17.9.06

LUXÚRIA

LUXÚRIA

Manelinho, enquanto me deito conta-me uma história, rogava o Visitador do Tribunal do Santo Ofício ao escrivão da provedoria de São Salvador. Manelinho, descalçando os chapins de pele de gamo europeu, abriu a boca a deixou sair as palavras a que se habituara.
O primeiro a ir à Mesa do Tribunal, ainda no Colégio dos Jesuítas, ali, ao Terreiro de Jesus, foi o vigário de Matoim, no Recôncavo, Frutuoso Álvares, um clérigo que toda a cidade sabia que não havia pai de mancebo que dele não fugisse, levando o efebo para mais longe de Matoim do que de amendoim. Foi-lhe dado juramento dos Santos Evangelhos, em que depôs sua mão direita, sob cargo dos quais prometeu dizer a verdade. A verdade era que de há quinze anos a esta parte o vigário Frutuoso cometera a torpeza dos tocamentos desonestos com quarenta paroquianos, pouco mais ou menos, abraçando, beijando, a saber, com Teocrato de Aguiar, de dezoitos anos, com quem teve tocamentos com as mãos em suas naturas, ajuntando uma com a outra e havendo polução da parte do dito mancebo duas vezes, e assim também tocou no membro desonesto a António de Siqueira, com este moço não houve polução, e assim também teve congresso por diante ajuntando os membros desonestos um com o outro, sem haver polução, com um tal Medina, castelhano, que por aqui passava de carreira, e outra vez com este mesmo teve abraços e beijos e tocamentos no rosto, e assim com outros muitos moços e mancebos, mas todos brancos, branquinhos, nada de mulataria e negraria, que a fruta do Frutuoso não é o terreiro do pardal, onde todos bicam e ninguém vê, e tendo com uns ajuntamentos por diante e dormindo com outros algumas vezes na cama, e tendo cometimento a alguns pelo vaso traseiro, sendo ele o agente, e outros sendo ele o paciente, consentindo o Frutuoso que o cometessem, lançando-se de barriga para baixo e pondo em cima de si os moços, um deles sendo natural de Braga, filho de João Álvares, ora picheleiro, ora paneleiro, e há vinte anos consumou o Frutuoso, em Lisboa, o pecado de sodomia com Francisco Dias, estudante, metendo o seu membro desonesto pelo vaso traseiro deste, dormindo com ele por detrás como um homem dorme por diante com uma mulher pelo vaso natural, e tendo sido descoberto foi degredado para as galés, indo parar a Cabo Verde, onde também foi acusado por tocamentos torpes e por apresentar uma demissória falsa, pelo que foi enviado preso para a Lisboa, a Prostituta, onde pelas ditas culpas foi sentenciado a degredo eterno nestas partes do Brasil, e já na Bahia foi acusado pelo mesmo pecado, por o ter cometido com o rapaz Diogo, que ora é casado com a padeira Pinheiro, de que saiu absolvido por não haver prova de culpa, a padeira Pinheiro jurara que toda a noite o Diogo ficara de tocaia ao forno do pão. O bispo Alexandrino Eminência descartou-se do Frutuoso nomeando-o pároco das terras do confim chamadas Matoim, vai para lá, ó Frutuoso, e toma juízo, disse o bispo Eminência Alexandrino. Mas logo o Frutuoso foi acusado pelos irmãos Alberto e Roberto Poderoso, ora mestres-de-açúcar no Recôncavo, e deste caso saiu condenado por cuniaria, que pagou, e em suspensão das ordens por certo tempo, que já levantada lhe foi, claro, a falta de clérigos exige, o vicariado precisava de nomeações, o bispo Eminência o admoestou muito, ó Frutuoso, logo tu que és sacerdote e pastor de almas, e tão velho, pois que contas sessenta e cinco anos pouco mais ou menos, e não cessas de cometer tantos actos torpes em ofensa de Deus Nosso Senhor. Assine aqui, Frutuoso Álvares, a confissão de culpa, eu, escrivão da provedoria e no caso tabelião do Santo Ofício, assino aqui, Manuel Francisco, e Vossa Reverência – sussurrava Manelinho, lambendo a orelha esquerda do Visitador-Mor -, assina aqui, aqui nesta linha, eu mesmo fiz a linhinha, não, não é pilinha, por quem sois, fico atemorizado quando olho para a face rebrilhante de Reverência Vossa, não digo coisa com coisa, é aqui a assinaturazinha. Do leito, o Visitador-Mor erguia a mão direita, disposta como se entre os dedos assentasse a pena de escrever, assinava no ar o seu nome, com a mão esquerda apagava o borrão de azeite de baleia da cela, esta escurecia, como as trevas do inferno, o Visitador-Mor assentava as mãos invisíveis na cabeça de Manelinho, procurava-lhe a língua, puxava-a, chorando, dizia, tenho uma comichãozinha na barriguinha que só passa com lambidelas de gato malhado, como não há gato malhado na cela coça-me tu, meu certo secretário, a barriguinha com a tua linguinha.

