29.9.06

NEGREIROS

És um alucinado!, vociferou o banqueiro Marinhas para Francisco Félix de Sousa, atropelando-o com a notória barriga assanhada, os braços alongados, as mãos em riste, as unhas agigantadas, espetava-lhe caneladas com a biqueira lustrada dos sapatins, de canutilhos de ouro, és um alucinado!, repetia, escarrando na cara de Francisco Félix de Sousa, estragaste-me o dia, o Governador dignou-se iluminar a minha festa de fim de ano e tu vens para o portão exigir o dinheiro que só na tua cabeça te devo, o banqueiro Marinhas ia compondo os dois laços de seda do lenço da gravata, que os repelões tinham desarmado, entre os empurrões soltara-se a arrecada de meia pérola preta encastoada na cabeça do alfinete de prata, que prendia o lenço ao peitilho tufado de tela com debruns de fio de ouro, viste, caiu-me a meia pérola preta, clamou colérico o banqueiro Marinhas, apontando com o dedo demonstrador para a camisa de cambraia, o banqueiro empinou a pele durácea da barriga sob a cinta de cetim azul, garrotou os ombros de Francisco Félix de Sousa com as mãos enganchadas e, calculando a força e o alvo, desferiu uma cabeçada entre os olhos de Francisco Félix de Sousa; este sentiu-se levantado no ar, os olhos raiaram-se-lhe de sangue negro, o céu azulíneo da abóbada do firmamento convertera-se numa cova escura, Francisco Félix de Sousa esforçou-se por abrir os olhos, pulava-os, distendia as pálpebras descomunalmente, divisava um horizonte de trevas reticulado de fiapos roxos brilhantes, é o sangue a esteirar-se, pensou, cegado de sangue, Francisco Félix de Sousa deixou o corpo abater-se, sentiu nas cruzes o vértice do primeiro degrau, logo outro abrindo-lhe a cabeça, o quente macio do sangue da testa adocicou-lhe as comissuras dos lábios, estou perdido, pensou, só vivi metade da vida e já morro, não é justo, meu Senhor dos Navegantes, o corpo de Francisco Félix de Sousa rabeava pela vasta escadaria de pedra de lioz da mansão da ladeira da Barra do banqueiro Mário Marinho Marinhas; tanto trabalho me deu esta escadaria e o vagabundo do Félix vai cagá-la de sangue, bramiu o banqueiro, incomodado com os gritos caprichosos de sua esposa, d. Marinhas, que do interior exigia a sua presença, era o seu orgulho de proprietário do solar da Barra, a opulenta escadaria de entrada, a pedra britada, serrada, lixada e aparada em Setúbal, vinda inteirinha como lastro no porão de um dos navios mercantes do banqueiro Marinhas, numerada para a montagem e aparelhagem com preceito em São Salvador da Bahia-de-Todos-os-Santos, e o alucinado do Félix emporcalha-me os degraus a duas horas da chegada do Governador, os rebordos agudilíneos dos degraus massacravam a cabeça de Francisco Félix de Sousa, talhando-a de lenhos, que regurgitavam fios de sangue, empapando-lhe o corpo de vermelho, é um alucinado!, reiterou o banqueiro do cimo da escadaria, de corpo arqueado e ofegante, desassossegado com os riachos de sangue que o corpo rolado de Francisco Félix de Sousa ia abandonando pelos lances de escada, é um alucinado!, disse, de novo, como se exorcizasse o demónio, um alucinado e um vagabundo! Atraídos pela gritaria do banqueiro Marinhas, os mamelucos e mulatos da sua guarda pessoal acorreram ao fundo da escadaria, largando os postos de vigilância do parque, é o Félix, vozeou o banqueiro Marinhas para os escravos, incomodado pelos acenos de d. Marinhas que, de cabeça sobressaída de um janelo, exigia a presença do marido, ouvia-se na escadaria a sua voz trémula, indecisa sobre o exacto lugar do oratório de ébano sacramentado em Goa pelos dedos místicos de São Francisco Xavier, ostentando, na curva da portinhola, uma mancha ressequida entre a calva e o resplendor de São Thomaz das Índias, queimada pela dedada da cabeça do polegar ardente de São