12.5.07

Territórios de Caça (XII)


12. Fárkas e o padre János despertaram-me das minhas deambulações. Tinham-se aproximado sem eu notar e estavam a meu lado. O meu vizinho ria-se, disse que eu era um sonhador.
"Eu e o bispo Benedek estávamos a discutir um ponto de teologia, sobre a importância de Judas", disse Fárkas.
"Já expliquei que ainda não sou bispo...", interrompeu o padre, que parecia ter recuperado alguma cor.
"A redenção, a salvação, a ressurreição. Tudo isso é muito importante para o cristianismo", sentenciou Fárkas, que falava como um académico. "Mas sem a traição de Judas, nada disto seria possível". Com um gesto teatral, mostrava toda a magnífica nave da igreja, que nos rodeava como se fosse uma floresta de pedra, com fortes troncos a segurarem ao chão frio as imensas copas.
"Isso é uma afirmação controversa, nos limites da heresia", rebateu o padre János.
"Se Judas não trair Cristo, ele não será julgado e, portanto, não haverá crucifixão. Sem esta, não há cruz, nem ressurreição. Nem símbolos nem essência".
"A traição de Judas é fruto da falta de fé, de uma tentação diabólica", disse o religioso, mas sem convicção, como se não pretendesse vencer aquele debate.
"Não é o que vem na Bíblia, interpretas", rebateu Fárkas.
O padre fez um último esforço para argumentar:
"Quando a fé se esgota, quando a tentação se torna irresistível, Judas está perdido. É essa a moral da história".
"Talvez, János! Mas quando os discípulos duvidam do seu mestre, fazem-no por falta de crença, por pobreza de espírito. E são perdoados, após tornar-se visível a sua pouca fé. Mas Judas é diferente! Ele é um instrumento de Cristo! Ele é dispensável e morre sem perdão, sem redenção possível, nunca sendo claro que tenha perdido a fé! Até se pode conceber o inverso".
O padre ainda não se rendera:
"Os seus ressentimentos eram demasiado poderosos. O orgulho foi a sua perdição. E vendeu-se por dinheiro. Jamais poderia salvar-se".
"Judas era demasiado culto para se vender verdadeiramente. O décimo segundo apóstolo é diferente dos restantes: ele é um caçador, enquanto os outros são pescadores de almas. E é demasiado intelectual para trair por dinheiro. A sua traição é instrumental e, acima de tudo, necessária! Ou não teria cometido imediatamente suicídio. Pois nele não há remorsos, apenas a consciência de que a humanidade nunca saberá do seu sacrifício supremo, o de servir o seu mestre, traindo-o. Se eu fosse cínico, diria que toda esta fantástica construção se baseia numa denúncia! Sim, de certa forma, esta é também a igreja de um delator, Judas Iscariotes!"
O padre János fez um gesto de repugnância pelo que tínhamos ouvido, mas permaneceu calado, como se esperasse que nos fôssemos embora.
Fárkas também se cansara do debate e iniciou os cumprimentos finais. Quando é que serás bispo, perguntou. János Benedek encolheu os ombros. Respondeu que não tinha pressa.
"Pelo contrário! Devias ter a máxima urgência!" exclamou Fárkas, com um dedo espetado.
Dito isto, o meu vizinho avançou pela nave e eu fiquei para trás. Mas o padre János segurou-me pela manga da camisa e, numa voz muito baixa, disse:
"A malo liberate, fili mi!"
Não compreendi o que dissera em latim, mas agradeci a bênção, um pouco surpreendido pela solicitude do padre János com quem, afinal, trocara duas ou três palavras. Cumprimentei-o, dei-lhe os parabéns pela nomeação. E segui Fárkas.
Era quase meio-dia e andámos um pouco em volta da catedral, à espera que soassem os sinos. À hora exacta, ouvimos os sinos. De seguida, caminhámos para casa.
"Um bom homem, este János Benedek. Embora tímido", afirmou Fárkas.
Foi a única coisa que disse, até chegarmos ao nosso prédio. Subimos as escadas e, quando nos separámos, no meu patamar, o meu vizinho segurou-me no braço (um pouco como fizera o padre) e pediu-me que o visitasse nessa noite, depois do jantar. E que levasse Csilla comigo:
"Temos muito que falar!"
Não me apetecia, mas não encontrei uma boa desculpa para me esquivar ao convite. Só algumas horas depois fiquei a pensar nas palavras dele, no facto de ele ter pedido para levar Csilla comigo, como se soubesse, ou antes, por saber, o que nos acontecera na noite anterior.

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5 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Curioso da mesma forma como quero que os textos cheguem, e espreito a sua chegada com nervosismo confessado, não quero que a historia termine. Por isso que seja longa e que o caminho nunca acabe.
:-) maria joão

9:14 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Olha não é mau olhado, que acabe mas que demore muito, mas que consigas terminar...
maria joão

9:22 da tarde  
Blogger Luis Naves said...

obrigado por este comentário. quando gosto de um texto também desejo que ele não termine...

9:05 da manhã  
Blogger Sofia Loureiro dos Santos said...

Já me estava a atrasar. Portanto...

11:50 da manhã  
Blogger Luis Naves said...

portanto, agora vamos entrar no essencial...

8:51 da manhã  

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