um beijo,
uma outra coisa qualquer, na boca dela, que ele não compreendia.

havia qualquer coisa, isso é certo e seguro, na boca dela
que era como o mar ou o céu de tanto azul junto no mesmo espaço infinito
e ao mesmo tempo era calmo, quieto, quase de uma sonolência
de deitar no sofá e ficar a ver no espaço da parede os carinhos a escorregar
e ao mesmo tempo era também qualquer coisa de intermédio,
não como o do mário sá-carneiro, mas como a boca dela
fina nos cantos e carnuda onde os beijos têm mais sumo.

havia então qualquer coisa, qualquer coisa que ele não compreendia
e era a boca, só podia ser a boca dela, e ao olhá-la assim como ele a olhava
muitas vezes se sentia tentado ao beijo, um pouco ao género dos filmes americanos,
como de muitas outras se sentia mais tentado ao carinho, como nos filmes franceses,
mas isso era porque eles iam sempre ao cinema ou ao café ou coisa assim.
o que havia na boca dela é que ele não compreendia, aquela qualquer coisa
quase divina de tão terrena, aquele desejo, assim, em forma de lábios.

2.9.06

O regresso

O espaço vazio entre as duas fileiras de casas tinha ondas de lama seca; parecia um instante congelado no tempo.
A casa da avó Bóri ficava no fundo do bairro pré-fabricado, na zona mais miserável do gueto. Mas Dánko não via o lugar dessa forma; para ele, aquela disposição das habitações (filas de prisioneiros na parada) lembrava-lhe a infância; o céu por cima como que viajara do passado (uma nuvem grossa flutuava no azul, parecia um veleiro); e a brisa ligeira que agitava as árvores da mata ao lado era semelhante a um rio entre margens plácidas, num deslizar feliz.
Avançou. Esperara uma hora antes de entrar no bairro dos ciganos. Não queria ser visto pelos vizinhos, pelo menos por enquanto. Escolhera a hora da sesta, quando apenas alguns miúdos brincavam no espaço em frente às casas; e os miúdos ignoraram o intruso.
O autocarro chegara à cidade mais depressa do que tinha imaginado (havia estradas novas, que não conhecera antes); já gastara os mil forints que lhe tinham dado e, por isso, teve de caminhar da estação de autocarro até ao gueto, a pequena sacola ao ombro. De qualquer forma teria andado, mesmo que tivesse dez mil no bolso. O bairro social ficava fora da cidade e mesmo no exterior dos subúrbios, na orla de uma aldeia que apenas conhecera com gente pobre, mas que agora possuía novos habitantes endinheirados, e que pressionavam a câmara a mudar o bairro cigano para uma zona desfavorecida.
Mas, agora, só se preocupava com a avó Bóri. Estava em frente à porta (uma porta meio partida e com marcas de sujidade sobre a tinta pelada). Bateu suavemente e esperou, enquanto uma camada de silêncio se sobrepunha aos ruídos do mundo e a luz baça da tarde abafada lhe fazia doer a vista.
Foi ela quem abriu a porta. Envelhecera e não escondeu o desagrado de o ver ali:
“Já te esperava!”, disse a avó Bóri.
Dánkóoqueria dizer-lhe que não tinha mais nenhum sítio para onde ir, mas o seu orgulho não lhe permitiu pronunciar essas palavras. Limitou-se a saudá-la. Mas não entrou na casa. Esperou, obediente, que ela fizesse um gesto vago com a mão, que apenas fez porque não queria que ele fosse visto ali pelos vizinhos. A avó não precisou de explicar, era evidente pela sua expressão desconfiada, o olhar fugaz que deitava para os lados, como que a vigiar se era vigiada.
Dánko sentou-se numa cadeira da cozinha. Observou o grande calendário com a Virgem Maria. Era ainda o mesmo calendário que conhecera, anos atrasado. Ficara na parede porque a avó gostava da imagem da Virgem Maria, uma mulher pálida e magra, sorrindo levemente, como uma vítima que aceita o destino. Dánko tinha as mãos grossas pousadas sobre a mesa; a cozinha separava-se das restantes zonas da casa por tecidos leves pendurados e que faziam de cortinas, filtrando o pouco sol que entrava. Havia um cheiro a espaço fechado, que lhe recordou a solidão que passara, dias, semanas, meses.
“Não podes ficar!”, disse, de súbito, a avó Bóri, como se fosse a única coisa que podia dizer.
“Eu sei”, respondeu Dánko. E a avó moveu as sobrancelhas, talvez a interrogar-se porque razão ele regressara. Mas não perguntou mais nada. A velha ficou silenciosa, a ver as mãos grossas do neto sobre a mesa vazia.
Dánko ergueu-se, sorriu. Ao despedir-se da avó, sentiu vontade de a beijar na face, mas não o fez. Já estava na rua, quando disse:
“Não fui eu! Não sei como eles souberam, mas não fui eu!!
A avó Bóri olhava silenciosamente para Dánko, que acrescentou:
“Eu ia pagar a dívida até ao fim, mas eles adivinharam, não sei como, mas souberam”.
E, nesse momento, a avó fechou a porta.
Era a hora de maior calor e toda a gente se protegera nas casas ou nas sombras. Alguns homens dormiam, sob uma árvore. Um deles estava de pé e viu Dánko, que tinha de passar nas proximidades. O homem fez uma careta de desprezo, cuspiu para o chão. E Dánko baixou os ombros, desviou-se humildemente, para evitar algum insulto que não pudesse deixar impune.
Andou durante horas, de regresso à cidade. E lembrou-se de um sítio no parque, onde poderia dormir naquela noite, sem ser incomodado. Na manhã seguinte, saberia talvez o que fazer.
O parque tinha forma de cruz e, no seu limiar direito, havia uma igreja protestante. Era na sombra dessa igreja que alguns vadios dormiam nos meses de Verão, em bancos de jardim. Ao aproximar-se desse sítio, acelerou o passo, como se não houvesse mais tempo para o encontrar. Se não encontrasse os vagabundos ficaria ainda mais vazio.
Viu de imediato o vulto de um homem atarracado e gordo. Reconheceu Szárka, o cigano tolo. Os dentes salientes e a cara estúpida, o corpo indolente que se abandonava no banco de jardim. O excluído dos excluídos, no seu poiso.
“Posso dormir aqui?”, perguntou Dánko. E Szárka encolheu os ombros; a sua boca alarve imitava um sorriso.
“Sou Dánko! Saí da prisão hoje!”
O tolo interessara-se:
“Mataste alguém?”, perguntou, numa pronúncia tola.
Dánko negou, com um gesto:
“Estava na prisão a pagar uma dívida...”
Szárka largou um riso de incompreensão. Dánko sentara-se no seu banco de jardim e explicava:
“A minha família tinha uma dívida com o Joshka Gordo, sabes quem é?”
O tolo abanou a cabeça.
“Não podíamos pagar e, como eu sou parecido com o Gordo, fui para a prisão em vez dele, fingindo ser ele. Estive lá um ano, mas devia ter ficado três anos, que era o tempo da sentença. Os polícias descobriram-me! Juro que não fui eu a desistir! Não denunciei ninguém, foram eles a descobrir!”
Szárka parecia compreender o que ele dizia, enquanto observava com tristeza aquele homem grande à beira de chorar.
“Ninguém acredita em mim! E, agora, o ano que passei na prisão não pagou nenhuma parte da dívida. A polícia anda à procura do Joshka Gordo e eu não tenho para onde ir”.
Dánko calou-se. Afundara-se no banco de jardim, sem saber o que faria a seguir. Szárka aproximou-se, abriu o saco de plástico, onde havia alguma comida, e mostrou-lhe, sorrindo, o interior. Oferecia a sua comida.
“Fico a dever-te”, disse Dánko, numa voz sufocada, tirando do saco um pedaço de pão duro.
Depois, sorriu para Szárka, o cigano tolo, que era tudo o que lhe restava no mundo inteiro.