Manelinho, enquanto me deito conta-me nova história, rogava o Visitador do Tribunal do Santo Ofício ao escrivão da provedoria de São Salvador. E Manelinho, acostumado, descalçando os chapins de pele de gamo europeu, abriu a boca a deixou sair as palavras a que se habituara.
Confissão de denúncia de Guiomar d`Oliveira, cristã-velha, natural da cidade de Lisboa, filha de Isabel Jorge e de Cristóvão d`Oliveira, meirinho das viagens da Índia, trinta e sete anos mais ou menos, casada com Francisco Fernandes, capitão-do-mato, morador nesta cidade de S. Salvador, e confessando disse que haverá quatro anos que conheceu nesta cidade Antónia Fernandes, natural de Guimarães, cristã-velha, viúva, mulher que foi de um Fuão da Nóbrega, homem que ia por dispenseiro nas naus de Lisboa, que a denunciante já conhecia da capital, conheceu por ser taverneira, morando nos Cobertos, debaixo das casas de Luís César, na Tanoaria, a qual veio degredada por alcovitar sua própria filha, por nome Joana da Nóbrega. E tomaram-se de amizade as duas, a denunciante e a denunciada, e vendo a dita Antónia que Guiomar era mal casada de seu marido, arengou-lhe sobre uns demónios que favoreciam os desejos de quem os invocasse, e a Guiomar veio a descobrir que a sobredita Antónia falava com os diabos e lhes mandava fazer, aos mafarricos, o que ela queria, e uma vez lhes mandara matar um homem e o homem apareceu morto, e que, em Santarém, onde antes vivera, dera aos diabos um escrito do sangue de seu dedo, no qual se lhes entregava, e que eles lhe ensinaram muitas coisas de feitiçaria, e então a Antónia lhe ensinou que tomasse três avelãs, ou, em seu lugar, três pinhões, furados com um alfinete, e tirado o miolo fora, os recheasse de cabelos todos do seu corpo, seu dela, denunciante, e unhas de seus pés e mãos e rapaduras das solas dos pés, e assim mais com a unha do dedo pequeno do pé da mesma Antónia Fernandes, e que assim recheados os ditos pinhões os engolisse e que, depois de lançados por baixo, os desse, e a denunciante assim fez, e a Antónia torrou os pinhões e os fez em pó, o qual ela, denunciante, o deu a beber a João d`Aguiar, lavrador em Itaparica, e isto lhe deu para ele se amigar dela e de seu marido e que os não apertasse muito pela dívida do aluguel de sua casa, onde viviam, e outrossim lhe deu também a dita Antónia outro pó de osso de finado, o qual a denunciante deu a beber a seu marido para ser seu amigo e serem bem casados, e também lhe ensinou que a semente de homem, dada a beber ao próprio, trazia afeição e ela assim fez, depois de terem ajuntamento carnal e cair do seu vaso, deu-a a beber a seu marido, misturando-a com vinho, e mais confessou que a dita Antónia tinha um vidro em que estava uma coisa que falava e respondia quanto queriam saber e que em certos dias da semana cuidavam de pôr cebola e vinagre perto do dito vidro porque aquilo que nele estava era amigo desse comer, e também lhe disse que ia tornar-se amigo de um clérigo da Sé, que lhe faria feitiços para o atrair, para que o dito clérigo lhe desse os óleos do baptismo, porque os desejava muito para dar aos diabos, e também para untar os beiços, e, com eles untados, no acto venéreo, beijar na boca aos homens leigos e na coroa aos clérigos, porque com isto ficavam tais que não se podiam mais apartar de sua conversação, sua da dita Antónia, e também lhe ensinou que, no acto carnal desonesto, se a mulher dissesse na boca do homem as palavras de consagração, que eram cinco, hoc est enim corpus meum, o fariam endoidecer de amor, ao homem, e que também sabia umas palavras que encantavam qualquer homem, as quais palavras eram, fuão, eu te encanto e reencanto com o lenho da vera cruz e com os anjos filósofos que são trinta e seis, e com o mouro encantador, que tu te não apartes de mim, e me digas quanto souberes, e me dês quanto tiveres, e me ames mais que a todas as mulheres, e ela denunciante disse estas palavras muitas vezes enquanto seu marido dormia, e disso pede misericórdia a esta Santa Mesa, e também lhe disse a dita Antónia que fora uma noite a Vila Velha, termo desta cidade, cortar a mão a um negro que lá estava enforcado, e que o diabo vinha falar a ela, Antónia Fernandes, em figura de homem, acompanhado de muitos cavaleiros, e que se ela, denunciante, quisesse ser feiticeira como ela, Antónia, que faria que o diabo lhe falasse em figura de homem, para que ela não tivesse medo, mas a denunciante sempre fazia o sinal da cruz e invocava o nome de Jesus, e a dita Antónia fugia, e dizia a dita Antónia que tinha um diabo que era seu fiel servidor, chamava-se Antonim e fazia tudo o que ela lhe mandava, e que a sua filha Joana Nóbrega, moradora em Lisboa, também era feiticeira e tinha um diabrete que se escondia no anel que trazia ao dedo, o qual chamava Baul ou Baal, e que a sua dita filha dormia com os estrangeiros por detrás que vinham ao reino, consumando o nefando pecado de somítigos [sodomia], porque lhe pagavam bem, e tem a denunciante que confessar que o pó e a semente de homem deram resultado que desde então não mais João d`Aguiar os apertou com o pagamento e que seu marido agora é bem maridado com a denunciante, e sobre a denunciada Antónia Fernandes mais a denunciante disse que outras pessoas também sabiam de tudo isto, como João Ribeiro, de Paripe, Manuel Rodrigues Ribeiro, mercador, Maria Pinheiro, mulher de Simão Nunes Dutra, e Gonçalo Dias, cónego, e Francisca Pinheiro, padeira, todos moradores nesta cidade, com os quais a dita Antónia tinha amizade e conversação. Assine aqui, a denunciante, Guiomar d`Oliveira, e eu que passei e transcrevi, Manuel Francisco, ora na qualidade de escrivão do Santo Ofício, e eu, que a tudo inquiri e presidi, Visitador-Mor, puro por dezasseis vezes de ascendência, sem mácula de sangue infecto de mouro ou judeu.
Bela história Manelinho, muito instrutiva, estimei a parte em que a denunciante disse que “a semente de homem, dada a beber ao próprio, trazia afeição” – e a semente alheia, Manelinho, trará afeição mútua? Vamos experimentar esta noite, Manelinho, apaga a luzerna.