Francisco, que ali distraidamente encostara o dedo, d. Marinhas chiava de dentro, macerando as mucamas, que, irresolutas, a rodeavam aos saltinhos, cada uma propondo um exacto lugar para o oratório, nenhum satisfazendo o desejo de d. Marinhas, que, agastada, fechara o leque, virara-o ao contrário e desferira o cabo de nácar na cabeça do escravo que desenrolava um tapete, vai chamar o teu dono, depressa!, ganiu aflautinada a boca de d. Marinhas, mas não fora preciso, o banqueiro Marinhas irrompera pelo salão, acomodando o enovelado do lenço da gravata em torno do pescoço, fixando a meia bola preta da pérola no peitinho, teria de lustrar os canutilhos dos sapatins, que aborrecimento, ordenara que os seus cães de fila dessem uma surra de pau a Francisco Félix de Sousa, se o matassem fizessem-no desaparecer, o melhor seria enterrarem-no na Mariquita, à embocadura do Rio Vermelho. Félix de Sousa tinha razão, o banqueiro devia-lhe o custo de cinquenta escravos, mas a vida estava mal para todos, no último carregamento perdera cem pretos, atirados ao mar, a maioria vivos, dissera-lhe o mestre-negreiro, o corrimento sanguíneo nas fezes não enganara ninguém, ou atirávamo-los ao mar ou chegávamos todos mortos à Bahia, sugados pela desinteria, porventura o brigue perdido, clamara o mestre, desculpando-se pelo prejuízo; desde há dois anos que o banqueiro Marinhas negociava directamente com os fornecedores de escravos do Daomé, deixara de se socorrer de intermediários de São Salvador, como Francisco Félix de Sousa, que encareciam a “peça”, interessava-lhe vender bandanadas de escravos para as plantações de algodão e os engenhos de cana-do-açúcar do sertão, aqui o lucro via-se, quase trezentos por cento para além do preço por escravo no cais de São Salvador, o Francisco Félix de Sousa era contra, apostava na perfeição, traficava os escravos de corpos rijos e saudáveis, especializava-os em profissões, que exercitavam durante seis meses antes de serem vendidos no mercado, os pruridos do Félix encareciam o tráfico, importante era vender os escravos às carradas, os novos donos que os ensinassem e lhes cuidassem da saúde, quantos mais vendesse maior o proveito, isso era o que interessava.
Tombado da escadaria, o corpo de Francisco Félix de Sousa desabou sobre a relva inglesa do jardim do banqueiro Marinhas, sentiu a humidade empapar-lhe as costas, descerrou as pálpebras e desorbitou os olhos, catando luz através da pasta de sangue que lhe cobria o rosto, o sol baqueava sobre Itaparica, escurando o céu, a primeira estrela da noite chamejou e Francisco Félix de Sousa fixou o olhar na alvura cintilante da estrela, vejo a luz de uma estrela, disse para si, saboreando na garganta a gosma do seu próprio sangue, a estrela pulsa para mim, pensou Francisco Félix de Sousa, tenho de viver para seguir a luz daquela estrela, Francisco Félix de Sousa sentiu-se levantado pelos ombros, arrastado para o caminho de piçarra, o cordão de mulatos e mamelucos fechava-se à sua volta, lobrigava vagamente visagens de jagunços e cabras-do-mato, de tezes cicatrizadas pelo punhalim e lábios queimados de cachaça, as narinas bufando como reses tresmalhadas, a pele coriácea do pó do sertão, tenho de viver para seguir a luz daquela estrela, disse mudamente Francisco Félix de Sousa; alçou a cara e projectou os olhos ensanguentados para cima, buscando a paz que só para si brilhava no veludo redondo do céu escurecido, sentiu a primeira pancada, fora o Melgaço, toma, mesmo no ombro direito, disse este, depois o Óbidos, toma, mesmo no ombro esquerdo, a seguir o Sintra, pumba, em cheio nas costas, o Santarém atira para baixo, nos quadris, o Alfama aponta para o dorso, aprimorando as pancadas nas costas, o Mouraria vai para os joelhos, os dois ao mesmo tempo, um deu de