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1.9.06

O homem nu que se masturbava à janela

o homem que se masturba na janela de vidro do seu T2 alugado
-às terças-feiras por volta das 22:10

mede 1.83 e é Caucasiano.


o homem que à noite se masturba na presença dos cortinados da sala usa óculos de ver ao perto, aguarda feliz a queda de esperma nos vidros dos carros, lá em baixo, à laia de floco pegajoso com cheiro a divino
- a felicidade passa-lhe rente aos olhos enquanto o sémen se dispersa nas chapas coloridas: a ideia de poder engravidar um carro fá-lo rir


o homem que se masturba à noite na janela da sala sabe dos vizinhos a passearem-lhe debaixo das pernas mas prefere ser feliz: aguarda de olhos nas estrelas o tremor e o suor do êxtase

o homem que se masturba assim, à janela, na pontualidade das terças-feiras à noite, olha o sol com a certeza de ter vida a acontecer-lhe no meio das pernas, mas sente saudade do tempo em que sabia tocar nos outros

o homem que à noite se masturba sem dar explicações da utilidade que dá às mãos, usa desodorizante de manga-laranja, frequenta um restaurante pequeno da esquina e usa a Caixa Geral de Depósitos desde os 20

o homem que à noite se posiciona daquela forma, para toda a gente ver, podia amar qualquer pessoa que o quisesse amar
(homem, mulher, jovem ou velho)

o homem que se masturba com a lentidão dos que sabem, pendura réplicas de moinhos de café na parede da sala, só faz a barba em dias ímpares, vê o seu filme favorito três vezes por dia para se entender e usa óculos escuros para ver televisão


o homem nu que se masturba bonito à janela, acredita no amor enquanto lugar comum, procura-o todos os dias e diz para si mesmo que nunca vai querer ser como os outros.