Manelinho, enquanto me deito apetece-me nova história, rogava o Visitador do Tribunal do Santo Ofício ao escrivão da provedoria de São Salvador. E Manelinho, acostumado, descalçando os chapins de pele de gamo europeu, abriu a boca a deixou sair as palavras a que se habituara.
Era uma cristã-velha, de nome Maria Lourenço, de Viseu, filha de António Pires, caldeireiro, e de Maria Francisca, já defuntos, ela tem quarenta anos, salvo coisa, e é casada com António Gonçalves, também caldeireiro, puxa-lhe para os caldeireiros, foi delatada, por quem não sabemos, rabiscos anónimos deixados ao portão da igreja de São Domingos. E, confessando, disse que haverá quatro anos estando ela em uma roça, meia légua desta cidade, pertencente a Francisco Pires, pedreiro, foi ter com a mulher deste, Felipa de Sousa, e a dita Felipa se fechou em uma câmara com ela, depois do jantar, pela sesta, e lhe começou de falar muitos requebros e amores e palavras lascivas, melhor ainda do que se fora um rufião à sua barregã, e lhe deu muitos abraços e beijos, e, enfim, a lançou sobre a sua cama e, estando ela, confessante, de costas, a dita Felipa se deitou sobre ela de bruços com as fraldas de ambas arregaçadas, e assim com seus vasos dianteiros ajuntados, e estiveram assim ambas deleitando-se até a dita Felipa, que de cima estava, cumpriu, e assim fizeram uma com a outra como se fora homem com mulher, porém não houve nenhum instrumento exterior penetrante entre elas mais que somente seus vasos naturais dianteiros, e na noite seguinte Felipa foi contumaz, mas a confessante não deixou e disse a Francisco Pires, que é homem velho, que não deixasse sua mulher sair da cama, mas a dita Felipe queixou-se de dores na madre e fez levantar o dito homem para que ela, confessante, a viesse curar, mas a confessante não foi, e a Felipa Sousa gabava-se de ter desonesta e nefanda amizade com Paula de Siqueira, mulher do contador, e com Paula Antunes, mulher do abegoeiro, e com Maria Pinheiro, mulher de Simão Nunes Dutra, o ourives, e que, em uma sesta, se fechara com Paula de Siqueira e esta lhe dera um anel de ouro, e que assim todas lhe faziam, à Felipa, muitos mimos, e só a confessante, Maria Lourenço, a desprezava, e que se fosse preciso lhe dava mil réis, até porque já o deu a uma moça casada com um ferreiro alcorcovado, que mora ao Mosteiro de S. Bento, o Bentinho Marreca, para que esta deixasse a dita Felipa cumprir, e deixou, e mais confessou que ela, Maria Lourenço, pelejando com seu marido, com cólera e agastamento lhe chamou somítigo [sodomita], dizendo que ele a dormia por detrás, e os vizinhos ouviram, porque aqui em S. Salvador há sempre vizinhos a ouvir, porém que isto é falsidade e o dito seu marido não é tal, nem tal lhe fez nunca, e que pode ser que algumas pessoas lhe ouviram que ela disse isto com fúria, mas é tudo falso. A confessante suplica misericórdia desta Santa Mesa, admoestada que vai não recometerá nefando acto e espera penitência que o Visitador-Mor, pensando e concluindo, dita ser: que Maria Lourenço reze 20 coroas a Nossa Senhora, que é o mesmo que dizer 300 Pais-nossos e 200 Ave-marias ao longo de todas as semanas até ao final do ano, que é o mesmo que dizer 6000 Pais-nossos e 4000 Ave-marias, e se for contumaz que seja degredada para a cafraria de Angola, que lá não há mulheres brancas e a Mesa não acredita que à confessante se juntem as pretas, que causa nojo e horroriza a nossa natureza, vá assine e dê-se por muita sorte, Maria Lourenço, e eu que escriturei, notário secretário do Santo Ofício nesta cidade de S. Salvador do ano de 1693, Manuel Francisco, e Vossa Reverência é aqui, aqui nesta linha, eu mesmo fiz a linhinha, não, não é pilinha, por quem sois, fico atemorizado quando olho para a face rebrilhante de Reverência Vossa, não digo coisa com coisa, é aqui a assinaturazinha, debaixo do registo de Sua Eminência, o Visitador-Mor.
Ai, Manelinho, a Felipa deu muitos abraços e beijinhos a Maria Lourença, e tu não mos dás, não és meu amigo, se o fosses fazias-me o que ambas fizeram, arregaçavas o fraldão e unias a tua à minha natura, ai, que vai ser tão bom, Manelinho.