si, rangeu, o Abrantes acerta nos pés, o Luso esborracha a barriga, aproveitou uma abertura das mãos do Francisco Félix de Sousa e deu-lhe na barriga, em pleno, já este começa a vomitar, o Tomar beneficia o pescoço e dá duas de seguida, os outros protestam, é proibido, é uma porretada de cada vez, depois passa ao seguinte, sempre cada vez mais rápido, o Setúbal, açulado, nunca mais chegava a sua vez, estrondeia, vá, continuem, para não se perder o balanço, justifica-se, o Coimbra, mais mole, deu uma porrada nas coxas, ora, ó Coimbra, as coxas têm muita carne, não se parte nada, desculpem lá, disse este, o Setúbal foi directo à espinha, até fez troque, mas não partiu, neste jogo é proibido partir a espinha e a cabeça, avisou o Luso, o chefe, o Estremoz voltou aos quadris, o Vichy, mameluco de pai francês, bateu forte na arcada do peito, três costelas foram ao ar, de certeza, voltou ao Melgaço, que insistiu no peito, passou para o Óbidos, que repetiu as costas, para o Sintra que voltou às pernas, para o Santarém, que despachou as mãos, as duas, elas estavam juntas, assim não se perde tempo, o Alfama, que forçou o dorso, o Mouraria insistiu nos joelhos e o Abrantes nos pés, o Luso inclinou-se para os ombros, estavam muito saídos, era preciso baixá-los um pouco, e passou ao Tomar que se conteve, era para dar duas mocadas mas deu só uma, na clavícula, o Coimbra quis partir as canelas, não sei se consegui, desculpou-se, e palpava a cachamorra, tenho de mudar de porrete, disse para o ar, o Setúbal, para ele é só espinha, não o suficiente para partir, mas fica toda desconjuntada, o Estremoz, pumba, em cheio na barriga, agora sai sangue, às golfadas, o Vichy estava distraído a olhar para a lua, acabada de nascer, encardida, de luz aziaga, a espreitar azar, voltou ao Melgaço, ao Óbidos, cada vez mais depressa, ao Sintra, ao Santarém, ao Alfama, ao Mouraria, ao Abrantes, ao Luso, ao Tomar, ao Coimbra, ao Setúbal, ao Estremoz e ao Vichy, e de novo ao Melgaço, sempre cada vez mais depressa, sus, sus, rápido, rápido, vai um, passa a outro, mal um porrete se levantava já outro cacete desabava, o corpo de Francisco Félix de Sousa esparramava-se pela cascalheira do chão, desconjuntado, incapaz de se levantar, o mameluco do Luso, filho de pai reinol e mãe tupinambá, chefe dos jagunços do banqueiro Marinhas, aprestou-se a desferir a derradeira cacetada, directa ao pescoço, entortar a gorja do Félix e afogá-lo lentamente no seu próprio sangue, proferiu, a boca castanha saburrosa, ansiando pelo picante da cachaça. Félix de Sousa, inconsciente, abriu meio olho e sorriu com a meia boca que lhe obedecia, a estrela continuava no céu, cintilava forte entre o manto enegrecido, piscava como se arfasse, pulsando, protegendo-o e sussurrando-lhe, segue-me, dizia ela aos ouvidos surdos de Francisco Félix de Sousa, segue a minha rota, eu sou a tua estrela, o meu fogo é a luz do teu destino, Félix viu o pau de goiabeira do Luso elevar-se, a fileira dos outros matutos de arrocho para baixo, de lábios selvagens, olhar bruto, vigiando a porretada final, Francisco Félix de Sousa cerrou a meia-pálpebra, fixando no céu do pensamento o clarão alvo da estrela que nessa noite de fim de ano de 1797 brilhara só para si, prometendo-lhe mais meia vida, só três dedos da mão direita lhe obedeciam e Francisco Félix de Sousa agarrou a estrela entre os dedos, prometendo ao Senhor dos Navegantes que seguiria a rota daquela estrela se sobrevivesse à macetada final, dá-me mais meia vida, Senhor dos Navegantes, articularam os lábios imóveis de Francisco Félix de Sousa, deixa-me experimentar a paz que nunca tive, Senhor dos Navegantes; o Coimbra bradou para o Luso, encolerizado, ou arreias presto ou arreio eu, escaqueiro-lhe a cloaca da garganta com as mãos, e ameaçava