20.8.06

Febre Hemorrágica (II)

Há em tudo isto uma ilusão triste dos sentidos: um estado de ansiedade de mãos, pernas, pés a gerar cansaço, um cansaço de tal ordem
- às vezes confesso que olho para ti mas não oiço o que dizes

quando tudo é imagem desfocada à maneira de Richter
- eu a ouvir-me cá dentro

(o que há-de ser de nós?)

quando era pequena e mergulhava na água fria da Ericeira durante as férias de Verão, achava que não havia som mais puro do que o som da àgua dentro da cabeça
(o momento do mergulho)

o som do corpo dentro da água a deixar-se cair: nós a sermos ela
- é que a rua em que trabalho é feita de neuróticos, de esquizófrenicos felizes a falar alto frente à porta, loucos paranóicos que me fazem encostar a mão à vidraça, me enternecem o queixo, olhos, lábios e me fazem desejar ser como todos eles lá fora


o cansaço a brincar-me na cabeça com peixes
- um som de dois pés ténis especiais a fazer o percurso que vai do Campo Grande à Calcada de Carriche, um som de pés que se abeiram de um muro para mergulhar no som do ar até ao carinho do asfalto



e o peso da queda.
porque quando era pequena e fazia férias com a minha mãe, mergulhava a achar que não existia som mais puro
mais solene
mais lúcido
do que aquele que se concretiza no mergulho: o som limpo da àgua dentro dos ouvidos
a água à espera do corpo em queda
o asfalto à espera do corpo em queda

Como é que eu nunca percebi?

1 Comments:

Blogger Luís Filipe Cristóvão said...

eu a ficar com a sensação de que crescer é deixar de perceber certas purezas que tanto nos encantam enquanto somos ainda pequenos...

3:02 da tarde  

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