Miguel Real,
Fontanelas, 16 de Setembro de 2006.

13 Comments:

Blogger luisnaves said...

brilhante! A riqueza da linguagem, as personagens, o humor. Excelente estreia

5:05 da tarde  
Blogger RAA said...

Mas que grande prazer v(l)ê-lo por aqui! Um abraço.

7:05 da tarde  
Blogger Artur Torrado said...

Assim não vale. Era suposto serem prazeres minúsculos...

6:20 da tarde  
Blogger CLeone said...

Seja bem aparecido!
AAbraço
Carlos

12:02 da tarde  
Anonymous renato c. said...

Linguagem esdrúxula, municiada por um humor cirúrgico. A surpresa só não é total porquanto já se espera maravilhas de alguém que se sabe reinventar o dom de encantar serpentes nos acordes da sua escrita.

Parabéns, portanto, e nada de baixar os braços — que «somos», ao que parece, uma matilha sequiosa.

9:25 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

A turbamulta de ranhosos pode até tentar matar os modos de dizer, mas nunca travará o pensamento nem a palavra, porque a liberdade de rir do profeta pateta é uma pérola sagrada, onde Deus e o Ratinho Blanco também riem, e às gargalhadas, apesar da vontade de se peidarem.” – Quitéria Barbuda in “O Profeta Monga”, Revista “Espírito”, nº 26, 2006.


www.riapa.pt.to

7:02 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Um texto é um sem fim de subjectividade, contudo, a verdadeira literatura, é aquela inquestionável e tão sóbria beleza de dizer uma história..

3:04 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

eu é que sou um gajo todo erudito, impressionista, com palavras a saltarem-me por todos os bolsos...

o Zé da Metáforas

3:58 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

REALmente uma bela merda!

Comentário de: Whitman & Caeiro Lda.

4:06 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

vá lá: deixaram ficar a realmerda.

11:28 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

o miguel não é real

4:26 da tarde  
Anonymous Henrique Levy said...

Um texto muito criativo e enriquecedor . Transporta-nos a uma época em que a Luxúria, muitas vezes,se despedia da sensualidade com um ATE MAIS TARDE. Gostava de ver o tema tratado de forma mais actual e envolvendo a Luxúria com o Amor. Construção dificil ! Fica o desafio e os meus parabéns pelo excepcional uso da Língua. H Levy

9:05 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Não há já uva deste vinho.
Admiro, profundamente, o seu trabalho.

10:54 da manhã  

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