substituir o Luso, nunca sentira na pressão dos dedos as articulações de uma gorja a ceder, faltava ao Coimbra a experiência de asfixiar um homem, e o Luso, pressionado, orgulho de chefe posto em causa, fincou as duas mãos no macete de goiabeira, calculou a pontaria à luz esconsa da lua, com um pé virou a queixada de Francisco Félix de Sousa para o lado direito, para que a garganta, alongada, se abrisse à bordoada, eihááá, gritou, ganhando força, eihááá, repetiu, escancarando a boca vermelha e os lábios pretos grossos, as asas do nariz abertas, sugando ar, o branco dos olhos alvejando, olhar fixado para baixo, mirando o centro da garganta de Francisco Félix de Sousa, eihááá, clamou pela terceira vez, de mourão prestes a desabar - do escuro, entre o renque de bananeiras, o estrondo de um bacamarte troou no jardim do banqueiro Marinhas, riscos fulminantes de pólvora e chumbo zumbiram na noite e o grito de guerra do Luso arrastou-se-lhe na boca, de língua tesa, agonizando, o corpo do Luso bamboleou, desprovido de força, dobrado pelos joelhos, olhos fixos e apagados, tombando sobre o corpo de Francisco Félix de Sousa, botas cascalharam no terreiro e o estampido furioso de uma voz retumbou, quem se mexer é homem morto!, dez homens armados avançaram, um branco e nove pretos, o branco aferrava o bacamarte, que reenchia de pólvora, e os negros catanas de aço inglês, de lâmina fina como faca, mas rija como massa de ferro de uma bigorna; é o cabrão do Simão, pensou Francisco Félix de Sousa, lançando meio sorriso ao céu, no fundo da sua mente a luz da estrela latejou, confundida com as faces de Simão, e os três dedos da sua mão direita desprenderam-se, lassos, desinquietos, pacificados, dois pretos avançaram para o corpo de Francisco Félix de Sousa, rolaram o corpo do Luso, que, estirado, de perna esquerda aos repelões, agonizava, levantaram Francisco Félix de Sousa pelas pernas e pelo tronco, arrastaram-no para o portão e espojaram-no de bruços na garupa de um cavalo, Simão e os sete escravos, de espingarda apontada e catanas alçadas, perfilados, recuaram como um bloco, atravessando o portão, os cavalos resfolegavam encostados ao muro, cheirando o sangue que pingava do corpo mole de Francisco Félix de Sousa, dois pretos calmaram-nos, eihááá, eihááá, disseram baixo, afagando-lhes o pescoço, Simão pulou para o cavalo que carregava Francisco Félix de Sousa, esporeou-o e gritou, eihááá, eihááá, e o matalote dos salvadores lançou-se à galopada, afastando-se da ladeira da Barra, ganhando a estrada para a igreja de Nossa Senhora da Piedade; Francisco Félix de Sousa, a cabeça balouçante a chocalhar na coxa suada do cavalo, lançou obliquamente o meio olho que lhe obedecia para o redondel do firmamento, a via leitosa do céu cobria-se de numerosas estrelinhas latejantes, como brilhantinhos de lata na túnica azul-escura do Senhor dos Navegantes, pensou Félix, sorrindo com a meia boca, porém, entre todas, uma estrela tremeluzia mais rijamente, parecendo só piscar para o olhar mortiço de Francisco Félix de Sousa, seguirei o caminho da tua luz, entaramelou a sua meia boca, viverei mais meia vida, a minha fortuna mudará e experimentarei a paz que nunca tive.





Miguel Real,
Fontanelas, 30 de Setembro de 2006.

2 Comments:

Anonymous ams said...

Interessante como exercício lúdico de linguagem, mais no plano do léxico que na invenção sintáctica. Muita coordenação, pois claro, ou não fosse essa a lição de Saramago, a sua fórmula secreta. Muito neo-barroco cultista, que não conceptista, já que, no tempo em que vamos, é desnecessário dizer algo novo.

3:11 da tarde  
Anonymous Clockwise said...

Fiquei intrigado com a data... publicado hoje 29/09 e já vem com a data de amanhã?

5:31 da tarde  

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