25.9.06

Devoluto

Ao fundo da minha rua existe um prédio devoluto, que pertence a um banco. Está quase em ruínas e vazio. Tem quatro andares, seriam oito ou dez apartamentos, não sei bem, mas todas as janelas estão partidas, o tecto parcialmente tombado, as portas tortas e inúteis. Não é muito fundo. Não há saída pelas traseiras, pois dá para um muro do pátio. Em baixo, havia duas antigas lojas, cheias de lixo e onde, por vezes, alguns vagabundos dormiam.

Digo havia, porque alguém tapou com tijolos e cimento as duas lojas de baixo.

Eu ia a passar por ali, trazia na mão os sacos com as compras do dia, por isso caminhava devagar, rua acima (a rua tem certa inclinação e já sou velho, por isso andava devagar). Então, ao passar pelo prédio devoluto, reparei nos tapumes de tijolo e parei ali, para observar melhor. O cimento ainda estava fresco. Que diabo, pensei, foram rápidos a tapar isto...

Foi então que ouvi um rumor distante, uma voz rouca que balbuciava algo. E parecia vir do interior.

Poisei os sacos e procurei testemunhas, para partilhar essa minha estranha descoberta.

Estava um rapaz à espera da namorada, na esquina e chamei-o, veja lá, veja se ouve alguma coisa, e aproximou-se também um segurança do edifício público mais ao fundo da rua, chamei-o igualmente, venha cá, senhor, veja lá se ouve alguma coisa. O rapaz quase colou o ouvido ao cimento fresco, mas fez que não com a cabeça. Estive toda a noite a dançar na discoteca, é natural que não ouça nada, explicou ele (embora eu não tivesse pedido qualquer explicação ele sentira-se na obrigação de me dar uma). O segurança era mais arguto, mas não encostou o ouvido ao cimento, com medo de sujar a farda. Depois de um bocado, disse: Há, de facto, um barulho qualquer, mas pode ser o vento a assobiar na janela de trás, às vezes isso lembra uma pessoa a uivar. Afirmara aquilo como se pedisse desculpa por não concordar comigo, embora eu não tivesse dito nada. Foi nessa altura que eu referi a minha teoria sobre o assunto: isto pode ser alguém que ficou lá dentro, um sem-abrigo, por exemplo, que estivesse aqui a dormir enquanto fizeram a parede.

Eles olharam para mim, desconfiados. Ninguém ia fazer uma coisa dessas, disse o segurança, como se não acreditasse em erros de engenharia catastróficos. E se ficasse alguém lá dentro, fugia por trás, objectou o rapaz que esperava a namorada. Olhe que não, olhe que não, contrariei, lembro-me destas lojas e não têm saída por trás.

Ficaram a olhar para mim, alarmados. Colocaram o ouvido de novo no cimento. Não ouvimos nada, disseram os dois, ao mesmo tempo, como se fossem membros de um coro afinado. Um barítono, o outro tenor.

Fomos à volta, mas a porta estava bloqueada por tijolos e a segunda loja também. Tudo fechado, aqui não entra ninguém, exclamou o segurança, sem lógica, pois o problema era sair, não era entrar.

Dito isto, feita mais uma audição atenta, concluíram as duas testemunhas que se tratava de falso alarme. O segurança desculpou-se com a insegurança do seu edifício público: ainda me entram por ali os ladrões, (como se o problema fosse entrar). E o rapaz fingiu ver a namorada do outro lado da rua e escapou em grande velocidade. Fiquei eu e os meus sacos. Encostei o ouvido aos tijolos cimentados que tapavam a antiga entrada da loja térrea e fiquei ali a ouvir, a princípio nada, depois um vago rumor, como se fosse um sem-abrigo emparedado ou, com mais atenção, o vento a assobiar numa frincha. Ainda pensei em chamar uma autoridade, mas depois lembrei-me de que havia futebol na TV e estava quase na hora e ainda tinha de subir três andares...

Nos dias seguintes, toda a gente ouviu uns barulhos estranhos que chegavam do prédio entaipado. Depois, foi descendo a frequência do ruído. Até que acabou. Agora, o bairro voltou a estar tranquilo...

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5 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Arrepiante.

10:13 da tarde  
Blogger d.e. said...

Julgo encontrar neste texto um certo valor de parábola: a indiferença social há muito que emparedou os sem-abrigo sem precisar de recorrer a obras de alvenaria. Valha-nos a recta consciência desse senhor da história, já adiantado na idade, vergado ao peso dos sacos das compras, ouvidor de murmúrios agónicos e perscrutador de mistérios. Nunca se pode é contar a cem por cento com a ajuda de namorados e guardadores de edifícios públicos: andam demasiado ocupados para se preocuparem com assuntos de tão diminuta importância.

10:15 da tarde  
Blogger luisnaves said...

Obrigado pelos vossos comentários. E, em relação ao que escreve o Manuel, acrescentaria apenas que o velhinho da história também só se preocupa um pouco e prefere voltar aos seus assuntos...

9:13 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Por isso é que é arrepiante!

12:54 da tarde  
Blogger João Villalobos said...

Arrepiante, sim. Mas por outro lado com um sentido de humor negro perfeito :)
Ri-me em algumas das partes, o que querem que diga? Não tenho remédio.

7:30 da tarde  

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