30.3.07

Maternidade




As personagens a entrarem no texto como se chamadas pelo primeiro e último nome uma a uma: as personagens na porta a quererem passar, a atropelarem-se por um lugar no mesmo sofá branco, longo de regras, num momento de magia lexical em que as frases se mordem pelas pontas das saias, uma a uma, tecido e dente, dente e tecido

(o discurso a fazer-se)
- a linguagem que constrói o real


Elas
(as personagens)
a encolherem-se, a esticarem os pés no sofá e a problematizarem a família, a pedirem lenços no momento do lamento
- as minhas personagens choram no sofá da sala quando falam de si e eu penso nelas quando me vou deitar


(aparecem-me nuas á porta, pedem abrigo)

elas a crescerem-me na cabeça, as suas vidas a saírem pelo buraco que se abre no fundo da cara, antes do queixo
- o corpo branco nu das minhas personagens cheira a fruta e a livros novos


Mas elas e as suas unhas. Elas e as suas unhas a serem uma ampulheta que mede tempos de vida.
Unhas.
As pontas das unhas a desfazerem-se nas mãos como areia da praia; areia da praia a sair-lhes nervosa pelos dedos e pelos ouvidos, elas a desaparecerem
(unhas, ouvidos, areia. As minhas personagens a acharem aquilo tudo demasiado terrível,
a terem medo, a afastarem-se)


a sombra dos seus olhos a desenharem noite
- um dia faz-se depois de uma noite, um dia depois de uma noite, depois de noite


as unhas e a areia da praia


Um dia, mais nenhuma bateu à porta.


2 Comments:

Blogger ergela said...

Fabuloso!!Muito bom.
Cumprimentos,as minhas desculpas por não ter comparecido ao lançamento do seu livro,compromissos de ultima hora.

12:54 da tarde  
Blogger Inês Leitão said...

conto consigo da próxima vez :)

1:57 da tarde  

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